Edição 1 654 -21/6/2000

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A informática na sala de aula

"Os computadores chegaram às escolas mas
ainda não trouxeram quase nada à educação"

Ilustração Ale Setti


Cedo se viu que os computadores poderiam vir a ter um extraordinário papel na educação. Substituiriam as máquinas de ensinar, em moda naquele momento. Muito se tentou nessa direção mas poucos foram os resultados. Passadas várias décadas, os computadores enguiçam menos, aprenderam mais gracinhas, ficaram mais fáceis de usar e custam dramaticamente menos. A crônica falta de software educativo já é coisa do passado, hoje eles são disponíveis aos milhares, entre lamentáveis, medíocres e brilhantes, caros, baratos e de graça.

Com o passar do tempo, os usos vão sendo refinados e novas utilidades são encontradas para essa máquina fascinante que sempre foi uma resposta à procura de problemas. Nos níveis mais simples, treinam os alunos em fazer contas e ensinam ortografia, atividades repetitivas e detestáveis para os professores, exigindo deles uma paciência que sobra nos computadores. Os processadores de texto acabaram dominando o uso dos computadores pessoais. E como aprender a escrever é uma das funções mais nobres da escola, seu papel é aí demonstravelmente positivo.

As simulações e os jogos são talvez o uso em que os computadores melhor mostram suas forças. Com poucos minutos, uma simulação do sistema solar permite entender as estações do ano melhor do que preleções e livros. Uma equação do 2º grau desenhada e redesenhada na tela com parâmetros diferentes faz mágicas na cabeça do aluno. As planilhas eletrônicas revolucionaram o pensamento quantitativo. As bases de dados ensinam os raciocínios booleanos, que apesar do nome pretensioso são um assunto do cotidiano. Os discípulos de S. Pappert (matemático do Instituto de Tecnologia de Massachusetts cujo trabalho resultou na linguagem educacional Logo) juram pelos lucros intelectuais de aprender a programar e receitam as tartarugas do Logo (softwares pedagógicos que ensinam aos alunos noções de programação) para todos os males. Nas novas versões do seu pensamento, receitam internet para abrir a cabeça dos alunos.

Há muitos usos e tanto mais pesquisas bem conduzidas e controladas mostrando como os computadores podem melhor educar os alunos. Seria de esperar que o número crescente de computadores nas escolas, sobretudo nos países ricos, tivesse começado a mostrar as vantagens dessa revolução. Infelizmente, assim não se passa. Há um muro até hoje intransponível entre os benefícios demonstrados em experimentos controlados e o impacto nos sistemas de educação do mundo real – que permanecem pífios. Nesses últimos, entram em cena os problemas institucionais e a rejeição dos bons usos pelas máquinas administrativas e educativas. Há um lado puramente de preconceito, pavores e rejeição emocional. E há um lado prático não resolvido, pois os usos mais criativos requerem mudanças na lógica de funcionamento da escola (uma hora de aula é pouco, os melhores usos requerem um tempo de preparação que o sistema não remunera, os usos mais imaginativos são interdisciplinares, embora os currículos não o sejam). No fundo, como ao sair da escola todos usarão computador, o que está acontecendo é que muitas escolas dão os rudimentos de como usá-lo. É alguma coisa, mas é pouco.

É assim que os computadores chegam às escolas, em massa nos países ricos, mas já chegam também a praias tupiniquins. Eram execrados e sofriam resistência, acabando guardados ou enguiçados. Hoje são objeto de desejo por parte das escolas. Mas tendem a permanecer à margem do processo educativo. Algumas escolas e alguns professores fazem bom uso deles. Mas o desafio de com eles fazer melhorar globalmente o nível de aprendizado permanece em aberto.

Diante do grande potencial que oferecem e da possibilidade de que, ao despencar os seus custos, se tornem acessíveis a quase todos, não há por que desistir. Mas estamos longe da hora de cantar vitória. Os computadores chegaram às escolas mas ainda não trouxeram quase nada à educação. A batalha está longe de ser vencida.

Claudio de Moura Castro é economista
(Claudiomc@attglobal.net)