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Tecnologia
A tinta digital salva as árvores
Sony e Panasonic lançam os primeiros
livros eletrônicos que podem evitar no futuro o corte de florestas
para fazer papel

Carlos Rydlewski
Fotos AP
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| A tela da E Ink (à esq.),
que pode ser colada sobre superfícies flexíveis, e o Librié,
da Sony, (à dir.) lançado no Japão |
Imagine uma tecnologia tão avançada
de registro de informações que seu produto possa ser
carregado debaixo do braço, dobrado, amassado e, de tão
barato, possa ser jogado fora assim que perder a serventia. Essa
tecnologia já existe. Chama-se papel e foi desenvolvida há
quase 2.000 anos pelos chineses. Substituir
algo tão prático e eficiente é muito difícil.
As melhores cabeças da era digital têm se empenhado
nisso. Recentemente surgiram no mercado do Japão e dos Estados
Unidos algumas das mais bem-sucedidas tentativas já feitas
até agora.
Dois gigantes globais, a Sony e a Matsushita,
que faz os aparelhos da marca Panasonic, lançaram no Japão
modelos de livros eletrônicos surpreendentemente práticos
embora nada baratos. São tecnologias embrionárias
que um dia poderão substituir o uso do papel impresso em
larga escala. As conseqüências dessa revolução
terão efeito em áreas tão distintas como a
do comportamento e a da ecologia, com a diminuição
da demanda por novas árvores. Somente para rodar a edição
dominical do New York Times, o jornal mais respeitado dos
EUA, por exemplo, gastam-se 4,5 milhões de toneladas de papel,
que demandam o corte de 75.000 árvores.
O Librié, o livro eletrônico
da Sony, a gigante japonesa que fatura 62 bilhões de dólares
por ano, incorpora um grande número de novidades. O Librié
surgiu da associação entre a empresa japonesa e as
firmas responsáveis pela tecnologia das telas dobráveis,
a holandesa Philips e a americana E Ink. O visor do livro eletrônico
tem apenas 12,6 centímetros de largura por 19 centímetros
de altura. É pouco menor que uma folha de papel A4 dobrada
ao meio. Pesa apenas 200 gramas, o equivalente a um livro de 100
páginas. Sua memória permite armazenar meia centena
de livros. Quatro pilhas pequenas comuns são suficientes
para garantir a leitura de 10.000 páginas.
O desenvolvimento de uma tela que demande pouca energia, seja leve,
transportável e durável foi a chave para a produção
dos primeiros livros eletrônicos com algum potencial de mercado.
Foi preciso também equacionar o problema do reflexo da luz,
que torna as telas de cristal líquido convencionais impróprias
para lugares muito iluminados, como uma praia, por exemplo.
O visor do Librié chega bem perto dessas
características ideais. Ele pode ser usado tanto em ambientes
bem iluminados quanto em salas escuras. A resolução
é comparável à da impressão de um jornal.
Todos esses avanços se devem à utilização
de uma tinta eletrônica, criada pela E Ink, empresa que teve
como berço o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT).
O nome da companhia é uma sigla tirada da expressão
"tinta por eletroforese", em inglês, e é uma alusão
ao processo de formação dos caracteres do texto na
tela. Na prática, as imagens surgem pela movimentação
de partículas microscópicas de pigmentos claros e
escuros. Elas trocam de lugar, entre o fundo e o topo da tela, dando
origem por contraste às letras e aos desenhos. "Estamos criando
um produto que mudará totalmente o hábito de leitura",
diz Russell Wilcox, presidente da E Ink.
AP
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Ivan Carneiro
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| O livro eletrônico da Panasonic
(à esq.) permite acesso a 5 500 livros. Uma edição dominical
do New York Times consome 75 000 árvores |
Além do Librié, lançado
em abril, no Japão, por 375 dólares, há outras
novidades no mercado. A Eastman Kodak também persegue o sonho
das telas perfeitas, flexíveis e comercialmente viáveis.
A partir de uma tecnologia conhecida como Oled abreviação
em inglês de "diodo orgânico emissor de luz" ,
já lançou um visor para uma câmera fotográfica.
A pesquisa da Motorola usa recursos da nanotecnologia, a ciência
que estuda objetos de dimensão infinitesimal. Mesmo sem objetivos
comerciais, o Pentágono também está em busca
do papel e da tinta digitais. Os militares americanos investiram
43,7 milhões de dólares nos últimos cinco anos
para desenvolver um tipo de painel que ocupe menos espaço
em veículos de combate. O dinheiro foi aplicado na formação
de um centro para telas flexíveis, localizado em Tempe, no
Arizona. Aberto em abril, o centro vai produzir seu primeiro protótipo
baseado na tecnologia E Ink.
Os principais livros eletrônicos disponíveis
no mercado já possuem recursos que os tiram da categoria
de meras e caras curiosidades eletrônicas. Vários desses
aparelhos têm marcadores de página, bloco de anotações,
dicionários internos, busca por palavras, além do
acesso a bibliotecas. A captura dos arquivos é feita por
meio do computador e posteriormente repassada para o livro eletrônico.
No caso do Librié, só é permitido o acesso
a um site da Publishing Link, empresa filiada à Sony, que
conta com investimento da maioria das grandes editoras do Japão.
O site dispõe de cerca de 600 títulos, quase todos
ainda em japonês. O acesso a um livro custa 2,92 dólares,
uma pechincha em comparação com o preço da
brochura em qualquer prateleira do ramo, no Brasil ou no exterior.
Já o novo produto da Panasonic, o Sigma
Book, lançado em fevereiro, custa 357 dólares. Ele
abre outras possibilidades nesse campo, apesar de não ser
tão revolucionário no quesito tela. O site da empresa
tem 100 títulos disponíveis para o leitor, mas o sistema
permite a conexão com um endereço independente, chamado
10 Days Book. Nessa biblioteca virtual, existem 5.500
livros. O visor do Sigma é duplo, como um livro convencional,
e feito de cristal líquido. O equipamento não tem
memória interna. Utiliza um cartão.
A experiência de Steve Jobs, o mago
da Apple, na área de música digital é uma inspiração
para parte do setor de livros eletrônicos. Na semana passada,
o iTunes, o serviço de oferta de canções pela
internet da Apple, alcançou a marca de 100 milhões
de músicas vendidas. O estoque do iTunes é de 700.000
canções em formato digital. Não é difícil
que os livros sigam o mesmo caminho que já começa
a ser trilhado também por filmes. A estimativa é que
apenas os títulos gratuitos disponíveis em bibliotecas
digitais da rede de computadores somem mais 20.000
obras, entre as quais centenas de best-sellers e clássicos
esgotados.
Um dos problemas mais vitais que precisam
ser solucionados é o do padrão. Os fabricantes usam
sistemas diferentes que não se comunicam entre si. Foi esse
entrave que dificultou o avanço no mercado dos primeiros
equipamentos de leitura, que chegaram às prateleiras seis
anos atrás. Entre os pioneiros de maior destaque estão
o SoftBook e o Rocket eBook, da NuvoMedia. A comparação
entre os pioneiros e os atuais dá uma idéia clara
dos progressos. O Soft pesava 1,4 quilo, sete vezes mais que o Librié.
O Rocket foi lançado custando 500 dólares, 35% mais
caro que os exemplares mais modernos de hoje. E essa é uma
comparação, ressalte-se, apenas de preços
o que está em jogo é a evolução tecnológica.
Mesmo depois de resolver toda a parte técnica, os fabricantes
terão de combater um costume milenar, o de ler sentindo o
papel entre os dedos. Além de agradar, os livros eletrônicos
terão de baixar bastante de preço para competir em
condições de igualdade com os tradicionais livros
de papel. Por muito tempo ainda, florestas continuarão sendo
cortadas para alimentar o hábito de leitura da humanidade.
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