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Cinema
Dupla face
Num desempenho arrasador,
Daniel Auteuil expõe uma farsa
que fez fama na crônica policial

Isabela Boscov
AFP
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| Auteuil, como o falso médico de O Adversário:
tudo para proteger uma mentira |
Na vida pública, Jean-Marc Faure, o
protagonista de O Adversário (L'Adversaire, França/Suíça,
2002), é pesquisador na área de cardiologia da Organização
Mundial de Saúde, como atestam sua família e seus
amigos, alguns deles íntimos desde os tempos da faculdade
de medicina. Todos os dias, porém, quando sai para o trabalho
e deixa em casa a mulher e os dois filhos pequenos, ele dirige a
esmo, pára em algum acostamento e passa o dia todo ali, dentro
do carro isso há quinze anos. O salário que
Jean-Marc traz todos os meses é na verdade fruto das retiradas
constantes que ele faz dos investimentos que seus pais e sogros
confiaram a ele sem o conhecimento deles, obviamente. Em
algum momento do segundo ano de universidade, por alguma razão,
Jean-Marc entrou em curto-circuito e não fez seus exames.
Sem conseguir seguir adiante nem voltar para trás, iniciou
a farsa que, no momento em que o filme em cartaz desde sexta-feira
no país o flagra, já se metamorfoseou em algo
muito além disso. Nem interiormente Jean-Marc tem mais outra
identidade que não essa. Assim, quando ela começa
a ruir, ele passa primeiro por uma fase de negação
da catástrofe iminente, manobrando dinheiro de uma conta
para outra, de forma a tentar cobrir os rombos que abriu nelas.
Depois, com um desespero que mal é capaz de discernir, ele
protege sua mentira com uma série de crimes monstruosos.
Dirigido pela atriz francesa Nicole Garcia
(que deixou Catherine Deneuve feia e triste em Place Vendôme),
O Adversário se baseia na história verídica
de Jean-Claude Romand, que em 1993 entrou com estrondo para a crônica
policial francesa. Calcado numa interpretação arrasadora
de Daniel Auteuil, o filme se torna tanto mais assustador pela austeridade
com que Nicole conduz a desintegração do personagem.
Não há aqui nenhuma tentativa de explicação
para os atos de Jean-Marc ou para a falha interna que os originou
o próprio Romand, ao que tudo indica, nunca soube
o que se passou com ele. Só o que se pode fazer é
acompanhar, com impotência semelhante à das pessoas
que cercam o falso médico, o desenrolar de um mal que nem
ele próprio supunha estar ali.
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