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Energia
A senhora "marco regulatório"
O mercado mundial está de olho na ministra
Dilma Rousseff e em como ela agirá para
ganhar a confiança do capital privado

Chrystiane Silva
Marco Antonio Teixeira/Ag. O Globo
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| Dilma Rousseff: abandonou parte do radicalismo
dos primeiros meses, mas não a crença no Estado forte |
No início do governo Lula, o desafio
era convencer os investidores de que o Brasil não embarcaria
em novas aventuras heterodoxas na economia. A tarefa foi cumprida
a contento, sob o comando do ministro da Fazenda, Antonio Palocci.
Com mais de um terço do mandato já cumprido, o grande
desafio está na alçada de outro ministério.
Cabe à ministra Dilma Rousseff, de Minas e Energia, a responsabilidade
de dar continuidade à recuperação da produção
industrial registrada nos últimos meses. Sua missão
é tão vital quanto espinhosa. Ela precisa evitar que
o país repita o apagão de três anos atrás.
E tem de fazer isso convencendo a iniciativa privada de que vale
a pena investir em energia elétrica. Para sustentar um crescimento
de 4% do PIB ao ano, é preciso aumentar a oferta de energia
em 6%, o que significa investir algo em torno de 20 bilhões
de reais por ano. O Estado brasileiro não tem como bancar
esses recursos, como já fez no passado. Daí a necessidade
de atrair os empresários. Diferentemente de outros setores
empresariais, no de energia essa atração não
resulta apenas em namoro mas em casamento de longa duração.
Isso requer confiança total de parte a parte. Esse é
o grande desafio.
Um dos principais motivos pelos quais os casamentos
não têm sido anunciados deriva do fato de que Dilma
Rousseff continua achando que o Estado deve ser o protagonista do
setor elétrico. O modelo aprovado pelo Congresso em março
o "marco regulatório" esvaziou o poder da Agência
Nacional de Energia Elétrica e devolveu ao ministério
as decisões consideradas estratégicas. Como os investimentos
em energia demandam anos e até décadas para dar retorno,
as empresas temem com razão que influências políticas
afetem o cumprimento dos contratos. Por isso não investem.
O mais grave, no entanto, é que a lei trata das regras de
funcionamento do setor em seus aspectos genéricos, deixando
a regulamentação para ser feita por decreto presidencial.
Dilma considera o modelo adequado. "Todos os mecanismos globais
estão na lei, e o que não está constará
dos decretos e resoluções", diz.
Os empresários discordam. Acham que
o arcabouço estabelecido pelo modelo é incompleto,
deixando aspectos fundamentais para a regulamentação.
"Até a regulamentação, não dá
para arriscar nada. Ninguém faz projeto novo", comenta Claudio
Sales, presidente da Câmara Brasileira de Investidores em
Energia Elétrica. O consultor David Zylbersztajn, ex-diretor-geral
da Agência Nacional do Petróleo, tem uma crítica
mais geral. "A questão é que o marco regulatório
precisa criar regras que blindem o setor privado em relação
ao governo, porque as concessões podem atravessar sete governos",
diz. Nesse ponto, o que tranqüiliza o investidor é a
certeza de que os contratos não serão mandados para
o espaço por uma ação populista ou politicamente
motivada do governo de qualquer governo.
É verdade que, em relação
às posições que defendia no início do
mandato, a ministra está mais flexível. "O modelo
inicial era muito mais centralizador. Na prática, a Aneel
seria destruída", lembra um diretor de uma das maiores distribuidoras
de energia do país. O relacionamento com o Ministério
da Fazenda também anda mais calmo, longe das tempestuosas
reuniões que mantinha com o ex-secretário de Acompanhamento
Econômico José Tavares. Mas ainda é pouco numa
área com as características do setor elétrico.
Regras claras são importantes para todos os setores de infra-estrutura.
Na telefonia, por exemplo, as empresas não podem deixar de
investir, porque sabem que, se não melhorarem os serviços,
perderão mercado para os concorrentes. No setor de energia,
não é assim. Regras pouco claras poderão deixar
o país mais suscetível de sofrer um novo apagão
em menos de uma década. Se a economia continuar crescendo
3,5% ao ano nos próximos anos e os investimentos não
aumentarem, o encontro do país com a escassez energética
será quase inevitável.
As leis aprovadas em março deixaram
o cenário um pouco mais claro, mas não desanuviaram
o ambiente. A partir de agora, todas as empresas que vencerem as
licitações para a entrada no mercado de geração
de energia assinarão, automaticamente, contratos com as companhias
distribuidoras. Isso garante que o que for produzido pelas geradoras
será vendido ao mercado, algo que não ocorria antes.
Outro ponto positivo diz respeito à legislação
ambiental. Pela nova lei, se uma empresa ganhar uma concessão
para uma nova usina, terá também já assegurada
a aprovação da licença ambiental prévia.
Mas os empresários continuam com o pé atrás.
Sérgio Assad, diretor da Elektro, resume as dúvidas
do setor: "Ainda não tivemos acesso a nenhuma versão
dos textos dos decretos".
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