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Brasil Da
utopia ao caos Como o PT forjou
sua derrocada: do nascimento apoiado no equivoco socialista e no mito
do líder operário ao esfacelamento de seu patrimônio ético e à chegada ao
banco dos réus  Marcelo
Carneiro e Juliana Linhares
Joedson
Alves/AE
 | ONTEM,
HOJE Luiz Gushiken, Luiz Inácio Lula da Silva
e José Dirceu, em foto de 1984; acima, os três pouco antes da eclosão da crise
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O Partido dos Trabalhadores
elege neste domingo o grupo que irá determinar os rumos da agremiação
nos próximos cinco anos (se é que o PT durará tanto). Da
disputa da qual sairão os nomes dos presidentes dos diretórios
nacional, estadual e municipal participam, além do candidato do
Campo Majoritário, o grupo liderado pelo ex-ministro José Dirceu
que tenta se manter no poder, nove correntes da esquerda do partido. A última
eleição desse tipo no PT ocorreu em 2000. Naquele ano, vencê-la
significava conquistar o controle de uma formidável máquina partidária
com 1 milhão de filiados e um caixa azul como céu de brigadeiro.
O PT tinha então 187 prefeituras, reputação de "partido ético"
e chances reais de conquistar pela primeira vez a Presidência da República.
Hoje, a situação é bem diferente. A dívida oficial
da legenda é de 20 milhões de reais, seus principais dirigentes
estão sentados no banco dos réus das CPIs, ameaçados de cassação,
e as perspectivas para as eleições de 2006 são, na mais otimista
das hipóteses, dramáticas. A cientista política Lúcia
Hipólito estima que as bancadas do partido na Câmara dos Deputados
e nas assembléias legislativas dos estados devam minguar em, pelo menos,
um terço. À chapa vencedora
das eleições deste domingo, portanto, restará pouco mais
do que a melancólica missão de administrar uma massa falida.
Na semana passada, sete petistas incluindo José Dirceu e o ex-presidente
da Câmara João Paulo Cunha conseguiram fazer com que o Supremo
Tribunal Federal (STF) lhes concedesse liminar impedindo temporariamente a abertura
de seus processos de cassação. O episódio somado à
resistência do partido em apoiar o pedido de cassação do presidente
da Câmara, Severino Cavalcanti (veja reportagem)
mais a inacreditável manutenção do ex-tesoureiro Delúbio
Soares nos quadros da legenda dá mostras de que os dirigentes petistas
já abandonaram a luta no terreno político para dedicar-se à
exclusiva missão de salvar a própria pele e a dos aliados
que puderem lhes garantir alguma sobrevida. A ruína do PT deu-se em tempo
recorde. Foram necessários apenas 100 dias para que uma alucinante sucessão
de revelações fizesse com que o partido fosse soterrado pelos escombros
do seu patrimônio ético (veja
quadro). Uma edificação não vai ao chão em
tão pouco tempo a menos que seus alicerces estejam podres. É o caso
do PT. O partido padece de um erro
de origem: nasceu assentado sobre dois equívocos. O primeiro foi ter sido
criado sob o signo do socialismo quando a idéia já seguia em franca
decadência no restante do planeta. Dois anos antes da fundação
do PT, em 1980, a China já havia iniciado o processo de descoletivização
da sua agricultura. Começara a estimular a entrada de capital e tecnologia
estrangeiros e a instalação de multinacionais no país. Em
1985, o então presidente russo Mikhail Gorbachev dava início à
perestroika (o processo de abertura da economia soviética) e, em 1989,
o Muro de Berlim caía, revelando ao mundo o assalto ao Estado protagonizado
pelos partidos comunistas do Leste Europeu e fazendo desabar com ele a utopia
marxista. Enquanto isso, o PT, recém-criado, divulgava manifestos pregando
a "solidariedade à luta de todas as massas oprimidas do mundo" e aos "explorados
pelo capitalismo". Do ponto de vista ideológico, portanto, o PT já
nasceu póstumo. "Ele foi no contrafluxo da esquerda", reconhece Roberto
Schwarz, crítico literário e um dos primeiros intelectuais a apoiar
a legenda, à qual ainda é filiado.
Celso
Junior/AE
 | QUEM
DIRIA Do senador Pedro Simon para José Genoíno,
no banco dos réus da CPI: "Nunca imaginei ver o senhor aí" |
O
segundo equívoco do PT decorre do primeiro. O partido foi formado por uma
mixórdia: sindicalistas, militantes egressos da luta armada, integrantes
da esquerda católica e intelectuais marxistas. Este último segmento,
sobretudo, encarregou-se de construir um mito o de que o então presidente
do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, Luiz Inácio
Lula da Silva, era o guia excelso da classe trabalhadora rumo ao paraíso
socialista. Ora, Lula nunca foi socialista. Não se pode nem mesmo dizer
que era "de esquerda". Lula era, sim, um líder sindical forjado no pragmatismo
das brigas salariais entre operários e empresários como ele
mesmo deixou claro em um histórico debate travado com um deputado em 1982.
Quando um parlamentar perguntou se
ele era "comunista, socialista ou o quê", Lula respondeu: "Sou torneiro
mecânico". Movido pela ambição pessoal, Lula numa perfeita
simbiose com os intelectuais que viam nele a figura do "líder operário
puro" embarcou gostosamente na aventura leninista. "Os intelectuais achavam
que Lula seria um tapete mágico capaz de levá-los à revolução.
Já Lula via nos acadêmicos outro tipo de tapete, aquele que poderia
ajudá-lo a chegar ao poder", diz o sociólogo Leôncio Martins
Rodrigues. Hoje, passados 25 anos, já se sabe qual dos tapetes chegou ao
destino traçado. Os intelectuais ficaram para trás a maioria
por decisão voluntária, fruto da percepção da realidade.
Há, claro, exceções. Na semana passada, a filósofa
Marilena Chaui, uma das principais ideólogas do PT, rompeu, da pior maneira
possível, o silêncio obsequioso que vinha mantendo até então,
a pretexto de "entender a crise". A filósofa declarou ter "descoberto"
o motivo pelo qual se tem "tanto ódio ao PT". "Eu sei hoje por quê:
é porque nós fomos o principal construtor da democracia neste país.
E não seremos perdoados por isso nunca", declarou. Encerrou seu discurso
com o grito de "no pasarán!", a palavra de ordem celebrizada por Dolores
Ibárruri Gómez, líder dos comunistas espanhóis que
ficou conhecida como "La Pasionaria". Não há, para os que têm
na razão e no pensamento a matéria-prima de seu trabalho (como é
o caso da filósofa), nada mais deletério do que se deixar levar
pela paixão cega. Ao incorrer nesse erro, Marilena Chaui abre mão
do título de pensadora para se tornar uma séria candidata à
vaga de Velhinha de Taubaté, a personagem recentemente "assassinada" pelo
escritor Luis Fernando Verissimo. As declarações da professora da
USP não foram, porém, de todo inócuas. Serviram, ao menos,
para mostrar que, contrariando todas as expectativas, a imensa arrogância
de alguns petistas permanece intocada a despeito dos dólares na cueca e
mesmo debaixo dos escombros do furacão da história que destroçou
suas teses. Ao atribuir ao PT o mérito
pela construção da democracia no Brasil, Marilena Chaui não
só comete, na melhor das hipóteses, um evidente exagero como passa
por cima do fato de que, para o PT, a democracia sempre teve um valor meramente
estratégico: nunca passou de "uma concessão ao regime burguês"
para chegar ao poder. O desprezo pela democracia representativa está no
DNA do partido. Foi ele que, em 1986, elegeu dezesseis deputados constituintes
para, em seguida, ensaiar um ato de recusa à assinatura da nova Carta.
Um documento oficial da agremiação, divulgado na ocasião,
justifica assim a recusa (mais tarde trocada por um "voto de protesto"): "O PT,
como partido que almeja o socialismo, é por natureza contrário à
ordem burguesa, sustentáculo do capitalismo. Disso decorre que ele rejeita
a Constituição burguesa que vier a ser promulgada, da mesma forma
que a Constituição vigente". Foi também o PT que, pouco antes,
em 1985, decidira expulsar de seus quadros três deputados que, contrariando
as diretrizes da legenda, participaram do colégio eleitoral que elegeu
Tancredo Neves, um dos principais episódios que marcaram o fim da ditadura.
Foi também seu mais importante dirigente, Lula, quem deixou escapar o desprezo
pelo Legislativo ao chamar o Congresso, em 1993, de "palco de 300 picaretas".
Picaretas com os quais, aliás, ele conviveu entre 1987 e 1991, sem jamais
esconder seu tédio e sua falta de entusiasmo pela função.
Lula, ao contrário do que tenta
demonstrar, tem imensa responsabilidade pela derrocada do partido que ajudou a
criar. A ambigüidade com que fez sua estréia na sigla, a manutenção
da esquizofrenia ideológica ao longo dos 25 anos de existência da
legenda e a nomeação de José Dirceu como líder do
apparatchik que proporcionaria aos petistas um reinado de 1.000 anos, para ficar
só em alguns exemplos, foram escolhas de ninguém menos do que o
próprio Lula. Os resultados são os que hoje se vêem. A adesão
meramente tática à democracia se refletiu recentemente nas tentativas
de censurar a imprensa, amordaçar o Ministério Público, controlar
a produção cultural e impor normas ao pensamento acadêmico.
A máquina montada por Dirceu funcionou a serviço do suborno e da
corrupção (tudo supostamente "lavado" com o sabão da causa
nobre a perpetuação no poder para o bem do povo) e produziu
cenas insólitas como a protagonizada por José Genoíno na
semana passada. O ex-presidente do PT foi, nos anos 90, um dos integrantes da
tropa formada por parlamentares petistas que cerraram fileiras pelo impeachment
de Fernando Collor e pela cassação dos anões do Orçamento.
Na terça-feira, o mesmo Genoíno surgiu balbuciando argumentos implausíveis
no tribunal em que antes estivera como acusador situação
que lhe rendeu um aparentemente sincero comentário do senador Pedro Simon
(PMDB-RS): "Nunca imaginei ver o senhor em uma situação como essa".
Por fim, a eterna dicotomia cultivada pelo PT entre os ideais socialistas e o
mundo real fez com que o partido deixasse de cumprir aquele que poderia ter sido
o seu papel contribuir para a consolidação de um sistema
político em que os rótulos de esquerda e direita não cabem
mais. "A idéia de que há um pacote ideológico, representado
por essa divisão, que dê respostas a todas as questões não
faz sentido no mundo em que vivemos hoje", afirma o filósofo José
Arthur Giannotti. "Cada problema tem de ser pensado nos seus próprios termos.
E isso dá mais trabalho", diz.
Jefferson
Coppola/Folha Imagem
 | A
PASSIONÁRIA DA USP Para a filósofa Marilena Chaui,
a Justiça é uma idéia socialista e o PT atrai ódio porque "construiu a democracia".
Faltou discorrer sobre os dólares na cueca |
Ao
recusar-se a assumir a tarefa de pensar e agir com honestidade, o PT se viu obrigado
a seguir o caminho trilhado pelos partidos tradicionais de esquerda que hoje ilustram
minguadas páginas dos livros de história como experiências
fracassadas. O sociólogo alemão Robert Michels já descrevia
esse percurso em 1911, no livro Sociologia dos Partidos Políticos.
Segundo Michels, faz parte do código genético dos partidos de esquerda
a tendência à burocratização e à formação
de uma elite que, no lugar dos velhos anseios socialistas, passa a administrar
apenas sua própria sobrevivência política. "O PT repetiu o
destino comum a esses partidos: um grupo assume o comando, torna-se hegemônico
e toma de assalto o Estado", diz Giannotti. Foi o que aconteceu no México,
onde o Partido Revolucionário Institucional (PRI) comandou a política
do país por sete décadas até ser banido, no fim dos anos
90, quando a corrupção entre os quadros dirigentes da legenda atingiu
níveis escandalosos. As eleições
para o Diretório Nacional do PT, neste domingo, reúnem seis chapas
com alguma chance de romper a hegemonia que os bolcheviques (ou Campo Majoritário,
em português), o grupo de Dirceu, detêm há dez anos. A julgar
pelas propostas apresentadas pelos candidatos até agora (veja quadro
na pág. 48), é certo que, não importa o resultado, ele
estará longe de significar uma promessa de ressurreição do
partido. Se os bolcheviques prevalecerem, o mais provável é que
o PT vá a pique num prazo recorde, com a intensificação da
debandada nas hostes petistas. Ela já é grande. Desde a eclosão
dos escândalos, os sovietes (diretórios, em português) municipais
foram definhando de tal forma que hoje, nas cidades com menos de 30.000 habitantes,
em vários deles não há quem atenda o telefone nas sedes locais
do partido. No caso de uma das correntes de extrema esquerda radical ganhar, o
cenário só é um pouco menos desastroso estima-se que
a legenda encolherá de maneira substancial, passando a contar com cerca
de 10% a 15% do eleitorado. Não é muito é uma taxa
que quase coincide com a prevalência de outro mal endêmico do Brasil,
o analfabetismo (10%). Mas a crise do PT, qualquer que seja o seu desfecho, pode
oferecer algo de positivo ao país. Desfeita a idéia de que o petismo,
hoje transformado em distopia, representava a única opção
política "verdadeiramente virtuosa", o eleitor poderá entender melhor
cada problema do país em seus próprios termos e não
como um feixe de questões a ser resolvido mediante a consagração
de uma oposição detentora de soluções mágicas.
"Não amadureceríamos se não queimássemos as ilusões
petistas", diz Giannotti. Nesse sentido, a gangue que tomou de assalto o PT não
poderia ter facilitado mais o trabalho. |