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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Argentina que humilha,
China que consola
O ranking do
IDH é uma delícia.
Tem mais surpresas que
a tabela
do campeonato nacional
Ó verões de Reykjavik! A temperatura
média na capital da Islândia, nessa época, é
de 10 graus. Não é um lugar recomendável para
relaxar ao sol e pegar uma cor. Tampouco para sair à rua
de bermuda. Aliás, recomenda-se sair bem agasalhado. Reykjavik
é a capital situada mais ao norte do planeta. A Islândia,
por sua vez, é dos países mais fora de mão,
perdida no oceano como um navio desgarrado do rumo, muito além
de onde Judas perdeu as botas. Seus verões são uma
ficção. Já os invernos... Dos invernos nem
é bom falar. Quando faz zero grau, é sorte. Ai de
quem ousar pôr o nariz para fora de casa. O leitor já
está suficientemente escandalizado? Pois prepare-se para
esta: a Islândia é um dos lugares que oferecem melhores
condições para viver. Mais precisamente, é
o lugar que oferece a sétima melhor condição
de vida.
Essa é a posição da Islândia
no último ranking dos países pelo índice de
desenvolvimento humano (IDH), relativo a dados de 2002 e divulgado
na semana passada pelo Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento (Pnud). O IDH, surgido como contraponto à
classificação dos países pelos meros padrões
econômicos, agrega ao PIB per capita dois outros fatores
a educação e a longevidade. Pois é aí
que a Islândia, com todo o frio que a castiga, e um sol que
parece lâmpada de 220 volts ligada em tomada de 110 volts,
ascende à posição da potência que realmente
é, com seus 30.900 dólares
de PIB per capita, os 99,9% de alfabetizados e uma expectativa de
vida de 80 anos.
Percorrer o ranking do IDH, divulgado pela
Pnud desde 1990, é uma delícia. Depara-se nele com
mais surpresas do que na tabela do campeonato nacional de futebol.
Pensa-se num país rico e bafejado pela sorte, potência
das potências, império dos impérios, e o que
vem à mente são os Estados Unidos. Pois os Estados
Unidos, com seu índice de desenvolvimento humano de 0,939
(a pontuação varia de 1 a zero) não são
senão o oitavo colocado, abaixo da Islândia (0,941).
O primeiro é a Noruega (0,956) e o segundo, a Suécia
(0, 946), ambos situados nas mesmas glaciais lonjuras da Islândia.
Pode não ser o recanto mais aprazível do mundo, mas
não é à toa que fica perto de Papai Noel. A
Noruega ele presenteou com petróleo e a Suécia, com
a Volvo e a Ericsson. De lambuja, deu-lhes um sentido inigualado
de organização social e de distribuição
de renda e de justiça.
A colocação dos escandinavos
não surpreende tanto? Então, considere-se outro caso.
Pensa-se num país próspero e bom de viver na Europa,
e o que vem à mente são Alemanha, França, Itália,
talvez Espanha. Pois é bom passar a pensar antes na Irlanda.
A Irlanda celebrizou-se pelas fomes tremendas, responsáveis
pelo êxodo da população para os Estados Unidos
e outras partes. Irlandês era sinônimo de pobre e ignorante
em Nova York. Ao ingressar na Comunidade Européia, na década
de 70, a Irlanda era ainda um caso de atraso histórico, um
país que, como Portugal ou a Grécia, precisaria comer
muita batata (a leguminosa que tanto lhe faltou, quando viveu os
extremos da penúria) para acertar o passo com os demais.
A Irlanda, hoje, com um IDH de 0,936, ocupa o décimo lugar
do ranking, não só à frente da Inglaterra (também
com 0,936, mas em 12º pelos critérios de desempate),
sua histórica opressora, como também da Suíça
(0,936, e 11º lugar) a Suíça que se imagina
um paraíso de bonança e beatitude. James Joyce, que
deixou Dublin para ir viver em Zurique, jamais imaginaria uma coisa
dessas. "A história é um pesadelo do qual estou tentando
despertar", dizia Stephen Dedalus, personagem de Ulisses,
o mais famoso livro de Joyce. A Irlanda despertou do pesadelo, eis
a grande notícia.
O Brasil, em 72º lugar (IDH de 0,775),
fica atrás de Santa Lúcia (71º, 0,777). O quê???
Bielo-Rússia?, perguntará algum desconcertado interlocutor,
julgando que ouviu mal. Maria Lúcia??? Não. Santa
Lúcia, ilhota do Caribe, que tem Castries (Castries, ora,
a formosa e ensolarada Castries) como capital. O Brasil era o 65º
colocado no ranking do ano passado, relativo a dados de 2001, e
caiu sete posições, mas a Pnud pede que não
liguemos isso se deve a mudanças nos critérios
de avaliação dos dados educacionais. Certo, mas continua
doendo que os irmãos argentinos, aqueles que têm tanto
medo das nossas geladeiras, continuem nos dando um baile, em matéria
de IDH. Eles ocupam a 34ª posição, com índice
0,853. Estão na primeira divisão, entre os 55 países
considerados de "desenvolvimento humano elevado". O Brasil vem no
pelotão intermediário, o do "desenvolvimento humano
médio".
Há motivos para consolo. Considerados
todos os 177 países da lista, o Brasil figura na primeira
metade. E, considerado o índice médio mundial, que
é de 0,729, o Brasil fica acima. Não é consolo
suficiente? Então aqui vai outro: a China, a decantada China
do crescimento avassalador dos últimos anos, temida futura
potência, figura em 94º lugar (0,745). Para nos alcançar,
os chineses terão ainda de comprar muita soja brasileira,
para alimentar os porcos que os alimentarão.
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