Edição 1 654 -21/6/2000

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Aviação

Ajuda do céu

Canhedo recorre a bispos evangélicos
para tentar tirar a Vasp do buraco

 
Monica Zarattini/Ag. Estado

Canhedo: boatos, desmentidos e um
enigma na negociação

À espera de um milagre capaz de tirar a Vasp do atoleiro de dívidas em que se meteu, Wagner Canhedo resolveu apelar para a fé. Ele está em negociações com bispos evangélicos – mais precisamente com uma certa Confader, sigla da Convenção Nacional das Assembléias de Deus no Brasil e Exterior. As partes envolvidas apresentam versões diferentes para o acordo que está sendo amarrado, o que não chega a ser uma novidade em episódios em que figura Canhedo.

Na tarde da última sexta-feira, quando cresciam os rumores de que o controle da Vasp seria adquirido pela Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo, a Confader anunciou a compra do controle acionário da empresa aérea. Em nota oficial, Canhedo afirmou que a Vasp não estava à venda. Por intermédio de assessores, chamou os bispos de "picaretas" e assegurou que as conversas com eles tinham como único objetivo a definição de descontos nas passagens para os fiéis. Admitiu, porém, que a entidade religiosa poderia assumir uma participação na Vasp que não superaria 1% do total de ações.

A reação de Canhedo obrigou os bispos a expedir uma outra nota para informar que o desfecho do negócio se daria "nos próximos dias". Os concorrentes da Vasp acompanham o vaivém com muita atenção. Sabe-se que os evangélicos estariam dispostos a pagar até 400 milhões de reais para assumir o comando da companhia: 100 milhões agora e o restante em setembro, quando Canhedo se afastaria da presidência. De imediato, seus filhos César e Rodolfo deixariam a diretoria da empresa. Antes de consumar a compra, os bispos encarregariam uma consultoria para fazer a radiografia da Vasp.

Para Canhedo, sob qualquer perspectiva, seria um negócio divino. Adquirida em 1990 por 42 milhões de dólares, a Vasp atravessa seu pior momento e acumula dívidas que já somam 3,2 bilhões de reais, a maior parte deles com o governo (veja quadro abaixo). Tornou-se rotina seus aviões serem arrestados pela Justiça para garantir a quitação de débitos com os credores privados. A companhia viu-se forçada a abrir mão de praticamente todas as rotas para o exterior, mantendo apenas um vôo de honra para Buenos Aires.

 
Eduardo Albarello

Faria mais sentido se a Vasp estivesse mesmo na mira da igreja do bispo Edir Macedo, que conta com uma poderosa agência de turismo evangélico e mantém acordos de operação com a empresa. A Universal é a maior igreja evangélica do país, com 10 milhões de seguidores e um faturamento anual estimado em 2 bilhões de reais. Já a Confader é uma das três entidades em que se dividem as Assembléias de Deus. Ela existe há dez anos e, segundo o cálculo dos próprios dirigentes, reúne metade dos fiéis da Universal. Seu líder máximo, o bispo mineiro Estevão Martins de Souza Coutinho, é um ilustre desconhecido.

As negociações entre Canhedo e os evangélicos são um completo enigma para quem entende desse mercado. Que sentido faz uma igreja comprar a Vasp? Teoricamente, os bispos poderiam alegar que teriam 5 milhões de passageiros potenciais entre seus fiéis. Por essa lógica, no entanto, a Igreja Católica seria dona da maior companhia aérea do mundo, uma vez que tem 1 bilhão de fiéis ao redor do planeta. Além disso, a Vasp não é bem uma empresa aérea: é uma constelação de dívidas abrigadas sobre uma sigla. Em Brasília, o assunto costuma provocar arrepios nas autoridades. O governo acha que não basta tirar Canhedo da direção da companhia. É preciso escolher a dedo seu futuro controlador. "Empresa aérea é uma das melhores formas de lavar dinheiro no mundo", diz uma autoridade do alto escalão em Brasília. "Você pode emitir o bilhete pela tarifa plena e entregá-lo de graça ao passageiro. O valor da transação entra em seu caixa limpinho."

 
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