Edição 1863 . 21 de julho de 2004

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Religião
O evangelho segundo
os políticos

Candidatos de todos os partidos vão ao
calvário para conquistar o voto religioso
e levantam uma questão: é saudável
colocar Deus no centro da política?


Otávio Cabral

 
Robson Fernandes/AE
Marta Suplicy, fazendo campanha dentro de um templo evangélico: o pastor pede que Deus dê a bênção à prefeita

"Meu Deus, abençoe a prefeita", implorou o pastor, diante de 250 crentes da Igreja Batista da Graça, situada num bairro pobre de São Paulo. "Abençoe a prefeita porque esta autoridade que ela tem vem de Ti!" Ao lado do pastor estava a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, candidata à reeleição, que do alto do púlpito fez seu proselitismo em busca de votos. No fim de semana anterior, a prefeita visitara o templo de outra igreja evangélica e testemunhara o seguinte jogral religioso:

– A prefeita é bem-vinda? – perguntava, aos gritos, o pastor Deiró de Andrade.

– Amém! – gritava em resposta a massa de fiéis.

Luiza Erundina, do PSB, explicou aos adeptos da Assembléia de Deus, num templo na periferia de São Paulo, que só está na política por vontade divina. "Por mim, eu não estaria mais, mas Deus estabelece um desígnio, uma tarefa para a gente com a comunidade", disse, tentando cabalar os votos dos fiéis da Assembléia de Deus, cujos líderes se dividiram na eleição para a prefeitura paulistana. Uns estão com Erundina. Outros, com o tucano José Serra. E um terceiro grupo optou pelo presbiteriano Francisco Rossi, candidato de um tal de PHS.

No Rio de Janeiro, o candidato Marcelo Crivella, do PL, afirma que a população não está interessada em "saber a religião do candidato". Por via das dúvidas, Crivella não se esquece de dizer que é bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, a denominação evangélica que mais cresce no país, e usa os templos espalhados pela cidade como diretórios partidários. A mistura de religião e política despertou a atenção do arcebispo do Rio de Janeiro, dom Eusébio Scheid. "Não se pode jamais transformar uma religião em partido", criticou o arcebispo, ao visitar o prefeito Cesar Maia, candidato à reeleição que corteja o voto católico e acaba de assinar um convênio que investirá 5 milhões de reais na reforma de quatro igrejas católicas. Na realidade, ninguém está transformando religião em partido. Os candidatos, de todos os partidos, da esquerda à direita, é que têm feito de tudo para ganhar o voto religioso, principalmente dos evangélicos.

 
Domingos Peixoto/Ag. O Globo
O senador Marcelo Crivella, em campanha no centro do Rio de Janeiro: ele não se esquece de dizer que é bispo da Igreja Universal

O envolvimento de religiosos com política é crescente e, neste ano, atingiu o ápice. Os evangélicos, mais ostensivos que os outros nesse campo, sempre preferiram concorrer a vereador, deputado ou senador, pois entendiam que podiam ajudar mais sua igreja atuando no Legislativo. "É a primeira vez que eles entram em peso na disputa pelo Executivo", afirma a antropóloga Regina Novaes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisadora do Instituto Superior de Estudos da Religião (Iser). O líder das pesquisas para a prefeitura de Salvador é João Henrique, da Igreja Batista. O primeiro lugar na disputa à prefeitura de Belo Horizonte é de João Leite, do PSB, também da Igreja Batista, ex-goleiro da Seleção Brasileira de Futebol que, quando trabalhava nos gramados, criou o grupo Atletas de Cristo. Há, ainda, candidatos com forte discurso religioso e chances reais de vitória na corrida pela prefeitura de outras capitais de Estado, como Belém, Florianópolis e Campo Grande.

Historicamente, a política brasileira não se pauta pela religião. O ex-presidente Fernando Henrique nunca colocou a fé entre suas preocupações principais. A religião jamais desempenhou papel central na biografia do presidente Lula. A esmagadora maioria do eleitorado brasileiro é incapaz de dizer se os generais da ditadura militar, se Getúlio Vargas ou Juscelino Kubitschek eram praticantes de alguma religião. Nos últimos anos, especialmente em virtude do estratosférico inchaço da massa evangélica, esse tipo de preocupação começou a aparecer. O presidente Lula, ele próprio, já passou por maus bocados. Em 1989, por exemplo, os evangélicos compararam o petista ao diabo de barba e, manipulando sua proposta de usar o espaço físico dos templos para campanhas sociais, espalharam que o candidato pretendia fechar as igrejas. "Na Bahia, a mentira se propagou e foi quase impossível conseguir voto para Lula entre evangélicos", rememora o deputado Walter Pinheiro, fiel da Igreja Batista e coordenador do grupo evangélico do PT.

 
Sergio Zacchio/Folha Imagem
André Sarmento/Folha Imagem
Erundina, em culto evangélico, e o tucano José Serra: os dois disputam o apoio dos líderes da maior igreja evangélica, a Assembléia de Deus

A associação entre política e religião carrega em si uma semente da qual podem brotar ervas daninhas. Nos Estados Unidos, talvez o exemplo mais eloqüente da influência de Deus na política de uma nação democrática, a questão religiosa tem gerado profundas controvérsias, em especial depois da eleição de George W. Bush, um fundamentalista cristão que – assustadoramente – dá sinais de que se julga enviado divino. Hoje, há desavenças até nas escolas americanas entre os criacionistas, para quem o homem descende de Adão e Eva, e os evolucionistas, adeptos da teoria da evolução das espécies de Charles Darwin. No Brasil, felizmente, a questão religiosa está longe de produzir tal dicotomia bizarra, mas há exemplos de que a chegada ao poder de gente que se sente investida de uma missão divina pode gerar complicações num Estado laico como o brasileiro. No Rio de Janeiro, governado pela evangélica Rosinha Matheus, está autorizado o ensino do criacionismo nas escolas públicas.

 
Toninho Almada/Hoje Em Dia/Folha Imagem
O ex-goleiro João Leite, o líder das pesquisas em Belo Horizonte: membro da Igreja Batista

Na Assembléia Legislativa do Rio, por iniciativa de um deputado evangélico, tramita um projeto que, se aprovado, criará um programa para converter homossexuais em heterossexuais – uma estupidez que retoma o arcaico pressuposto de que o homossexualismo é desvio moral, voluntário e opcional, ou talvez coisa do diabo. O problema é que, sob o governo de Rosinha Matheus, é possível que um programa assim não seja vetado, mas até aplaudido. Sempre que a fé religiosa chega aos assuntos públicos de um Estado constitucionalmente laico surgem polêmicas. Agora mesmo, o procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, pretende contestar uma liminar concedida pelo Supremo Tribunal Federal pela qual mulheres grávidas de fetos sem cérebro estão autorizadas a abortar. Fonteles é católico praticante.

Pela Constituição, a liberdade de crença é inviolável, a proteção aos locais de culto e suas liturgias é garantida e o Estado está proibido de estabelecer cultos religiosos ou igrejas. Isso quer dizer que a fé, e seu exercício, é absolutamente livre e que o Estado é inteiramente laico. Foi, no entanto, em 1988, ano da promulgação da atual Constituição, que os evangélicos passaram a se interessar mais diretamente por política. Até então, limitavam-se a orientar o voto de seus fiéis, mas, com a nova Constituição, cujo texto acharam excessivamente católico, começaram a incentivar a candidatura de bispos e pastores. "Houve uma decepção das igrejas evangélicas com parlamentares que foram eleitos com um discurso religioso e traíram a causa no Congresso", diz o petista Walter Pinheiro. "Por isso, as igrejas passaram a buscar candidatos dentro dos templos." Conforme garante a Constituição, qualquer cidadão brasileiro tem o direito de professar sua fé, inclusive de ser candidato defendendo suas idéias religiosas, desde que não sejam discriminatórias, mas a defesa da manutenção de um Estado laico é fundamental. Tal como o próprio regime democrático, o Estado laico é o pior tipo de organização do Estado que se conhece, salvo todos os outros.

 

 
 
 
 
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