|
|
Em
foco: Gustavo Franco
Parcerias complicadas
É preciso abandonar a ilusão
de que as parcerias público-privadas
serão uma
solução mágica para o investimento em
infra-estrutura no Brasil
Ilustração Ale Setti
 |
A lógica econômica da privatização nunca
foi difícil de entender. A família tem dívidas
altíssimas, rendas muito disputadas pelos parentes e diversos
bens, a maioria dando mais despesa do que rendimento. Vender alguns
desses bens para quitar dívidas é uma idéia
muito boa para melhorar as finanças familiares. Mas essa
idéia não resolve tudo, especialmente se a família
não controlar sua vocação para gastar. Por
isso mesmo a família adota, um tanto tardiamente, é
verdade, uma diretriz, conhecida como Lei de Responsabilidade Fiscal
(LRF), que, encurtando a história, tira os cartões
de crédito e os cheques especiais de todos os seus membros.
É nesse contexto que se apresenta o
seguinte problema: a família tem alguns terrenos de baixo
valor comercial em que está obrigada a fazer investimentos
para os quais não tem dinheiro. Ela já se endividou
tudo o que podia. A solução mais sensata para transferir
essa responsabilidade é vender, ou arrendar, o terreno, talvez
por preço simbólico, exigindo em contrapartida que
o comprador assuma obrigações como a de investir no
terreno, a de "universalizar" os serviços ali proporcionados,
a de cobrar tarifas razoáveis e a de devolver o terreno
com as benfeitorias depois de algum tempo.
Quando o terreno é bom a ponto de permitir
que o operador privado ganhe dinheiro cumprindo todas essas obrigações,
a solução mais simples (e já pronta) é
a privatização. O problema está, todavia, nos
casos em que a exploração privada dá prejuízo.
São as situações nas quais o preço do
terreno (juntamente com as obrigações para quem o
compra) é negativo, ou seja, a família tem de pagar
ao empresário para que ele assuma o terreno. Aqui as privatizações
são impossíveis e as parcerias público-privadas
as PPPs se apresentam como solução.
Os problemas, contudo, são muitos.
O primeiro é que as PPPs não
competem com as privatizações. São complementares
a elas, e não devem ser usadas como pretexto para interromper
privatizações e respectivos investimentos em áreas
onde tudo está pronto. O segundo é que as dificuldades
regulatórias existentes, por exemplo, no saneamento e na
eletricidade inviabilizam tanto privatizações quanto
PPPs. O terceiro tem a ver com os preços que o governo pagará:
se nas privatizações era comum o questionamento dos
preços mínimos de venda, mesmo se tratando de avaliações
relativamente simples, imaginem como será no caso dos pagamentos
feitos pelo poder público em projetos de PPP.
O quarto problema é o da personalidade
jurídica do arranjo. Na privatização fica muito
claro onde acaba o setor público, onde começa o privado.
As PPPs estão no meio do caminho, e não existe um
empreendimento "meio público", assim como não existe
"meia gravidez". Ao afastar, em certos procedimentos, os rigores
e impedimentos da administração pública, a
lei das PPPs enfrentará dificuldades conceituais e caminhará
sobre gelo muito fino. Talvez nem mesmo encontre o equilíbrio
entre o "público" e o "privado".
Um quinto problema, mais rasteiro, é
o que vem sendo debatido pelo senador Tasso Jereissati e pelo ministro
do Planejamento, Guido Mantega: como a parceria pode levantar dinheiro.
Se a família for a devedora, garantidora ou avalista, estaremos
ferindo a LRF. Se, todavia, o empresário "securitizar" ou
ceder o que tem a receber da família para um banco, o que
a lei prevê expressamente, é menos claro que está
havendo "endividamento público". O senador, e também
o Tesouro Nacional, acha que sim. O ministro diz que se trata de
"despesa de caráter continuado", prevista no artigo 17 da
Lei de Responsabilidade Fiscal. Paga-se prestação,
mas não há dívida.
No sistema de contabilidade adotado nos EUA
e pelas empresas brasileiras que têm suas ações
negociadas em Nova York, esse tipo de despesa "recorrente" é
contabilizado como dívida. A contabilidade dos governos deveria
ser até mais rigorosa que a das empresas privadas "globalizadas",
ou não deveria? Os problemas são difíceis,
mas não insuperáveis. E começarão a
se resolver na medida em que se abandonar a ilusão de que
as PPPs serão uma solução mágica para
o investimento em infra-estrutura.
Gustavo Franco é economista
da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com;
www.gfranco.com.br)
|