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Iraque
O risco de um novo Saddam
Primeiro-ministro do Iraque tem a
missão de insuflar a democracia e
a tentação de ceder à tradição
ditatorial
Reuters
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| Iyad Allawi, o primeiro-ministro iraquiano:
estilo linha-dura e missão de pacificar o país
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Um moderado que vai liderar seu país
no caminho da democracia ou mais um aspirante a ditador, com o indispensável
componente de crueldade e barbárie? A biografia de Iyad Allawi,
primeiro-ministro interino do Iraque, tem sinais contraditórios,
pendendo para ambos os rumos. Sobre o lado mais sombrio, que o tornaria
uma versão de terno e gravata de Saddam Hussein, corre todo
tipo de boato. Exemplo número 1: presente ao interrogatório
de um jihadista libanês que resistia a falar sobre suas atividades
deletérias em território iraquiano, Allawi mandou
trazer um machado para cortar o braço do prisioneiro relutante.
A história é apócrifa e contada em tom
positivo pelas esquinas de Bagdá, numa demonstração
de como os iraquianos sentem falta de um líder que coloque
a casa em ordem com mão de ferro. Outra história,
de origem mais confiável, veio à tona na semana passada:
duas testemunhas entrevistadas pelo jornal australiano Sydney
Morning Herald contaram ter visto Allawi fuzilar a sangue-frio,
no mês passado, seis suspeitos de terrorismo detidos na prisão
de Al Amariyah. Neurologista de profissão e militante anti-Saddam
durante boa parte de seus 59 anos, Allawi foi escolhido pelos americanos
para liderar o governo provisório do país, do qual
assumiu o poder no mês passado. Sua missão oficial
é conduzir o Iraque às eleições gerais
marcadas para janeiro de 2005, o primeiro passo para a construção
de um inédito regime democrático no país. Ambiciona,
naturalmente, cavar para si próprio um lugar mais permanente
no topo do poder. Para que alcance ambos os objetivos, precisa fazer
o que os americanos não conseguiram: restabelecer alguma
aparência de normalidade num país convulsionado pela
destruição dos serviços básicos e pela
anarquia decorrente tanto da criminalidade comum quanto dos grupos
armados de diversas naturezas.
O Iraque moderno foi uma invenção
inglesa que veio à luz em 1920 e, como é freqüente
nessa região, tem um histórico de transições
políticas tumultuadas, incluindo-se aí um rei (Faisal)
e um ditador fardado (Abdul Karim) fuzilados em palácio.
As rivalidades étnico-religiosas (curdos e árabes,
estes divididos entre xiitas e sunitas) tornam-no um dos países
mais difíceis de governar do mundo. Antes de ser consumido
por ambições desvairadas, Saddam Hussein era considerado
um elemento estabilizador, apesar da monstruosidade dos métodos
empregados. A invasão americana abriu as portas para todo
tipo de atividade violenta, de nacionalistas exaltados a fanáticos
religiosos. A possibilidade de que Allawi transforme essa boca do
inferno no primeiro caso de democracia clássica entre os
países árabes exige uma formidável dose de
otimismo. Ele próprio não é nenhum democrata
nato. Xiita secular, ex-membro do partido de Saddam Hussein, o Baath,
Allawi fugiu do país há três décadas
e passou boa parte dos anos 90 ajudando a CIA a planejar golpes
contra o ditador. Partiram dele as informações falsas
que ajudaram o presidente americano George W. Bush a propagar, como
argumento para a invasão do Iraque, que Saddam tinha ligações
com o grupo terrorista Al Qaeda.
Se nem os americanos resistiram à tentação
de partir para a violação dos direitos humanos no
combate ao terrorismo, imagine-se o grau de autocontrole exigido
de um homem com o DNA político-cultural de Allawi. O primeiro-ministro
tem pouco tempo e enorme pressão para conter a violência
no Iraque, transformado em chamariz de fanáticos vindos de
diversos países muçulmanos dispostos a morrer na guerra
santa contra os "infiéis" americanos. Calcula-se que haja
1.000 terroristas estrangeiros no Iraque. Mesmo
que se consiga algum tipo de estabilidade até as eleições,
e depois, o que se pode esperar? Com o voto universal, a maioria
xiita 60% da população deve conseguir
a posição predominante no futuro governo, tirando
dos sunitas a preponderância exercida desde os tempos do Império
Otomano, no século XVI. Na pior das hipóteses, o espectro
é o da guerra civil. Na melhor, os iraquianos vão
demorar um pouco até aprender que democracia é também,
ou sobretudo, a garantia aos direitos da minoria. Isso é
viável? "A cultura e os valores são muito diferentes
nos países árabes, mas não existe um único
modelo de democracia e é perfeitamente possível adaptá-la
às características da região", disse a VEJA
o americano David L. Phillips, especialista em Iraque do Conselho
de Relações Exteriores dos Estados Unidos. Allawi
tem cinco meses para dar o primeiro empurrão nesse processo.
| MENTIRAS SINCERAS |
Reuters
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| Blair e Bush: provas exageradas
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Bush e Blair precisavam
de argumentos fortes para convencer seus cidadãos
de que Saddam Hussein era um perigo para o mundo. Seus
espiões lhes deram o que queriam: relatórios
com indícios de que o ditador iraquiano tinha
armas químicas prontas para ser usadas e que
apoiava a rede terrorista Al Qaeda. As armas de destruição
em massa não foram encontradas, e o Iraque, que
não tinha terroristas antes de Saddam ser deposto,
agora sofre com atentados diários. O Senado americano
e uma comissão nomeada pelo governo inglês
concluíram, em relatórios divulgados nas
últimas semanas, que os fracos indícios
levantados pelos agentes americanos e ingleses foram
apresentados por Bush e Blair como se fossem provas
contundentes. É difícil sustentar a tese
de que a dupla foi enganada pelos arroubos de seus espiões.
Bush e Blair receberam as informações
que exigiram ter. O verdadeiro teste da utilidade da
guerra combater o terror ainda está
em aberto. Por enquanto, a balança pende para
o lado contrário: o Iraque virou um caos, os
fanáticos encontraram nova motivação
e o número de mortos em atentados, no ano passado,
foi maior que em 2002.
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