Edição 1863 . 21 de julho de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Auto-retrato
Datas
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Livros
Perdidos na noite

A relação entre arte e boemia,
desvendada num estudo sobre
a Paris do início do século XX


Marilia Pacheco Fiorillo

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

Escrito pelo romancista francês Dan Franck, Boêmios (tradução de Hortencia Santos Lencastre; Planeta; 560 páginas; 65 reais) talvez pudesse ser mais enxuto e mais condescendente com o leitor que não conhece de cor cada esquina e cada café de Paris (defeito que as notas da tradutora minimizam). Mas Franck é irretocável no retrato que faz da boemia, um quadro sombrio e amargo, apesar da profusão de cores – como em uma tela de Toulouse-Lautrec, precursor dos artistas boêmios da Paris das duas primeiras décadas do século XX. A obra cresce sobretudo porque não adoça a pílula: demonstra que a legítima boemia não é uma farra de fim de semana, mas uma dura equação feita de pobreza, utopia, espírito libertário e desregramento. Quando um dos termos desaparece, o fenômeno inteiro rui – e talvez por isso hoje seja mais difícil verificar a associação entre boemia e vanguarda artística que foi tão comum em outras épocas (veja quadro).

O livro descreve a boemia de Paris ao tempo em que a cidade era, na expressão do escritor americano Ernest Hemingway, uma "festa móvel": os pintores Amedeo Modigliani e Chaïm Soutine se embriagavam de éter, Picasso e Braque inventavam o cubismo, o poeta André Breton empunhava seu Manifesto Surrealista. Devotos da Arte com A maiúsculo, todos se freqüentavam, se amavam e se detestavam. A rica escritora americana Gertrude Stein patrocinava generosas bocas-livres para esse bando de saltimbancos geniais e famintos. Franck traz detalhes picantes sobre seus biografados: Chagall pintava nu e Soutine, sempre sujo e desgrenhado, se recusava a usar os banheiros das casas burguesas às quais era convidado, preferindo árvores ou postes.

No bairro de Montmartre, na fase inicial da boemia, os artistas se reuniam no Bateau-Lavoir, um pardieiro transformado em ateliê. Aos poucos foram se mudando para a margem esquerda do Sena, a Montparnasse dos cafés Closerie de Lilas, La Coupole, Café de Flore. Mas o espírito petulante que reunia artistas e musas em torno de um prato de arenques e pão velho terminou com a I Guerra Mundial, quando as trincheiras se impuseram sobre a inocente vertigem dos anos heróicos. Alguns voltaram do front com o espírito arlequinesco depauperado. Foi assim com os poetas Apollinaire, que levou um tiro na cabeça, e Blaise Cendrars, que perdeu um braço. Na mesma época, o experimentalismo apaixonado se regenerava pela mão dos marchands e compradores. Picasso, que valia 30 francos em 1908, arremataria, num leilão em 1914, 11.000 francos. O pintor espanhol enriquecia, produzia compulsivamente e abandonava os amigos. Tornou-se o antiboêmio por excelência, protegido do desespero por seu inato vampirismo – ele era famoso por tirar tudo de todos: inspiração, dinheiro, mulheres.

O último gesto dos boêmios, segundo Franck, foi o suicídio do pintor Jules Pascin, em 1930. Pascin corta o pulso esquerdo, escreve com sangue uma mensagem, corta o direito, mergulha os braços numa bacia mas, impaciente, não consegue esperar pela perda dos sentidos e busca uma corda para se enforcar na maçaneta da porta. Sem a boemia daqueles anos, provavelmente não teria havido uma revolução artística. Mas ela só é divertida se vista de fora. Para os que a vivem, sugere Franck, a boemia não é uma dádiva das musas, mas uma quimera. Pois Quimera, antes de significar um sonho maluco, era um monstro da mitologia grega. Lançava chamas que consumiam quem se aproximava, sem complacência para com a nobreza ou o talento de suas vítimas.

 

CRIATURAS DA NOITE

Escritores, artistas e intelectuais de todas as épocas foram amigos das madrugadas etílicas. Confira alguns exemplos


Grandes dramaturgos e poetas elisabetanos eram boêmios inveterados – caso de William Shakespeare, Ben Jonson e Christopher Marlowe, que morreu apunhalado no olho em uma briga de taverna. Nos cafés do Rio de Janeiro, na virada do século XIX para o XX, divertiram-se figuras como o poeta Olavo Bilac, o cronista João do Rio e o romancista Lima Barreto.


No início do século XX, o lugar obrigatório era Paris. Nos cafés e bares da cidade, reuniam-se figuras como o pintor espanhol Pablo Picasso – que mais tarde enriqueceu e abandonou a boemia. Em Nova York, o centro da agitação artística e intelectual, a partir dos anos 40 do século XX, era o bairro de Greenwich Village, onde bebiam o jornalista John Reed, o dramaturgo Eugene O'Neill e o pintor Jackson Pollock.

 
 
 
 
topo voltar