Edição 1863 . 21 de julho de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Auto-retrato
Datas
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Argentina que humilha,
China que consola

O ranking do IDH é uma delícia.
Tem mais surpresas que a tabela
do
campeonato nacional

Ó verões de Reykjavik! A temperatura média na capital da Islândia, nessa época, é de 10 graus. Não é um lugar recomendável para relaxar ao sol e pegar uma cor. Tampouco para sair à rua de bermuda. Aliás, recomenda-se sair bem agasalhado. Reykjavik é a capital situada mais ao norte do planeta. A Islândia, por sua vez, é dos países mais fora de mão, perdida no oceano como um navio desgarrado do rumo, muito além de onde Judas perdeu as botas. Seus verões são uma ficção. Já os invernos... Dos invernos nem é bom falar. Quando faz zero grau, é sorte. Ai de quem ousar pôr o nariz para fora de casa. O leitor já está suficientemente escandalizado? Pois prepare-se para esta: a Islândia é um dos lugares que oferecem melhores condições para viver. Mais precisamente, é o lugar que oferece a sétima melhor condição de vida.

Essa é a posição da Islândia no último ranking dos países pelo índice de desenvolvimento humano (IDH), relativo a dados de 2002 e divulgado na semana passada pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O IDH, surgido como contraponto à classificação dos países pelos meros padrões econômicos, agrega ao PIB per capita dois outros fatores – a educação e a longevidade. Pois é aí que a Islândia, com todo o frio que a castiga, e um sol que parece lâmpada de 220 volts ligada em tomada de 110 volts, ascende à posição da potência que realmente é, com seus 30.900 dólares de PIB per capita, os 99,9% de alfabetizados e uma expectativa de vida de 80 anos.

Percorrer o ranking do IDH, divulgado pela Pnud desde 1990, é uma delícia. Depara-se nele com mais surpresas do que na tabela do campeonato nacional de futebol. Pensa-se num país rico e bafejado pela sorte, potência das potências, império dos impérios, e o que vem à mente são os Estados Unidos. Pois os Estados Unidos, com seu índice de desenvolvimento humano de 0,939 (a pontuação varia de 1 a zero) não são senão o oitavo colocado, abaixo da Islândia (0,941). O primeiro é a Noruega (0,956) e o segundo, a Suécia (0, 946), ambos situados nas mesmas glaciais lonjuras da Islândia. Pode não ser o recanto mais aprazível do mundo, mas não é à toa que fica perto de Papai Noel. A Noruega ele presenteou com petróleo e a Suécia, com a Volvo e a Ericsson. De lambuja, deu-lhes um sentido inigualado de organização social e de distribuição de renda e de justiça.

A colocação dos escandinavos não surpreende tanto? Então, considere-se outro caso. Pensa-se num país próspero e bom de viver na Europa, e o que vem à mente são Alemanha, França, Itália, talvez Espanha. Pois é bom passar a pensar antes na Irlanda. A Irlanda celebrizou-se pelas fomes tremendas, responsáveis pelo êxodo da população para os Estados Unidos e outras partes. Irlandês era sinônimo de pobre e ignorante em Nova York. Ao ingressar na Comunidade Européia, na década de 70, a Irlanda era ainda um caso de atraso histórico, um país que, como Portugal ou a Grécia, precisaria comer muita batata (a leguminosa que tanto lhe faltou, quando viveu os extremos da penúria) para acertar o passo com os demais. A Irlanda, hoje, com um IDH de 0,936, ocupa o décimo lugar do ranking, não só à frente da Inglaterra (também com 0,936, mas em 12º pelos critérios de desempate), sua histórica opressora, como também da Suíça (0,936, e 11º lugar) – a Suíça que se imagina um paraíso de bonança e beatitude. James Joyce, que deixou Dublin para ir viver em Zurique, jamais imaginaria uma coisa dessas. "A história é um pesadelo do qual estou tentando despertar", dizia Stephen Dedalus, personagem de Ulisses, o mais famoso livro de Joyce. A Irlanda despertou do pesadelo, eis a grande notícia.

O Brasil, em 72º lugar (IDH de 0,775), fica atrás de Santa Lúcia (71º, 0,777). O quê??? Bielo-Rússia?, perguntará algum desconcertado interlocutor, julgando que ouviu mal. Maria Lúcia??? Não. Santa Lúcia, ilhota do Caribe, que tem Castries (Castries, ora, a formosa e ensolarada Castries) como capital. O Brasil era o 65º colocado no ranking do ano passado, relativo a dados de 2001, e caiu sete posições, mas a Pnud pede que não liguemos – isso se deve a mudanças nos critérios de avaliação dos dados educacionais. Certo, mas continua doendo que os irmãos argentinos, aqueles que têm tanto medo das nossas geladeiras, continuem nos dando um baile, em matéria de IDH. Eles ocupam a 34ª posição, com índice 0,853. Estão na primeira divisão, entre os 55 países considerados de "desenvolvimento humano elevado". O Brasil vem no pelotão intermediário, o do "desenvolvimento humano médio".

Há motivos para consolo. Considerados todos os 177 países da lista, o Brasil figura na primeira metade. E, considerado o índice médio mundial, que é de 0,729, o Brasil fica acima. Não é consolo suficiente? Então aqui vai outro: a China, a decantada China do crescimento avassalador dos últimos anos, temida futura potência, figura em 94º lugar (0,745). Para nos alcançar, os chineses terão ainda de comprar muita soja brasileira, para alimentar os porcos que os alimentarão.

 
 
 
 
topo voltar