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Política
Governar é...
...dar ordens e tomar decisões
juntinhos,
como fazem, no Rio de Janeiro, Rosinha
e seu marido e secretário de Segurança,
Anthony Garotinho

Marcelo Carneiro
Já passa das 2 da manhã e a governadora
do Rio de Janeiro, Rosângela Matheus, enfrenta um velho problema.
Não se trata de mais uma rebelião no complexo penitenciário
de Bangu. Tampouco da falta de verba para instalar um de seus projetos
assistenciais, como a farmácia, o restaurante ou o hotel
popular, tudo a 1 real. Rosinha, nove filhos, 4 milhões de
votos na eleição de 2002, comanda a segunda maior
economia do país e sofre de insônia. Nessas horas,
a única solução é chamar o secretário
de Segurança, que está ali, bem ao lado a essa
altura, já em sono profundo. Ao empossar Anthony Garotinho,
em abril do ano passado, no cargo de secretário de Segurança
Pública, Rosinha declarou sem rodeios: "Estou colocando na
secretaria o que tenho de mais importante na vida, meu marido".
Desde então, o Rio de Janeiro tornou-se um caso de Estado
administrado em matrimônio. Rosinha é a governadora.
Garotinho, o secretário mais influente. As decisões
administrativas acabam sendo tomadas em comum acordo, como aquelas
que afetam apenas a vida do casal. Mas, com muito mais freqüência
do que admitem os adversários de Rosinha e Garotinho, a última
palavra em palácio é dele: "Sim, senhora".
Anthony Garotinho, que governou o Estado de
1999 a 2002, intervém em questões vitais e não
há decisão em nenhum setor em que ele deixe de ser
ouvido pela governadora. Mas, como ocorre na imensa maioria dos
lares brasileiros, a dona da casa conseguiu imprimir seu estilo
pessoal na coabitação administrativa que mantém
com o marido. No início do mandato de Rosinha, no ano passado,
a máquina pública atravessava uma crise, com atraso
no pagamento do 13º dos servidores. Garotinho que àquela
época nem cargo de secretário tinha reunia-se
quase diariamente com os dois homens fortes das secretarias de Finanças
e Receita do Estado, Henrique Bellucio e Mario Tinoco, dando ordens
e pedindo relatórios. Todas as articulações
políticas, inclusive para nomeações nos diversos
escalões do governo, também passaram, e ainda passam,
pelo secretário. "É mais fácil você encontrar
deputados e prefeitos do interior na Secretaria de Segurança
Pública que no Palácio Guanabara", diz um influente
político fluminense. Rosinha detesta esse tipo de reunião,
e não há em seu rol de amizades um político
sequer.
Oscar Cabral
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| O casal em família: Garotinho quer disputar
de novo a Presidência e Rosinha prefere voltar a cuidar dos
filhos |
Rosinha conquistou o cargo ainda no primeiro
turno das eleições. Sua vitória arrebatadora
nas urnas não garantiu um começo ameno de governo.
Logo nos primeiros dias de mandato surgiram denúncias contra
um de seus principais colaboradores, Rodrigo Silveirinha, acusado
de comandar uma quadrilha que assaltava os cofres do Estado e depositava
milhões de dólares na Suíça. Em seguida,
veio a briga com o governo federal, que havia bloqueado repasses
para o Estado, em razão de dívidas vencidas com a
União. Em menos de um semestre à frente do cargo,
a governadora já tinha sido levada duas vezes para um hospital
na Zona Sul do Rio, com o diagnóstico de stress. Ela chegou
a chorar uma noite inteira, depois de quase ser agredida por funcionários
públicos em greve. Uma série de ataques de traficantes
contra policiais foi a gota d'água. Rosinha decidiu pedir
ajuda explícita ao marido, que já havia se oferecido
para ocupar o cargo de secretário de Segurança. Foram
necessários apenas quatro meses do mandato de Rosinha para
que Garotinho assumisse, de direito, o que vinha comandando de fato.
Há duas semanas, alegando recomendação médica
por causa de stress, Garotinho licenciou-se do cargo. O ex-governador
costuma alternar vários dias de ritmo pesado são
comuns jornadas de vinte horas seguidas de trabalho com dias
em que mal consegue sair da cama.
O inusitado arranjo de poder no governo do
Rio de Janeiro não chega a ser uma aberração
do ponto de vista de um bom número de lares brasileiros.
Como mostrou o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE), em muitas cidades o número de
mulheres definidas como "cabeça do casal" nunca foi tão
grande no Brasil. Rosinha e Garotinho contrataram pesquisas para
tentar descobrir como os cariocas percebem a atuação
deles no governo. Ao contrário do que se imagina, a governança
compartilhada não é condenada pelos eleitores. A influência
de Garotinho, mostram as pesquisas, é até bem avaliada.
Ela inclusive já foi considerada maior, especialmente no
início do governo. O fato de o marido da governadora ter
ocupado um cargo na administração atenuou essa imagem.
Antes, Garotinho chegava a ser visto como um marido que não
deixava a mulher alçar vôo próprio. Agora, ainda
segundo as pesquisas, o ex-governador por ter assumido a
área de segurança, sem dúvida a mais problemática
no Rio de Janeiro ganhou pontos, especialmente entre o eleitorado
feminino. "Ele passou a ser encarado como o marido que não
desampara a mulher em uma hora difícil", diz uma pessoa do
círculo do ex-governador que teve acesso às pesquisas.
Domingos Peixoto/Ag. O Globo
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| Rebelião em presídio: segurança é com ele
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Rosinha é uma pessoa de temperamento
muito menos político que o marido. Também não
tem as mesmas pretensões de Garotinho de disputar cargos
mais elevados. Essa combinação de fatores, sem dúvida
uma exceção entre os ocupantes de governos estaduais,
ajudou Rosinha nas negociações com Brasília.
Deu-lhe mais autoridade. No início de seu mandato, ela recebeu
uma sondagem do Planalto para que fosse a Brasília, acompanhada
de Garotinho, participar de um café-da-manhã com o
ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. As tensões
entre Brasília e o Rio estavam em seu momento mais quente.
A governadora não só recusou o convite como proibiu
Garotinho de ir até lá: "Eu não vou e você
também não vai". O café-da-manhã nunca
aconteceu. Pode-se creditar a ela o fato de a distância que
separa o governo Lula do governo fluminense só ter aumentado
nesses dezoito meses. Se dependesse de Garotinho, a relação
teria sido menos beligerante. Rosinha odeia falar em público,
em situações protocolares, por medo de cometer gafes.
Outro traço da governadora é a pouca paciência
com atrasos. Não gosta de esperar nem um minuto quando convoca
um subordinado. Há cerca de um mês, comprou radiocomunicadores
e os distribuiu aos secretários, que agora têm de manter
o aparelho ligado durante todo o dia, inclusive de madrugada.
Na gestão de Garotinho, quando Rosinha
ocupava o cargo de secretária de Ação Social,
ela também não tinha constrangimento em dar opinião
sobre problemas em qualquer área. Fazia isso na frente dos
titulares de outras pastas. A dupla só parece caminhar em
sentidos opostos no que diz respeito ao futuro. Quanto a Garotinho,
há pouco segredo: o ex-governador não esconde de ninguém
que será novamente candidato a presidente, em 2006. Já
Rosinha, de 41 anos, demonstra pouco apetite para uma outra aventura
eleitoral. Tem dito a amigos que só decidiu se candidatar
por insistência do marido e que não vê a hora
de voltar a cuidar dos filhos em tempo integral. Para ficar perto
do mais novo, David, de 5 anos, ela chega a despachar no Palácio
Laranjeiras, residência oficial, em vez de no Palácio
Guanabara, sede do governo. Para ela, na política, um Garotinho
só é suficiente.
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