Edição 1863 . 21 de julho de 2004

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Rússia
Desafiando Vlad

O homem mais rico da Rússia
resolveu enfrentar Putin – e
agora está no banco dos réus


AFP
Khodorkovsky: 15 bilhões de dólares e, talvez, dez anos de prisão

Vladimir Putin vem fazendo na Rússia o que os governantes costumam fazer quando uma casta de plutocratas alcança um poder que faz sombra ao próprio Estado: cortando-lhes as asas. O problema é que usa métodos à moda russa, e com isso cria um clima de ansiedade sobre o futuro do país. O exemplo mais vistoso é o de Mikhail Khodorkovsky, o jovem, brilhante e desonestíssimo – como todos os seus pares – dono da maior produtora de petróleo do país, a Yukos. Preso há nove meses, sob a acusação de fraude e evasão fiscal, Khodorkovsky começou a ser julgado na semana passada. É difícil se solidarizar com os bilionários alcunhados de "oligarcas", que construíram impérios praticamente do dia para a noite, no apagar das luzes do comunismo, usando de expedientes escusos e corrupção desbragada. A questão é que Khodorkovsky está na cadeia – enquanto outros colegas de fortuna fácil deixaram o país – não por roubalheira, mas por ter desafiado Putin.

Focado, supremamente autoconfiante, com a disciplina de ex-agente da KGB, que realmente foi, Putin tem o perfil de "paizinho" autocrata (ou de Vlad, o Empalador, como preferem os inimigos) que tanto apela aos corações russos. Seu índice de aprovação é de 80%, foi reeleito presidente com maioria acachapante e a sensação é de que, com ele, as coisas melhoraram. No ano passado, o PIB cresceu 7% e os investimentos, 12%. Putin é também um governante que não gosta de ser contrariado. Deu carta branca aos grandes empresários para que tocassem seus negócios, com a condição de que não se metessem na vida política. Quem avaliou corretamente acatou. Outros, por ambição ou excesso de confiança, peitaram Putin. Khodorkovsky, o homem mais rico da Rússia e o décimo sexto do mundo (com uma fortuna de 15 bilhões de dólares), não só começou a financiar partidos de oposição como demonstrou ambições políticas próprias. Ganhou promotores públicos nos calcanhares e contas devassadas. Em outubro do ano passado, foi preso.

No papel, é tudo legítimo. Promotores investigam, e se o sujeito está enrolado é levado a julgamento. Ocorre que, em países onde o estado de direito ainda é uma novidade, forças poderosas se movimentam nos bastidores. Putin tem fama merecida de inclemente e controla a máquina com mão de ferro. Deixa a impressão de que não tolera oposição. Estado e dinheiro são forças que ora se aliam, ora se confrontam. Nos Estados Unidos, quando os magnatas que haviam construído no fim do século XIX a base industrial da maior potência econômica da história – os chamados robber barons – se tornaram poderosos demais, o governo criou as leis que quebraram a espinha dos cartéis por meio dos quais os bilionários monopolizavam o aço ou as estradas de ferro. Na Rússia, os métodos ainda são um pouco mais crus.

 
 
 
 
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