Edição 1863 . 21 de julho de 2004

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Política
Governar é...

...dar ordens e tomar decisões juntinhos,
como fazem, no Rio de Janeiro, Rosinha
e seu marido e secretário de Segurança,
Anthony Garotinho


Marcelo Carneiro

Já passa das 2 da manhã e a governadora do Rio de Janeiro, Rosângela Matheus, enfrenta um velho problema. Não se trata de mais uma rebelião no complexo penitenciário de Bangu. Tampouco da falta de verba para instalar um de seus projetos assistenciais, como a farmácia, o restaurante ou o hotel popular, tudo a 1 real. Rosinha, nove filhos, 4 milhões de votos na eleição de 2002, comanda a segunda maior economia do país e sofre de insônia. Nessas horas, a única solução é chamar o secretário de Segurança, que está ali, bem ao lado – a essa altura, já em sono profundo. Ao empossar Anthony Garotinho, em abril do ano passado, no cargo de secretário de Segurança Pública, Rosinha declarou sem rodeios: "Estou colocando na secretaria o que tenho de mais importante na vida, meu marido". Desde então, o Rio de Janeiro tornou-se um caso de Estado administrado em matrimônio. Rosinha é a governadora. Garotinho, o secretário mais influente. As decisões administrativas acabam sendo tomadas em comum acordo, como aquelas que afetam apenas a vida do casal. Mas, com muito mais freqüência do que admitem os adversários de Rosinha e Garotinho, a última palavra em palácio é dele: "Sim, senhora".

Anthony Garotinho, que governou o Estado de 1999 a 2002, intervém em questões vitais e não há decisão em nenhum setor em que ele deixe de ser ouvido pela governadora. Mas, como ocorre na imensa maioria dos lares brasileiros, a dona da casa conseguiu imprimir seu estilo pessoal na coabitação administrativa que mantém com o marido. No início do mandato de Rosinha, no ano passado, a máquina pública atravessava uma crise, com atraso no pagamento do 13º dos servidores. Garotinho – que àquela época nem cargo de secretário tinha – reunia-se quase diariamente com os dois homens fortes das secretarias de Finanças e Receita do Estado, Henrique Bellucio e Mario Tinoco, dando ordens e pedindo relatórios. Todas as articulações políticas, inclusive para nomeações nos diversos escalões do governo, também passaram, e ainda passam, pelo secretário. "É mais fácil você encontrar deputados e prefeitos do interior na Secretaria de Segurança Pública que no Palácio Guanabara", diz um influente político fluminense. Rosinha detesta esse tipo de reunião, e não há em seu rol de amizades um político sequer.

 
Oscar Cabral
O casal em família: Garotinho quer disputar de novo a Presidência e Rosinha prefere voltar a cuidar dos filhos

Rosinha conquistou o cargo ainda no primeiro turno das eleições. Sua vitória arrebatadora nas urnas não garantiu um começo ameno de governo. Logo nos primeiros dias de mandato surgiram denúncias contra um de seus principais colaboradores, Rodrigo Silveirinha, acusado de comandar uma quadrilha que assaltava os cofres do Estado e depositava milhões de dólares na Suíça. Em seguida, veio a briga com o governo federal, que havia bloqueado repasses para o Estado, em razão de dívidas vencidas com a União. Em menos de um semestre à frente do cargo, a governadora já tinha sido levada duas vezes para um hospital na Zona Sul do Rio, com o diagnóstico de stress. Ela chegou a chorar uma noite inteira, depois de quase ser agredida por funcionários públicos em greve. Uma série de ataques de traficantes contra policiais foi a gota d'água. Rosinha decidiu pedir ajuda explícita ao marido, que já havia se oferecido para ocupar o cargo de secretário de Segurança. Foram necessários apenas quatro meses do mandato de Rosinha para que Garotinho assumisse, de direito, o que vinha comandando de fato. Há duas semanas, alegando recomendação médica por causa de stress, Garotinho licenciou-se do cargo. O ex-governador costuma alternar vários dias de ritmo pesado – são comuns jornadas de vinte horas seguidas de trabalho – com dias em que mal consegue sair da cama.

O inusitado arranjo de poder no governo do Rio de Janeiro não chega a ser uma aberração do ponto de vista de um bom número de lares brasileiros. Como mostrou o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em muitas cidades o número de mulheres definidas como "cabeça do casal" nunca foi tão grande no Brasil. Rosinha e Garotinho contrataram pesquisas para tentar descobrir como os cariocas percebem a atuação deles no governo. Ao contrário do que se imagina, a governança compartilhada não é condenada pelos eleitores. A influência de Garotinho, mostram as pesquisas, é até bem avaliada. Ela inclusive já foi considerada maior, especialmente no início do governo. O fato de o marido da governadora ter ocupado um cargo na administração atenuou essa imagem. Antes, Garotinho chegava a ser visto como um marido que não deixava a mulher alçar vôo próprio. Agora, ainda segundo as pesquisas, o ex-governador – por ter assumido a área de segurança, sem dúvida a mais problemática no Rio de Janeiro – ganhou pontos, especialmente entre o eleitorado feminino. "Ele passou a ser encarado como o marido que não desampara a mulher em uma hora difícil", diz uma pessoa do círculo do ex-governador que teve acesso às pesquisas.

 
Domingos Peixoto/Ag. O Globo
Rebelião em presídio: segurança é com ele

Rosinha é uma pessoa de temperamento muito menos político que o marido. Também não tem as mesmas pretensões de Garotinho de disputar cargos mais elevados. Essa combinação de fatores, sem dúvida uma exceção entre os ocupantes de governos estaduais, ajudou Rosinha nas negociações com Brasília. Deu-lhe mais autoridade. No início de seu mandato, ela recebeu uma sondagem do Planalto para que fosse a Brasília, acompanhada de Garotinho, participar de um café-da-manhã com o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. As tensões entre Brasília e o Rio estavam em seu momento mais quente. A governadora não só recusou o convite como proibiu Garotinho de ir até lá: "Eu não vou e você também não vai". O café-da-manhã nunca aconteceu. Pode-se creditar a ela o fato de a distância que separa o governo Lula do governo fluminense só ter aumentado nesses dezoito meses. Se dependesse de Garotinho, a relação teria sido menos beligerante. Rosinha odeia falar em público, em situações protocolares, por medo de cometer gafes. Outro traço da governadora é a pouca paciência com atrasos. Não gosta de esperar nem um minuto quando convoca um subordinado. Há cerca de um mês, comprou radiocomunicadores e os distribuiu aos secretários, que agora têm de manter o aparelho ligado durante todo o dia, inclusive de madrugada.

Na gestão de Garotinho, quando Rosinha ocupava o cargo de secretária de Ação Social, ela também não tinha constrangimento em dar opinião sobre problemas em qualquer área. Fazia isso na frente dos titulares de outras pastas. A dupla só parece caminhar em sentidos opostos no que diz respeito ao futuro. Quanto a Garotinho, há pouco segredo: o ex-governador não esconde de ninguém que será novamente candidato a presidente, em 2006. Já Rosinha, de 41 anos, demonstra pouco apetite para uma outra aventura eleitoral. Tem dito a amigos que só decidiu se candidatar por insistência do marido e que não vê a hora de voltar a cuidar dos filhos em tempo integral. Para ficar perto do mais novo, David, de 5 anos, ela chega a despachar no Palácio Laranjeiras, residência oficial, em vez de no Palácio Guanabara, sede do governo. Para ela, na política, um Garotinho só é suficiente.

 

 
 
 
 
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