Edição 1863 . 21 de julho de 2004

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Auto-retrato
Datas
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Televisão
Estrelas do forno-e-fogão

Comida tem a ver com diversão e glamour
nos novos programas de gastronomia


Ricardo Valladares


Fotos divulgação
ação
Nigella e Oliver: ela atiça a libido dos homens, ele cozinha para modelos

EXCLUSIVO ON-LINE
Receitas dos programas

Quando publicou o primeiro tratado de gastronomia, A Fisiologia do Gosto, em 1825, o francês Jean Anthelme Brillat-Savarin deixou bem claro que sua "nova ciência" ia muito além da culinária, ou seja, da simples arte de preparar iguarias. Ela era o conhecimento "de tudo que se refere ao homem na medida em que ele se alimenta", e tinha a ver com política, com filosofia, com diversão, com glamour, com prazer – e não apenas com a melhor maneira de cozinhar um ovo. Desde que os primeiros programas sobre comida apareceram, ainda nos anos 50, a televisão também deixou para trás a "era da culinária" e entrou na "era da gastronomia". Lá se foi o tempo em que uma atração desse gênero requeria apenas um fogão, uma receita e uma cozinheira com jeitão de avó. Basta observar a grade de programação da TV paga brasileira. Atualmente, há mais de vinte shows gastronômicos em exibição – inclusive em canais médicos como o Discovery Health. Alguns, como Presentes do Mediterrâneo e Cozinha Oriental com Douglas Chew, misturam comida e turismo. Outros, como Um Cozinheiro Diferente, do inglês Hugh Fearnley-Whittingstall, reúnem culinária e aventura e ensinam a fazer pratos como guisado de esquilo. Mesmo aqueles que parecem ser mais convencionais incluem lições sobre estilo de vida e sobre como ser bacana. Não à toa, o público das atrações também se diversificou, e deixou de ser constituído apenas de donas-de-casa. Estima-se que mais de um terço de seus fãs, hoje em dia, seja composto de homens.


Divulgação
O chef Alex Atala: bem longe do estilo Ofélia


Donos de uma das cozinhas mais vilipendiadas do mundo, os ingleses, surpreendentemente, tornaram-se craques na produção de programas de gastronomia. Vêm de lá os dois mais populares do momento, apresentados pela bela Nigella Lawson e pelo jovial Jamie Oliver. Nigella, cujo programa é exibido pelo canal GNT, fez curso de línguas em Oxford, foi jornalista literária e assina colunas em várias publicações. Já escreveu quatro livros. Enquanto cozinha, relembra histórias do tempo em que viveu na Itália ou reflete sobre a melhor maneira de entreter os amigos numa tarde de verão. A preocupação de Nigella com o teor calórico de seus pratos é nula: eles são cheios de manteiga e açúcar. Isso se reflete em suas curvas, mas o fato de ela ser cheinha não evitou que se transformasse numa semideusa da TV inglesa. No livro Em Busca do Prato Perfeito, o chef americano Anthony Bourdain assim a descreveu: "Ela é o objeto de desejo de todos os homens que encontrei. É uma viúva rica e bonita que veste, na cozinha, uma jaqueta de brim. Quando se curva sobre a superfície de trabalho, seus seios se tornam o foco da contemplação despudorada de sua audiência masculina".

O maior concorrente de Nigella é Jamie Oliver, cujos programas são exibidos pelo GNT e pelo People+Arts. Ele é uma espécie de DJ das panelas – um garotão de 29 anos e cabelo arrepiado que mora num loft espaçoso, atravessa Londres de lambreta para fazer compras e prepara refeições para os roqueiros do Jamiroquai ou para modelos de uma grande agência. O programa de Oliver é elétrico e transmite a idéia de que cozinhar é fácil e divertido. Num episódio recente, ele ensinou a fazer caipirinha, feijoada e bolinho de bacalhau. "Na falta de bacalhau, troque por arenque", sentenciou ele. Alguns dos mais famosos donos de restaurante brasileiros, como Rogério Fasano, Carla Pernambuco e Alex Atala, gostam dele. "Não assisto a programas culinários, mas gosto de Jamie Oliver porque ele encoraja os tímidos da cozinha", diz Atala. Que, por sinal, estréia no fim do mês o programa Cozinha para Dois, ao lado da carioca Flávia Quaresma. Cozinha para Dois substituirá no GNT uma atração que era apresentada pelo gourmet francês Olivier Anquier. Anquier é casado com a atriz Débora Bloch, fazia viagens de exploração culinária a bordo de um Fusca 1962 e exerce sobre as moças o mesmo efeito que Nigella Lawson exerce sobre os homens da Inglaterra. Também, no Brasil, já passou o tempo em que a veneranda Ofélia – que estreou na televisão em 1958 e morreu em 1998 – ditava o estilo dos programas de culinária. Ou melhor, gastronomia.

 
 
 
 
topo voltar