|
André
Petry
Impunidade sexual
"Em Cuiabá, há
uma boate em que
adolescentes são exploradas sexualmente.
Tem matinê. Na Paraíba, um fiscal da
Receita
fazia sexo com crianças em troca de bolacha
recheada e iogurte"
Caro leitor: você conhece algum acusado
de explorar sexualmente crianças ou adolescentes que esteja
preso? Ou em via de ser condenado? Pois deveria. Lendo as quase
700 páginas do relatório final da CPI da Exploração
Sexual, que acaba de ser aprovado no Congresso Nacional, fica-se
com uma certeza desoladora: o abuso sexual de crianças e
adolescentes está entre os crimes mais disseminados no país.
Mas é natural que o leitor não conheça nenhum
caso de punição. O relatório da CPI é
um chocante passeio pela impunidade. Há casos em que a cidade
inteira sabe que certa autoridade explora crianças sexualmente
e não existe nem denúncia formal contra o criminoso.
Há casos em que os envolvidos são justamente as autoridades
cuja missão é proteger as crianças e os adolescentes
juízes, policiais, prefeitos, vereadores, religiosos.
Alguns exemplos:
• Um juiz de direito explorou sexualmente
cinco meninas de 15 a 17 anos no Amazonas. Nem foi a julgamento.
• O titular de uma Vara de Infância
e Juventude na Paraíba abusava de uma adolescente nas dependências
do órgão. Teve de se aposentar, mas não respondeu
a processo.
• Um juiz violentou uma menina de 11 anos
e, encerrado o ato, espancou-a. Corre um processo judicial, mas
o juiz segue exercendo suas funções normalmente.
• Numa cidade mineira, orgias sexuais com
menores eram freqüentadas pelo prefeito e pelo presidente da
Câmara de Vereadores. Nenhum dos dois foi sequer indiciado.
• Um prefeito explorou sexualmente sete meninas
em Goiás. A mais velha tinha 14 anos. Nada lhe aconteceu.
Na última sessão da CPI, os
deputados e senadores resolveram por oito votos a sete
excluir do relatório final o nome do vice-governador do Amazonas,
Omar Aziz. Seria a mais alta autoridade a aparecer no documento.
Na versão preliminar, Aziz era denunciado como cliente de
uma rede de prostituição de adolescentes em Manaus.
Aziz comemorou a decisão. Devia ter lamentado. Num terreno
em que a impunidade é tão escandalosa, Aziz devia
lamentar ter perdido uma oportunidade de ouro para comprovar sua
inocência e limpar seu nome definitivamente.
Em pouco mais de um ano de trabalho, a CPI
recebeu 543 denúncias devidamente qualificadas. O relatório
final lista todas as acusações, mas ocupa-se em detalhar
78 casos, pedindo providências para investigar o envolvimento
de mais de 300 suspeitos. Apenas um caso, ocorrido no interior de
São Paulo, foi apurado com eficiência e os culpados,
devidamente castigados. Restam sem punição casos horrorosos
e escrachados. Em Cuiabá, há uma boate em que adolescentes
são exploradas sexualmente. Tem sessão de matinê.
Na Paraíba, um fiscal da Receita fazia sexo com crianças
em troca de bolacha recheada e iogurte. Numa cidade do Pará,
uma rede aliciava meninas de até 8 anos de idade! No Rio
de Janeiro, há meninas prostituindo-se em troca de 1,99 real.
Ninguém deu muita bola para o relatório
da CPI e suas denúncias. Pelo visto, o leitor vai continuar
sem conhecer um caso de criminoso sexual atrás das grades.
|