|
Trinta anos de uma frase infeliz O
astronauta Armstrong cometeu Ele não podia ter arrumado outra frase? Vá lá que haja perpetrado grande feito indo à Lua, embora tal empreendimento soe hoje exótico como uma viagem de Gulliver, sensaborão como um fim de semana na Antártica. Mas Neil Armstrong, o primeiro astronauta a pisar na Lua, precisava ter dito: "Este é um passo pequeno para um homem, mas um salto gigantesco para a humanidade"? Não podia ter se contentado com algo mais natural ("Quanta poeira", por exemplo), menos pedante ("Quem diria, conseguimos"), mais útil como informação ("Andar aqui é fácil/difícil/gostoso/dói a perna") ou mais realista ("Estou preocupado com a volta")? Não podia. Convencionou-se que eventos solenes pedem frases solenes. Era preciso forjar para a ocasião uma frase "histórica". Não histórica no sentido de que fica guardada para a posteridade -- a posteridade guarda também frases debochadas, como "Se eles não têm pão, comam brioches". Histórica, no caso, equivale a frase edificante. É a História em sua versão, velhusca e fraudulenta, de "Mestra da Vida", a História rebaixada a ramo da educação moral e cívica. À luz desse entendimento do que é "histórico" Armstrong escolheu sua frase. Neste dia 20 de julho, quando se completam trinta anos da chegada do homem à Lua, a frase também completa trinta anos. Trata-se de um aniversário infeliz. Há um mau gosto, nela, que chega a contaminar a proeza a que diz respeito. Pode-se argumentar, em favor do astronauta, que as frases "históricas", no sentido apontado acima, dificilmente deixam de ser de mau gosto. É verdade. Na História do Brasil os exemplos abundam: "Independência ou morte", "O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever". Não é o caso da frase de Armstrong, que foi transmitida, direto, pela TV, para meio mundo, mas sobre outras ainda pesa a suspeita de falsificação. O "independência ou morte", se é citado por uma das testemunhas do evento do Ipiranga (o alferes Canto e Melo), não o é no relato de outra (o padre Belchior). Este ouviu apenas dom Pedro I queixar-se de que os portugueses viviam a chamá-lo de "rapazinho", e acrescentar: "Pois verão agora quanto vale o rapazinho". Sobre "O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever", atribuída ao almirante Barroso, na Guerra do Paraguai, recai mancha ainda mais infamante. Não passa de tradução, adaptada ao Brasil, de frase do almirante Nelson, o inglês que derrotou Napoleão Bonaparte. Talvez, para honra deles, nem Barroso nem Nelson tenham dito semelhante coisa. A frase pode ser fruto do impulso irresistível, da parte dos historiadores ou cronistas de orientação cívico-moralista, de colocar parvoíces de fundo patriótico na boca dos heróis. Não é raro, como se sabe, que se atribuam a personagens históricos frases que não disseram, ou não disseram exatamente daquele jeito. Napoleão, quando de sua batalha mais decisiva no Egito, afirmou, a título de exaltação aos soldados: "Avante, e pensem que do alto desses monumentos quarenta séculos nos observam". Posteriormente, lapidou-se a frase para: "Do alto destas pirâmides, quarenta séculos vos contemplam". Para ficar na História da França, Henrique de Navarra, o futuro rei Henrique IV, ao fim das guerras religiosas, teve, para ganhar o trono, de abjurar da fé protestante, pela qual se batera até então, e abraçar o catolicismo. Depois da cerimônia de conversão, vendo-se a sós com Sully, seu ministro protestante, confidenciou-lhe: "Que você queria? Se não abjurasse, não haveria mais França". A operação de lapidação, aqui, foi mais radical. A frase virou: "Paris vale bem uma missa". As duas frases se filiam a famílias diferentes. A de Napoleão é do gênero edificante. Vale dizer, desqualifica-se pelo vazio. A de Henrique IV possui conteúdo humano e político. Apresenta a mesma malícia pragmática da frase que se atribui a Galileu, sussurrando a um discípulo, depois do julgamento em que negou sua teoria de que a Terra gira em torno do Sol: "Eppur si muove". "Que se move, se move." Armstrong teve tanto tempo para pensar, no longo período de preparativos, ou outros tiveram tempo de pensar por ele, no caso de a frase lhe ter sido oferecida de bandeja, junto com a roupa e os instrumentos para a missão, e foi sair-se com um exemplar do primeiro gênero. Se era para dizer algo bonito, por que não recitou Shakespeare? Se queria algo inteligente, por que não encomendou a Gore Vidal ou Woody Allen? Quando transparece o ser humano por trás dela, como no caso de Henrique IV ou Galileu, a frase fica sempre melhor. Foi o que faltou a Armstrong. É, no caso do episódio brasileiro do Ipiranga, o que está presente na frase do "rapazinho", e ausente no "independência ou morte". A do rapazinho é muito melhor. Substitui a tapeação pela sinceridade, o artificial pelo natural, a altissonância pela crueza simpática de um desabafo em que pulsa o desejo de vingança e afirmação. Se o Brasil tivesse adotado por divisa "Pois verão agora quanto vale o rapazinho" talvez tivesse melhor sorte na vida.
|