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Carta ao leitor
O alto preço de não punir
Dida Sampaio/AE
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| Jobim, do STF: pedra no caminho |
O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Nelson
Jobim, tomou uma decisão na semana passada que não
contribui para mitigar a desconfiança popular de que a crise
política pode terminar, se não numa pizza gigante,
pelo menos numa pizza de média para grande. Jobim concedeu
uma liminar que impediu que o Conselho de Ética abrisse processo
contra seis deputados do PT acusados de participação
no esquema do mensalão. Aproveitando-se dessa brecha, outros
deputados envolvidos na bandalheira também pediram o benefício
inclusive aquele que é o mentor intelectual do festim,
José Dirceu. Estimulados pela decisão de Jobim, os
advogados de Roberto Jefferson, já cassado pela Câmara,
pleiteiam agora no STF que seja revertida a punição
política sofrida pelo ex-deputado. A liminar concedida pelo
presidente do mais alto tribunal do país embute pontos de
vista polêmicos sobre os quais não cabe discutir aqui
entre eles, a aceitação, por parte de Jobim,
da alegação de que os acusados tiveram sua defesa
cerceada, o que soa quase como piada para qualquer cidadão
que assistiu, pela televisão, às sessões do
Conselho de Ética. Ressalte-se, no entanto, que um dos efeitos
mais danosos da decisão foi colocar mais uma pedra no caminho
para que, do âmbito dos castigos políticos, se passe
logo à esfera das punições criminais
estas, sim, efetivas o suficiente para não deixar o mais
leve odor de orégano no ar, e que devem incluir não
só os que receberam propinas, mas também os que as
pagaram.
A liminar de Jobim tem, ainda, um outro efeito
nocivo: o de reforçar a constatação de que
os políticos brasileiros estão mesmo acima da lei.
Uma reportagem da presente edição de VEJA mostra que
o conceito de imunidade parlamentar, surgido para conter ímpetos
autoritários contra a liberdade de opinião e voto
de deputados e senadores, foi sendo modificado e estendido de tal
forma a transformar-se numa armadura contra a Justiça. Hoje,
o Brasil faz parte de um grupo nada seleto de países em que
os parlamentares podem usufruir da imunidade política para
fugir a processos por crimes comuns. Uma excrescência. Na
Guatemala, Lula disse que ninguém está fora do alcance
da lei, nem mesmo o presidente da República. São palavras
alvissareiras. Mas é vital que tenham aplicação
prática e imediata.
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