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Brasil
O último show de Severino
Acuado pela pujança das provas do
mensalinho, o deputado protagoniza
um espetáculo de versões insustentáveis

Alexandre Oltramari
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Fotos, Edilson Rodrigues/CB, Valter
Campanato e reprodução

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NEM O FILHO MORTO
ESCAPOU DA LAMBANÇA
Severino Cavalcanti, que está de saída
do cargo e do mandato, e a secretária Gabriela Martins,
que foi convencida a contar que o cheque da propina de 7 500
reais era, na realidade, uma contribuição financeira
à campanha eleitoral do filho de Severino, morto em agosto
de 2002: por essa ninguém esperava, mas o deputado achou
melhor jogar a culpa na conta do filho já falecido |
Há duas características
notáveis no escândalo do mensalinho de Severino Cavalcanti.
A primeira está na pujança de indícios e provas
mostrando que o empresário Sebastião Buani, concessionário
de um restaurante na Câmara, tinha uma clandestina relação
financeira com o deputado. Está cabalmente provado que Buani
pagou 40.000 reais para prorrogar a concessão do seu restaurante
até janeiro de 2005. Já aparecera o documento prorrogando
a concessão, com data de 4 de abril de 2002 e a assinatura
de Severino. Na semana passada, apareceu o extrato bancário
de Buani, mostrando um saque de 40.000 reais no mesmo dia 4 de abril
de 2002. Não falta mais nada. No caso do mensalinho de 10.000
reais, também não há mais zonas de sombras.
Buani vinha tentando provar que pelo menos um mensalinho fora pago
por meio de cheque e descontado na boca do caixa por um motorista
de Severino. Na semana passada, apareceu o cheque, de 7 500 reais,
com data de 30 de julho de 2002. O endosso não era do motorista,
mas de Gabriela Kênia dos Santos da Silva Martins, uma das
secretárias de Severino a mesma que, em depoimento
anterior à polícia, negara ter recebido qualquer quantia
de Buani. Caso encerrado.
A outra característica
marcante é decorrência da abundância de provas:
os insustentáveis malabarismos de Severino para mostrar que
tudo é "mentira, mentira, mentira", como ele mesmo disse,
num de seus saltos triplos sobre a verdade. Para esquivar-se do
cheque endossado por sua secretária, a prova mais cabal do
pagamento de propina, Severino rompeu os limites da decência
num plano que ninguém imaginara: jogou a culpa no filho morto.
Disse que o cheque fora uma contribuição à
campanha de seu filho, que morreu num acidente de carro pouco antes
da eleição de outubro de 2002, na qual concorria a
uma cadeira de deputado estadual em Pernambuco. A prestação
de contas da campanha de Severino Cavalcanti Júnior à
Justiça Eleitoral informa que houve apenas uma doação,
de 1 000 reais, e feita pelo próprio candidato. Ou seja:
para livrar-se da acusação, Severino, o vivo, denunciou
o caixa dois de campanha de Severino, o morto o que, além
de tudo, não resolve nada, pois a tal contribuição
em cheque pode muito bem ter sido resultado das propinagens de Severino,
o vivo.
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Fotos Dida Sampaio/AE, reprodução
Edi Ferreira/AE
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O EXTRATO
DOS 40 000 REAIS
O empresário Sebastião
Buani e a cópia do seu extrato bancário em abril
de 2002, onde aparece o saque de 40 000 reais: prova cabal |
A versão foi cuidadosamente
discutida com a secretária Gabriela Martins, numa reunião
de sete horas na casa oficial de Severino, da qual saiu convencida
a contar a novidade num novo depoimento à Polícia
Federal. O ex-prefeito Paulo Maluf e seu filho Flávio estão
presos em São Paulo desde o dia 10 de setembro, sob a acusação
de tentar orientar o depoimento de um réu, o doleiro Vivaldo
Alves, o "Birigüi", que revelou detalhes da roubalheira monumental
de Maluf na prefeitura de São Paulo. Os Maluf estão
presos por "coação de testemunha" e "tentativa de
obstrução da Justiça" mais ou menos
o que Severino fez com sua secretária durante sete horas
na residência oficial da Câmara. Antes, Severino fizera
uma tremenda lambança para livrar-se de outra prova, o documento
da concessão. Deu versões contraditórias. Disse
que o documento não existia. Que o documento existia, mas
não tinha sua assinatura. Que se tivesse sua assinatura é
porque assinara sem ler... Por fim, anunciou que um perito descobrira
que o documento era "montado eletronicamente", mas escondeu que
o próprio perito, Adamastor Nunes de Oliveira, ressalvara
que seu laudo não era conclusivo.
A fartura de provas, aliada aos
desmentidos patéticos de Severino, acabou por dar nitidez
ao caso, mas nem sempre foi assim. Quando VEJA chegou às
bancas com a capa "O 'mensalinho' de Severino", nem todo mundo entendeu
a seriedade do assunto por conveniência ou por miopia.
Os petistas do mensalão, empenhados em preservar Severino
do naufrágio, fizeram todo tipo de reparo à denúncia.
Até alguns colunistas de jornal, nesse caso por miopia mesmo,
passaram a desprezar todas as evidências e provas do caso
provas testemunhais, circunstanciais, indiciárias
para exigir uma suposta prova material. Deixaram-se levar
por um surto pombalino, talvez querendo que a propina fosse demonstrada
com um recibo de pagamento, com assinatura dos corruptos, data e
carimbo ora, pois. Nem todos, é claro, caíram
na esparrela. Certeira, a colunista Dora Kramer, do jornal O
Estado de S. Paulo, esteve entre as primeiras vozes na imprensa
a perceber o que acontecia e, logo nos primórdios do escândalo,
convidou Severino a "apresentar escusas gerais e retornar à
João Alfredo natal". É o que Severino deve fazer nas
próximas horas, sem as escusas.
Vidal Cavalcanti/AE
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MALUF NA CADEIA,
SEVERINO EM CASA
Maluf, ao ser preso sob a acusação de
coagir o doleiro que sabe de tudo: como Severino |
A imprensa está no olho
do Katrina da crise justamente porque tudo começou a partir
do trabalho jornalístico. A origem do transe que paralisa
Brasília é a divulgação do vídeo
da corrupção nos Correios, que motivou as denúncias
gravíssimas de Roberto Jefferson, que puseram o carrossel
da corrupção a rodar numa velocidade estonteante.
Por isso mesmo, é fundamental compreender as limitações
do trabalho jornalístico. A imprensa, ao contrário
da polícia, não pode obrigar uma testemunha a prestar
depoimento. A imprensa também não faz operações
de busca e apreensão de documento, como o Ministério
Público costuma fazer quando precisa obter uma prova. A imprensa
também não tem poderes para quebrar sigilo bancário,
telefônico ou fiscal de quem quer que seja. São prerrogativas
exclusivas da Justiça e das comissões parlamentares
de inquérito. O trabalho da imprensa, portanto, não
é pluripotente. No caso do mensalinho de Severino, VEJA publicou,
já na estréia do escândalo, tudo o que era jornalisticamente
possível tanto que, passadas duas semanas, o caso
não teve avanço algum a partir da investigação
jornalística.
Como é recorrente nas
ocasiões em que a imprensa assume o centro do palco, VEJA
chegou a ser acusada até de comprar informação
sobre o caso do mensalinho. Em Nova York, no feriado de 7 de Setembro,
animado com o desmentido feito dois dias antes por Buani de que
não pagara propina alguma, Severino acusou a revista. "Houve
leilão entre as revistas e VEJA comprou denúncias
falsas", disse. VEJA não paga por informação.
A fonte da revista foi o então gerente financeiro de Buani,
Izeilton Carvalho, que não recebeu um único tostão
de VEJA para contar tudo o que sabia. Izeilton Carvalho, de fato,
ofereceu a mesma história a outras publicações
semanais e, no caso de uma delas, mandou um e-mail em que foi explícito
no seu convite para "negociar" as informações que
detinha. O fato de ter escolhido dar seu depoimento a VEJA
mesmo sem receber nenhum tostão em troca talvez explique
um pouco a excelência do trabalho jornalístico que
a revista sempre busca.
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