Aviação
Ajuda do céu
Canhedo recorre a bispos evangélicos
para tentar tirar a Vasp do buraco
Monica Zarattini/Ag. Estado
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Canhedo: boatos, desmentidos e
um
enigma na negociação
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À espera de um milagre capaz de tirar a Vasp do
atoleiro de dívidas em que se meteu, Wagner Canhedo
resolveu apelar para a fé. Ele está em negociações
com bispos evangélicos mais precisamente com uma
certa Confader, sigla da Convenção Nacional
das Assembléias de Deus no Brasil e Exterior. As
partes envolvidas apresentam versões diferentes para
o acordo que está sendo amarrado, o que não
chega a ser uma novidade em episódios em que figura
Canhedo.
Na tarde da última sexta-feira, quando cresciam
os rumores de que o controle da Vasp seria adquirido pela
Igreja Universal do Reino de Deus, do bispo Edir Macedo,
a Confader anunciou a compra do controle acionário
da empresa aérea. Em nota oficial, Canhedo afirmou
que a Vasp não estava à venda. Por intermédio
de assessores, chamou os bispos de "picaretas" e assegurou
que as conversas com eles tinham como único objetivo
a definição de descontos nas passagens para
os fiéis. Admitiu, porém, que a entidade religiosa
poderia assumir uma participação na Vasp que
não superaria 1% do total de ações.
A reação de Canhedo obrigou os bispos a
expedir uma outra nota para informar que o desfecho do negócio
se daria "nos próximos dias". Os concorrentes da
Vasp acompanham o vaivém com muita atenção.
Sabe-se que os evangélicos estariam dispostos a pagar
até 400 milhões de reais para assumir o comando
da companhia: 100 milhões agora e o restante em setembro,
quando Canhedo se afastaria da presidência. De imediato,
seus filhos César e Rodolfo deixariam a diretoria
da empresa. Antes de consumar a compra, os bispos encarregariam
uma consultoria para fazer a radiografia da Vasp.
Para Canhedo, sob qualquer perspectiva, seria um negócio
divino. Adquirida em 1990 por 42 milhões de dólares,
a Vasp atravessa seu pior momento e acumula dívidas
que já somam 3,2 bilhões de reais, a maior
parte deles com o governo (veja quadro abaixo).
Tornou-se rotina seus aviões serem arrestados pela
Justiça para garantir a quitação de
débitos com os credores privados. A companhia viu-se
forçada a abrir mão de praticamente todas
as rotas para o exterior, mantendo apenas um vôo de
honra para Buenos Aires.
Eduardo Albarello
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Faria mais sentido se a Vasp estivesse mesmo na mira da
igreja do bispo Edir Macedo, que conta com uma poderosa
agência de turismo evangélico e mantém
acordos de operação com a empresa. A Universal
é a maior igreja evangélica do país,
com 10 milhões de seguidores e um faturamento anual
estimado em 2 bilhões de reais. Já a Confader
é uma das três entidades em que se dividem
as Assembléias de Deus. Ela existe há dez
anos e, segundo o cálculo dos próprios dirigentes,
reúne metade dos fiéis da Universal. Seu líder
máximo, o bispo mineiro Estevão Martins de
Souza Coutinho, é um ilustre desconhecido.
As negociações entre Canhedo e os evangélicos
são um completo enigma para quem entende desse mercado.
Que sentido faz uma igreja comprar a Vasp? Teoricamente,
os bispos poderiam alegar que teriam 5 milhões de
passageiros potenciais entre seus fiéis. Por essa
lógica, no entanto, a Igreja Católica seria
dona da maior companhia aérea do mundo, uma vez que
tem 1 bilhão de fiéis ao redor do planeta.
Além disso, a Vasp não é bem uma empresa
aérea: é uma constelação de
dívidas abrigadas sobre uma sigla. Em Brasília,
o assunto costuma provocar arrepios nas autoridades. O governo
acha que não basta tirar Canhedo da direção
da companhia. É preciso escolher a dedo seu futuro
controlador. "Empresa aérea é uma das melhores
formas de lavar dinheiro no mundo", diz uma autoridade do
alto escalão em Brasília. "Você pode
emitir o bilhete pela tarifa plena e entregá-lo de
graça ao passageiro. O valor da transação
entra em seu caixa limpinho."
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