Edição 1863 . 21 de julho de 2004

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Aviação
Como voam os presidentes

No Brasil e nos EUA, os governantes não
querem continuar a viajar em sucatões

Quando os presidentes voam, às vezes a turbulência ocorre em terra firme. Na semana passada, numa sessão tumultuada, o Congresso Nacional autorizou um crédito suplementar de 159 milhões de reais para que o governo possa quitar a compra do Airbus ACJ de 57 milhões de dólares que será usado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em suas viagens. Desde que a compra do avião foi anunciada, há seis meses, não param de chover críticas ao governo. Muitos oposicionistas acham a despesa injustificada e gostariam que Lula continuasse a voar no veterano Sucatão, um Boeing 707 com 46 anos de uso que só faz o governo passar vergonha. Para chegar aos Estados Unidos ou à Europa, o Sucatão precisa tomar fôlego no caminho e fazer pelo menos uma parada para reabastecimento. Por causa do barulho infernal de suas turbinas, o avião também é proibido de pousar em alguns aeroportos internacionais.

Nos EUA, a confusão gira em torno do helicóptero usado pelo presidente George W. Bush, o Marine One, uma supermáquina blindada que pesa 10 toneladas e só levanta vôo escoltada por dois caças. Como o aparelho foi projetado nos anos 60, o governo decidiu que está na hora de trocá-lo por um modelo mais novo, capaz de abrigar equipamentos de segurança e comunicação mais sofisticados. O anúncio da concorrência para o fornecimento do novo helicóptero acabou por deflagrar uma batalha em que as armas são a tecnologia, o patriotismo e o lobby de primeiro escalão. De um lado está a Sikorsky, indústria americana que desde os anos 50 fornece os helicópteros à Casa Branca. De outro está um consórcio formado pela americana Lockheed e por vários parceiros europeus. Ambos apresentam máquinas extraordinárias, mas a Sikorsky alardeia que só a dela é 100% americana. "Assim como não queremos o presidente andando numa Mercedes, não o desejamos voando num helicóptero estrangeiro", alfineta a campanha da empresa.

Enquanto isso, o primeiro-ministro britânico Tony Blair e seu colega italiano Silvio Berlusconi manobram com o presidente Bush a favor do consórcio, esperando ser recompensados por seu apoio aos Estados Unidos na ocupação do Iraque. A compra do novo Marine One e de outros dezoito helicópteros que servirão à Casa Branca é um negócio de 1,6 bilhão de dólares, uma quantia modesta para os padrões da aviação. A visibilidade que o helicóptero presidencial rende a seu fabricante, porém, não tem preço. Encarregada de fazer a escolha entre os dois modelos, a Marinha americana tratou de jogar a batata quente para o secretário de Defesa Donald Rumsfeld. Afinal, estrategicamente, decidiu-se adiar a escolha do novo helicóptero para depois das eleições presidenciais americanas, em novembro.

 

HELICÓPTERO DO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS

Fabricante: Sikorsky

Autonomia: 815 km

Altitude máxima: 4 600 metros

Características: pesando 10 toneladas devido à blindagem, só pode pousar no solo ou em porta-aviões. É sempre escoltado por dois caças ou dois helicópteros

 

AVIÃO DO PRESIDENTE DO BRASIL

Fabricante: Airbus

Autonomia: 11 600 km (pode voar sem escala de Brasília a qualquer capital européia)

Altitude: 15 000 metros

Características: suíte com chuveiro, sala de reuniões, copa e lugar para 26 passageiros

 
 
 
 
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