Edição 1863 . 21 de julho de 2004

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Iraque
O risco de um novo Saddam

Primeiro-ministro do Iraque tem a
missão de insuflar a democracia – e
a tentação de ceder à tradição ditatorial


Reuters
Iyad Allawi, o primeiro-ministro iraquiano: estilo linha-dura e missão de pacificar o país

Um moderado que vai liderar seu país no caminho da democracia ou mais um aspirante a ditador, com o indispensável componente de crueldade e barbárie? A biografia de Iyad Allawi, primeiro-ministro interino do Iraque, tem sinais contraditórios, pendendo para ambos os rumos. Sobre o lado mais sombrio, que o tornaria uma versão de terno e gravata de Saddam Hussein, corre todo tipo de boato. Exemplo número 1: presente ao interrogatório de um jihadista libanês que resistia a falar sobre suas atividades deletérias em território iraquiano, Allawi mandou trazer um machado para cortar o braço do prisioneiro relutante. A história é apócrifa – e contada em tom positivo pelas esquinas de Bagdá, numa demonstração de como os iraquianos sentem falta de um líder que coloque a casa em ordem com mão de ferro. Outra história, de origem mais confiável, veio à tona na semana passada: duas testemunhas entrevistadas pelo jornal australiano Sydney Morning Herald contaram ter visto Allawi fuzilar a sangue-frio, no mês passado, seis suspeitos de terrorismo detidos na prisão de Al Amariyah. Neurologista de profissão e militante anti-Saddam durante boa parte de seus 59 anos, Allawi foi escolhido pelos americanos para liderar o governo provisório do país, do qual assumiu o poder no mês passado. Sua missão oficial é conduzir o Iraque às eleições gerais marcadas para janeiro de 2005, o primeiro passo para a construção de um inédito regime democrático no país. Ambiciona, naturalmente, cavar para si próprio um lugar mais permanente no topo do poder. Para que alcance ambos os objetivos, precisa fazer o que os americanos não conseguiram: restabelecer alguma aparência de normalidade num país convulsionado pela destruição dos serviços básicos e pela anarquia decorrente tanto da criminalidade comum quanto dos grupos armados de diversas naturezas.

O Iraque moderno foi uma invenção inglesa que veio à luz em 1920 e, como é freqüente nessa região, tem um histórico de transições políticas tumultuadas, incluindo-se aí um rei (Faisal) e um ditador fardado (Abdul Karim) fuzilados em palácio. As rivalidades étnico-religiosas (curdos e árabes, estes divididos entre xiitas e sunitas) tornam-no um dos países mais difíceis de governar do mundo. Antes de ser consumido por ambições desvairadas, Saddam Hussein era considerado um elemento estabilizador, apesar da monstruosidade dos métodos empregados. A invasão americana abriu as portas para todo tipo de atividade violenta, de nacionalistas exaltados a fanáticos religiosos. A possibilidade de que Allawi transforme essa boca do inferno no primeiro caso de democracia clássica entre os países árabes exige uma formidável dose de otimismo. Ele próprio não é nenhum democrata nato. Xiita secular, ex-membro do partido de Saddam Hussein, o Baath, Allawi fugiu do país há três décadas e passou boa parte dos anos 90 ajudando a CIA a planejar golpes contra o ditador. Partiram dele as informações falsas que ajudaram o presidente americano George W. Bush a propagar, como argumento para a invasão do Iraque, que Saddam tinha ligações com o grupo terrorista Al Qaeda.

Se nem os americanos resistiram à tentação de partir para a violação dos direitos humanos no combate ao terrorismo, imagine-se o grau de autocontrole exigido de um homem com o DNA político-cultural de Allawi. O primeiro-ministro tem pouco tempo e enorme pressão para conter a violência no Iraque, transformado em chamariz de fanáticos vindos de diversos países muçulmanos dispostos a morrer na guerra santa contra os "infiéis" americanos. Calcula-se que haja 1.000 terroristas estrangeiros no Iraque. Mesmo que se consiga algum tipo de estabilidade até as eleições, e depois, o que se pode esperar? Com o voto universal, a maioria xiita – 60% da população – deve conseguir a posição predominante no futuro governo, tirando dos sunitas a preponderância exercida desde os tempos do Império Otomano, no século XVI. Na pior das hipóteses, o espectro é o da guerra civil. Na melhor, os iraquianos vão demorar um pouco até aprender que democracia é também, ou sobretudo, a garantia aos direitos da minoria. Isso é viável? "A cultura e os valores são muito diferentes nos países árabes, mas não existe um único modelo de democracia e é perfeitamente possível adaptá-la às características da região", disse a VEJA o americano David L. Phillips, especialista em Iraque do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos. Allawi tem cinco meses para dar o primeiro empurrão nesse processo.

 
MENTIRAS SINCERAS


Reuters
Blair e Bush: provas exageradas

Bush e Blair precisavam de argumentos fortes para convencer seus cidadãos de que Saddam Hussein era um perigo para o mundo. Seus espiões lhes deram o que queriam: relatórios com indícios de que o ditador iraquiano tinha armas químicas prontas para ser usadas e que apoiava a rede terrorista Al Qaeda. As armas de destruição em massa não foram encontradas, e o Iraque, que não tinha terroristas antes de Saddam ser deposto, agora sofre com atentados diários. O Senado americano e uma comissão nomeada pelo governo inglês concluíram, em relatórios divulgados nas últimas semanas, que os fracos indícios levantados pelos agentes americanos e ingleses foram apresentados por Bush e Blair como se fossem provas contundentes. É difícil sustentar a tese de que a dupla foi enganada pelos arroubos de seus espiões. Bush e Blair receberam as informações que exigiram ter. O verdadeiro teste da utilidade da guerra – combater o terror – ainda está em aberto. Por enquanto, a balança pende para o lado contrário: o Iraque virou um caos, os fanáticos encontraram nova motivação e o número de mortos em atentados, no ano passado, foi maior que em 2002.

 
 
 
 
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