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Auto-retrato
Thomas Lovejoy
Bel Bedrosa/Folha Imagem
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O biólogo americano Thomas Eugene Lovejoy, de 62 anos, é
conhecido como um dos ambientalistas que mais defendem a Amazônia.
Recentemente, alguns cientistas brasileiros passaram a acusá-lo
de ter usado as pesquisas que realizou na região, na década
de 60, para fazer biopirataria. Lovejoy falou com o repórter
Diogo Schelp sobre essas acusações.
O SENHOR É
ACUSADO DE REMETER MATERIAL GENÉTICO DO BRASIL ILEGALMENTE
AO EXTERIOR. POR QUÊ?
Essa acusação sem fundamento é feita por pessoas
que não entendem de verdade o que é ciência.
Elas deveriam prestar mais atenção à destruição
da floresta, que é a verdadeira biopirataria, pois está
roubando das futuras gerações de brasileiros os benefícios
potenciais de toda a diversidade biológica da Floresta Amazônica.
Para poder dar um uso econômico a sua biodiversidade, o Brasil
precisa de um completo inventário da floresta. Por isso é
tão importante ter uma colaboração com cientistas
de todo o mundo. Os projetos de pesquisas que implantei no Brasil
formaram centenas de jovens cientistas brasileiros. Isso ajuda a
proteger a floresta.
O SENHOR CHEGOU A SER
ACUSADO DE SER ESPIÃO DA CIA. A POLÍTICA EXTERNA DO
GOVERNO AMERICANO LEVOU A XENOFOBIA TAMBÉM ÀS RODAS
CIENTÍFICAS?
Não se vê ninguém fazendo as mesmas acusações
contra cientistas brasileiros, o que mostra que pode haver, sim,
um componente de antiamericanismo ou de xenofobia nisso tudo. As
atitudes antiamericanas são reais, lamentáveis e compreensíveis.
E espero que os Estados Unidos possam em breve dar bons motivos
para que esse comportamento mude. Quanto ao que falam sobre mim,
o que posso dizer é que meu coração continua
batendo no compasso do samba. Estou limpo dessas acusações.
OS CIENTISTAS ESTRANGEIROS
ENFRENTAM MUITA BUROCRACIA PARA FAZER PESQUISA NO BRASIL?
É um problema sazonal. De tempos em tempos, torna-se realmente
muito burocrático. E em seguida fica mais fácil. Isso
ocorre principalmente quando há troca de governo. Os novos
funcionários demoram para entender todo o sistema e as regras
para a aprovação de projetos. Daí tudo se complica.
Eu e meus colegas passamos por alguns momentos difíceis.
NOS ÚLTIMOS
ANOS, O QUE MELHOROU NO BRASIL EM TERMOS AMBIENTAIS?
A fiscalização está melhor. Criaram-se novas
áreas de proteção na Amazônia. E os governadores
dos Estados amazônicos vêm adotando políticas
próprias de conservação do meio ambiente.
O SENHOR VÊ DIFERENÇA
ENTRE O QUE ESTÁ SENDO FEITO PELO GOVERNO LULA E O QUE FEZ
O GOVERNO FERNANDO HENRIQUE CARDOSO?
Parece-me que o atual governo perdeu um pouco do impulso que havia
sido dado no governo anterior para aumentar a proteção
ao meio ambiente.
O GREENPEACE ESTÁ
FAZENDO UMA CAMPANHA CONTRA OS TRANSGÊNICOS. ELES ESCOLHERAM
A CAUSA CERTA?
Os alimentos transgênicos são como qualquer outra tecnologia
nova, que pode ser usada de maneira positiva ou negativa. É
um erro ser contra essa tecnologia apenas por princípio,
sem conhecer melhor suas possibilidades. Os transgênicos prometem
um uso muito menor de produtos químicos na agricultura, o
que é bastante positivo.
OS AMBIENTALISTAS RADICAIS
ATRAPALHAM A ATUAÇÃO DOS MODERADOS?
Eu vejo isso como uma espécie de divisão de trabalho
dentro da comunidade ambientalista. O fato de alguns ecologistas
assumirem posições muito radicais até torna
as coisas mais fáceis para os outros. As propostas dos moderados
passam a ser vistas como razoáveis e factíveis.
COMO O SENHOR DEFINE
SUA RELAÇÃO COM O BRASIL?
Estive no Brasil pela primeira vez em 1965. Morei em Belém
do Pará entre 1967 e 1969. Desde aquela época vou
sempre que posso. Eu me sinto quase um brasileiro. Tenho duas filhas
que nasceram no Brasil. Então é como se fosse meu
segundo país.
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