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Livros
Perdidos na noite
A relação entre arte e boemia,
desvendada num estudo sobre
a Paris do início do século XX

Marilia Pacheco Fiorillo
Escrito pelo romancista francês Dan Franck,
Boêmios (tradução de Hortencia
Santos Lencastre; Planeta; 560 páginas; 65 reais) talvez
pudesse ser mais enxuto e mais condescendente com o leitor que não
conhece de cor cada esquina e cada café de Paris (defeito
que as notas da tradutora minimizam). Mas Franck é irretocável
no retrato que faz da boemia, um quadro sombrio e amargo, apesar
da profusão de cores como em uma tela de Toulouse-Lautrec,
precursor dos artistas boêmios da Paris das duas primeiras
décadas do século XX. A obra cresce sobretudo porque
não adoça a pílula: demonstra que a legítima
boemia não é uma farra de fim de semana, mas uma dura
equação feita de pobreza, utopia, espírito
libertário e desregramento. Quando um dos termos desaparece,
o fenômeno inteiro rui e talvez por isso hoje seja
mais difícil verificar a associação entre boemia
e vanguarda artística que foi tão comum em outras
épocas (veja quadro).
O livro descreve a boemia de Paris ao tempo
em que a cidade era, na expressão do escritor americano Ernest
Hemingway, uma "festa móvel": os pintores Amedeo Modigliani
e Chaïm Soutine se embriagavam de éter, Picasso e Braque
inventavam o cubismo, o poeta André Breton empunhava seu
Manifesto Surrealista. Devotos da Arte com A maiúsculo,
todos se freqüentavam, se amavam e se detestavam. A rica escritora
americana Gertrude Stein patrocinava generosas bocas-livres para
esse bando de saltimbancos geniais e famintos. Franck traz detalhes
picantes sobre seus biografados: Chagall pintava nu e Soutine, sempre
sujo e desgrenhado, se recusava a usar os banheiros das casas burguesas
às quais era convidado, preferindo árvores ou postes.
No bairro de Montmartre, na fase inicial da
boemia, os artistas se reuniam no Bateau-Lavoir, um pardieiro transformado
em ateliê. Aos poucos foram se mudando para a margem esquerda
do Sena, a Montparnasse dos cafés Closerie de Lilas, La Coupole,
Café de Flore. Mas o espírito petulante que reunia
artistas e musas em torno de um prato de arenques e pão velho
terminou com a I Guerra Mundial, quando as trincheiras se impuseram
sobre a inocente vertigem dos anos heróicos. Alguns voltaram
do front com o espírito arlequinesco depauperado. Foi assim
com os poetas Apollinaire, que levou um tiro na cabeça, e
Blaise Cendrars, que perdeu um braço. Na mesma época,
o experimentalismo apaixonado se regenerava pela mão dos
marchands e compradores. Picasso, que valia 30 francos em 1908,
arremataria, num leilão em 1914, 11.000
francos. O pintor espanhol enriquecia, produzia compulsivamente
e abandonava os amigos. Tornou-se o antiboêmio por excelência,
protegido do desespero por seu inato vampirismo ele era famoso
por tirar tudo de todos: inspiração, dinheiro, mulheres.
O último gesto dos boêmios, segundo
Franck, foi o suicídio do pintor Jules Pascin, em 1930. Pascin
corta o pulso esquerdo, escreve com sangue uma mensagem, corta o
direito, mergulha os braços numa bacia mas, impaciente, não
consegue esperar pela perda dos sentidos e busca uma corda para
se enforcar na maçaneta da porta. Sem a boemia daqueles anos,
provavelmente não teria havido uma revolução
artística. Mas ela só é divertida se vista
de fora. Para os que a vivem, sugere Franck, a boemia não
é uma dádiva das musas, mas uma quimera. Pois Quimera,
antes de significar um sonho maluco, era um monstro da mitologia
grega. Lançava chamas que consumiam quem se aproximava, sem
complacência para com a nobreza ou o talento de suas vítimas.
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CRIATURAS
DA NOITE
Escritores,
artistas e intelectuais de todas as épocas foram
amigos das madrugadas etílicas. Confira alguns
exemplos
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| Grandes dramaturgos e poetas elisabetanos eram
boêmios inveterados caso de William
Shakespeare, Ben Jonson e Christopher Marlowe,
que morreu apunhalado no olho em uma briga de taverna.
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Nos cafés do Rio de Janeiro, na virada
do século XIX para o XX, divertiram-se figuras
como o poeta Olavo Bilac, o cronista João
do Rio e o romancista Lima Barreto. |
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| No início do século
XX, o lugar obrigatório era Paris. Nos cafés
e bares da cidade, reuniam-se figuras como o pintor
espanhol Pablo Picasso que mais tarde
enriqueceu e abandonou a boemia. |
Em Nova York, o centro da agitação
artística e intelectual, a partir dos anos
40 do século XX, era o bairro de Greenwich
Village, onde bebiam o jornalista John Reed, o dramaturgo
Eugene O'Neill e o pintor Jackson Pollock. |
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