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Eleições
É pura burocracia
Você quer saber o patrimônio real
de
seu candidato? É melhor esquecer

Alexandre Oltramari
Custódio Coimbra/Ag. O Globo
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| O prefeito do Rio, Cesar Maia, na varanda
à beira-mar: ninguém vende imóvel pela sua cotação |
A lista dos bens de candidatos na próxima
eleição virou peça de ficção.
Paulo Maluf, cujo patrimônio declarado totaliza 39 milhões
de reais, informa que sua mansão nos Jardins, um dos bairros
mais seletos da capital paulista, custa 1,3 milhão de reais.
Uma pechincha. Um corretor de imóveis que já esteve
na residência do candidato garantiu a VEJA que o casarão
de Maluf vale, pelo menos, 5 milhões de reais. A prefeita
Marta Suplicy, candidata à reeleição, tem patrimônio
declarado de 4,3 milhões de reais. Seu flat no Guarujá,
a 200 metros do mar, está avaliado em 50.000
reais, mas vale o dobro, segundo estimam dois corretores. No Rio
de Janeiro, o prefeito Cesar Maia, também candidato à
reeleição, declarou patrimônio de 1,7 milhão
de reais. Seu apartamento no sofisticado condomínio Rive
Droite, em São Conrado, aparece com valor de 500 000 reais
na relação de bens. Vale, no mínimo, 1,5 milhão
de reais.
Criada quase quarenta anos atrás, a
lei que obriga a divulgação dos bens antes de uma
eleição tem o objetivo de municiar o eleitor com uma
informação preciosa: o tamanho do patrimônio
do candidato. Com isso, o eleitor poderia identificar casos de enriquecimento
ilícito no cargo. O abismo entre os valores apresentados
pelos candidatos e o preço de mercado dos bens, porém,
acaba solapando a intenção original da lei. A distorção,
ao contrário do que parece à primeira vista, não
é manobra de candidato interessado em ocultar o real patrimônio
decorre da perversa conjunção de uma lei malfeita
com a velha fúria tributária do governo. Sem uma regra
clara dizendo como a declaração de bens deve ser feita,
boa parte dos candidatos entrega à Justiça Eleitoral
uma cópia da última declaração de imposto
de renda na qual os bens, em geral, estão avaliados
pelo valor histórico. Ou seja: um imóvel comprado
por 100.000 reais dez anos atrás
segue cotado em 100.000 reais na declaração
de IR de hoje.
Carol do Valle
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A mansão de Maluf em São Paulo: coisa
de 5 milhões de reais |
Isso acontece porque o Estado visa principalmente
a encher as burras de dinheiro. O governo proíbe a atualização
do valor dos bens a cada ano porque cobrará, caso o imóvel
seja vendido um dia, uma taxa de 15% sobre sua valorização.
Assim, se o valor do bem pudesse ser atualizado todos os anos, a
mordida do Leão ficaria muito menor. Em apenas duas oportunidades,
em 1991 e em 1995, a autorização foi dada. "Os valores
estavam muito artificiais. Foi uma forma de atenuar os efeitos do
gigantesco processo inflacionário", explica o tributarista
Osiris Lopes Filho, ex-secretário da Receita Federal. Como
a atualização não era obrigatória, muitos
contribuintes deixaram tudo a preço velho. É o caso
do senador César Borges, candidato pefelista à prefeitura
de Salvador. Sua declaração de bens, uma cópia
do IR, lista dezesseis lojas, doze salas comerciais e um terreno
tudo pela bagatela de 23.000 reais.
Na maior parte das nações avançadas,
com exceção dos Estados Unidos, a Justiça exige
a apresentação da declaração de bens
de candidatos a cargos públicos. Nesses países, o
sistema funciona bem porque nenhum teve tanta inflação
quanto o Brasil nas últimas décadas. A estabilidade
proporcionada pelo real, no entanto, já dura dez anos, e
uma nova lei poderia ter sido feita para disciplinar o assunto.
Do jeito que está, a lei não passa de mandamento burocrático,
que não interessa aos eleitores, pois não lhes dá
a dimensão real do patrimônio dos candidatos. Nada
disso explica casos como o do senador Marcelo Crivella, candidato
à prefeitura do Rio. Ele apresentou declaração
de bens que totaliza 21.000 reais, mas
omitiu a existência de duas emissoras de rádio registradas
em seu nome, de acordo com o Ministério das Comunicações.
O caso será investigado pela polícia.
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