Edição 1863 . 21 de julho de 2004

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Estilo
Um passo à frente

A indústria quer prestígio. Os estilistas
querem vender mais. Resultado: grandes
fabricantes produzem sapatos de grife


Sandra Brasil

 
Fotos Pedro Rubens
Nome e sobrenome: flores e estampa de couro de cobra nos sapatos com a assinatura de estilistas conhecidos


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Por que é tão caro

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Maior feira de calçados da América Latina, com 850 expositores, a Francal, realizada na semana passada em São Paulo, apresentou uma novidade: nos estandes, ao lado de marcas popularíssimas e dedicadas ao grande público, estavam nomes de estilistas que costumam aparecer mais nas passarelas da São Paulo Fashion Week do que em lojas de sapatos. Fause Haten, Alexandre Herchcovitch, Walter Rodrigues e outros aliaram-se a grandes fabricantes de calçados para comercializar sapatos finos, a preços que batem nos 800 reais. Agregar valor por meio da associação com grifes de prestígio não é uma estratégia inédita, mas agora ficou mais consistente. "A indústria ganha visibilidade no mundo da moda e os estilistas ampliam seus horizontes de negócios", acredita Abdala Jamil Abdala, presidente da Francal. Walter Rodrigues, um dos debutantes no mercado, em parceria com a Cristófoli, empresa do Rio Grande do Sul que fabrica 450 000 pares de sapatos por ano, criou treze modelos para o verão, entre eles um de couro que imita o de cobra ("estampa" obrigatória da estação) que deverá custar 250 reais. A consumidora-alvo é a que tem informação sobre o trabalho do estilista e um poder de compra bastante razoável – mas não o suficiente para levar um vestido sob medida da grife, na faixa dos 5.000 reais. "A mulher que não compra um vestido Walter Rodrigues provavelmente vai poder levar um sapato", diz ele.

 
Cortes, recortes, cores metalizadas e até "escamas" feitas a bisturi: a força dos detalhes

Nessa parceria, o estilista entra com o nome e o design e o fabricante arca com o custo de produção, em média 30% maior que o de um sapato popular. O processo artesanal e o trabalho especializado encarecem o produto (veja quadro). "O mais difícil é encontrar bons sapateiros. É mão-de-obra em extinção", diz José Eduardo de Mattos, que coordena 48 sapateiros na oficina Franziska Hübener. Acabamento e acessórios também são mais refinados. "Pago 70 reais por um par de flores de miçangas", contabiliza o estilista Fause Haten, que tem uma queda por sandálias delicadas e cheias de detalhes. Aliado a três fábricas gaúchas, ele produziu um total de trinta modelos, a preços que ultrapassam os 700 reais. Na trilha das alianças, a Arezzo, uma das gigantes do setor, está lançando uma sandália desenhada pela carioca Isabela Capeto, a estrela em ascensão da moda no momento. "Participamos de muitos desfiles de moda, mas o design era sempre conceitual demais. Só agora, com a Isabela, chegamos a um calçado que se encaixa no nosso padrão e na nossa estrutura de fabricação", diz o presidente da empresa, Anderson Birman. O filho de Birman, Alexandre, também é do ramo: dono da Schultz, destacou quarenta de seus 800 funcionários para desenhar a bisturi as "escamas" que dão aparência de pele de cobra à linha de sapatos em cores metalizadas que levam na etiqueta o nome de outra grife jovem e sofisticada, a Raia de Goeye. "Cada um consegue estampar, por dia, apenas 1 metro quadrado de couro, que é usado em dez pares de sapato", afirma. "Mas o investimento vale a pena, porque ajuda a colocar o sapato, antes um acessório de menor importância, no circuito da moda."

 
 
 
 
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