Edição 1863 . 21 de julho de 2004

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Ambiente
A salvação do caviar

A indústria de ovas de esturjão no Mar
Cáspio está ajudando a salvar da extinção
o peixe que existe há 250 milhões de anos


Gustavo Poloni


Reuters
Lata com 2 quilos de caviar iraniano, considerado o melhor do mundo.

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Trecho do livro

O fim do caviar já foi decretado diversas vezes. Os apreciadores das ovas de esturjão começaram a degustar com mais cuidado cada colherada da iguaria quando, há três meses, a beluga, espécie do peixe que produz as ovas mais requisitadas, entrou para a lista dos animais ameaçados de extinção. A pesca predatória depois do colapso da União Soviética e a poluição causada pela exploração de petróleo no Mar Cáspio, de onde saem 90% da produção mundial, fizeram a oferta de caviar cair para apenas 2,5% do que era trinta anos atrás. Junte-se a isso a dificuldade natural de reprodução desse peixe de hábitos exigentes, que migra rio acima para depositar os ovos no exato lugar onde nasceu, e fica fácil entender o motivo de tanta preocupação. Se os gourmets ainda encontram caviar, mesmo que a preços exorbitantes, e os esturjões têm agora maior chance de sobrevivência, deve-se isso a um produtor do qual, normalmente, só se esperam más notícias: os aiatolás do Irã.

O país dos aiatolás ocupa a margem sul do Mar Cáspio, habitat da beluga. Uma única beluga pode render 22 quilos de caviar, quantidade que em lojas finas como a Fauchon, em Paris, e a Petrossian, em Nova York, chega a ser vendida pelo equivalente a 660.000 reais. Os aiatolás não precisaram se esforçar muito para perceber que seu país poderia ganhar muito dinheiro ocupando o mercado deixado pelos russos, cuja indústria de caviar entrou em colapso com o fim da União Soviética. Hoje, o Irã é o maior exportador do mundo e seu produto, exaltado pelos paladares mais exigentes. Para atingir esse posto, os iranianos tiveram de burlar as próprias regras do Islã. Os muçulmanos xiitas são proibidos de comer ou mesmo pescar peixes sem escamas, considerados impuros. Era o caso do esturjão. O aiatolá Khomeini, líder da revolução xiita, resolveu esse impasse logo após tomar o poder, em 1979, pedindo a seus cientistas que estudassem a espécie e encontrassem escamas a qualquer custo. Foi o que ocorreu.

Hoje, a indústria iraniana, instalada no norte do país, faz o papel que os russos exerciam quando dominavam o mercado de caviar: impedir que o recurso se acabe, controlando a poluição do Mar Cáspio e criando esturjões em piscinas-berçários, para repor os que são pescados. "Os aiatolás salvaram a indústria do caviar", afirma Inga Saffron, autora do livro Caviar: a Estranha História e o Futuro Incerto da Iguaria Mais Cobiçada do Mundo, que será lançado no Brasil na semana que vem. O caviar é feito com os ovos da fêmea do esturjão, que demora até vinte anos para atingir a maturidade sexual. Dos até 10 milhões de ovos que cada esturjão carrega no abdômen, só um chega à idade adulta. A reprodução difícil desse peixe e os cuidados necessários na preparação das ovas para o consumo ajudam a explicar por que o caviar é uma comida tão rara e cara.

Uma colher de sobremesa do tipo mais barato, extraído da espécie de esturjão sevruga, custa 18 reais. Um produto com preço tão salgado exige cuidados especiais para ser apreciado. Para alguns especialistas, deve ser comido sobre algo tão simples quanto um pedaço de pão preto com manteiga. Há também os que defendem uma colherada sobre uma gema de ovo ou sobre blinis, uma espécie de panqueca bem pequena feita à base de farinha. O caviar beluga, tido como o melhor pela mistura suave de sabor de mar e peixe e por ter as maiores ovas, deve ser comido puro, direto do pote, com colheres de madrepérola. O metal dos talheres pode estragar o gosto da iguaria. A bebida ideal para acompanhar o caviar é o champanhe. "De preferência o francês Salon", diz Belarmino Iglesias, dono do restaurante Rubaiyat, de São Paulo. É, de fato, uma iguaria para poucos.

 


 
 
 
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