Edição 1863 . 21 de julho de 2004

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Auto-retrato
Thomas Lovejoy

Bel Bedrosa/Folha Imagem


O biólogo americano Thomas Eugene Lovejoy, de 62 anos, é conhecido como um dos ambientalistas que mais defendem a Amazônia. Recentemente, alguns cientistas brasileiros passaram a acusá-lo de ter usado as pesquisas que realizou na região, na década de 60, para fazer biopirataria. Lovejoy falou com o repórter Diogo Schelp sobre essas acusações.

O SENHOR É ACUSADO DE REMETER MATERIAL GENÉTICO DO BRASIL ILEGALMENTE AO EXTERIOR. POR QUÊ?
Essa acusação sem fundamento é feita por pessoas que não entendem de verdade o que é ciência. Elas deveriam prestar mais atenção à destruição da floresta, que é a verdadeira biopirataria, pois está roubando das futuras gerações de brasileiros os benefícios potenciais de toda a diversidade biológica da Floresta Amazônica. Para poder dar um uso econômico a sua biodiversidade, o Brasil precisa de um completo inventário da floresta. Por isso é tão importante ter uma colaboração com cientistas de todo o mundo. Os projetos de pesquisas que implantei no Brasil formaram centenas de jovens cientistas brasileiros. Isso ajuda a proteger a floresta.

O SENHOR CHEGOU A SER ACUSADO DE SER ESPIÃO DA CIA. A POLÍTICA EXTERNA DO GOVERNO AMERICANO LEVOU A XENOFOBIA TAMBÉM ÀS RODAS CIENTÍFICAS?
Não se vê ninguém fazendo as mesmas acusações contra cientistas brasileiros, o que mostra que pode haver, sim, um componente de antiamericanismo ou de xenofobia nisso tudo. As atitudes antiamericanas são reais, lamentáveis e compreensíveis. E espero que os Estados Unidos possam em breve dar bons motivos para que esse comportamento mude. Quanto ao que falam sobre mim, o que posso dizer é que meu coração continua batendo no compasso do samba. Estou limpo dessas acusações.

OS CIENTISTAS ESTRANGEIROS ENFRENTAM MUITA BUROCRACIA PARA FAZER PESQUISA NO BRASIL?
É um problema sazonal. De tempos em tempos, torna-se realmente muito burocrático. E em seguida fica mais fácil. Isso ocorre principalmente quando há troca de governo. Os novos funcionários demoram para entender todo o sistema e as regras para a aprovação de projetos. Daí tudo se complica. Eu e meus colegas passamos por alguns momentos difíceis.

NOS ÚLTIMOS ANOS, O QUE MELHOROU NO BRASIL EM TERMOS AMBIENTAIS?
A fiscalização está melhor. Criaram-se novas áreas de proteção na Amazônia. E os governadores dos Estados amazônicos vêm adotando políticas próprias de conservação do meio ambiente.

O SENHOR VÊ DIFERENÇA ENTRE O QUE ESTÁ SENDO FEITO PELO GOVERNO LULA E O QUE FEZ O GOVERNO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO?
Parece-me que o atual governo perdeu um pouco do impulso que havia sido dado no governo anterior para aumentar a proteção ao meio ambiente.

O GREENPEACE ESTÁ FAZENDO UMA CAMPANHA CONTRA OS TRANSGÊNICOS. ELES ESCOLHERAM A CAUSA CERTA?
Os alimentos transgênicos são como qualquer outra tecnologia nova, que pode ser usada de maneira positiva ou negativa. É um erro ser contra essa tecnologia apenas por princípio, sem conhecer melhor suas possibilidades. Os transgênicos prometem um uso muito menor de produtos químicos na agricultura, o que é bastante positivo.

OS AMBIENTALISTAS RADICAIS ATRAPALHAM A ATUAÇÃO DOS MODERADOS?
Eu vejo isso como uma espécie de divisão de trabalho dentro da comunidade ambientalista. O fato de alguns ecologistas assumirem posições muito radicais até torna as coisas mais fáceis para os outros. As propostas dos moderados passam a ser vistas como razoáveis e factíveis.

COMO O SENHOR DEFINE SUA RELAÇÃO COM O BRASIL?
Estive no Brasil pela primeira vez em 1965. Morei em Belém do Pará entre 1967 e 1969. Desde aquela época vou sempre que posso. Eu me sinto quase um brasileiro. Tenho duas filhas que nasceram no Brasil. Então é como se fosse meu segundo país.

 
 
 
 
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