Edição 1 654 -21/6/2000

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A idéia ainda não morreu

Governo volta a discutir reforma no sistema de
impostos que, se aprovada, facilitará a vida
dos brasileiros e reduzirá preços

Eliana Giannella Simonetti

A reforma tributária, que andava moribunda nas gavetas do Congresso, voltou à vida. Na última quarta-feira, empresários e ministros debruçaram-se sobre o tema no Palácio da Alvorada. O presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, negocia para que o projeto de emenda constitucional possa ser votado, e aprovado, até agosto. Embora todo o mundo concorde que o Brasil precisa simplificar seu sistema de impostos, parece impossível produzir um texto de reforma que reflita essa aspiração. Num sem-número de encontros e conversas informais, políticos e técnicos do governo vêm tentando se acertar para que, reduzindo as siglas dos impostos e o número de leis vigentes nesta área, Brasília entregue ao país uma máquina de coleta de tributos mais justa e menos sufocante. Com o sistema como está, muito do que o brasileiro consome acaba custando mais caro do que deveria. A reforma tributária é útil não apenas para reduzir os impostos pagos pela população, mas para reduzir o preço que se paga pelos produtos à venda no país. Ela pode fazer uma diferença significativa, para melhor, na vida das pessoas.

As ilustrações 1 e 2 trazem alguns exemplos de quanto, no preço que o consumidor paga pelo que compra na loja ou no supermercado, corresponde a impostos. A tabela foi produzida por VEJA com ajuda da consultoria KPMG, que desenvolveu um programa de computador especialmente para radiografar o sistema tributário brasileiro. É uma coisa de louco. São 55 impostos e taxas que se enroscam, se sobrepõem e se entrecruzam de maneiras diferentes, conforme o produto e a região de fabricação e de venda. Desfeito o nó, o que se descobre é que a carga tributária paga pelos brasileiros não é um porcentual estático, de 31% de toda a riqueza produzida no país, como economistas e governo admitem. Considerando produtos mais e menos tributados, mais e menos consumidos, na média, a mordida do governo na renda dos brasileiros é de 40%. Esta é a conclusão dos tributaristas da KPMG.

"No Brasil, o sistema tributário é caro e complexo. As empresas precisam dispor de sábios para entender a legislação e isso tem um custo que acaba encarecendo o produto", diz Inocêncio Prado, o consultor da KPMG que lida com o programa. O imposto corresponde a 47% do preço da gasolina, 36% do preço da carne e 29% do preço do arroz e do feijão. A descrição dos caminhos percorridos para chegar a esses números demonstra o labirinto tributário brasileiro. Ela está no parágrafo seguinte. São explicações técnicas muito relevantes para entender a questão. Vale a pena enfrentar o desafio de um passeio por este labirinto.

A partir da informação sobre o valor desembolsado pelo comprador, o programa instalado no computador da KPMG decompõe os impostos, com a alíquota de cada um. Aí, com base nos balanços publicados pelas empresas de cada setor, os técnicos tiram uma média do custo de produção, separando o que é referente a materiais e o que diz respeito à mão-de-obra (já que os dois itens carregam cargas fiscais diferentes), e calculam as taxas, os impostos, as contribuições para cada um. Então, de acordo com o nível médio de endividamento das companhias, chega-se ao que se paga de IOF, o imposto sobre operações financeiras. Com base no fluxo de pagamentos, estima-se a incidência média do ICMS, o imposto sobre circulação de mercadorias e serviços (que varia de Estado para Estado). O lucro declarado pelas companhias em seus balanços serve para a projeção do que é pago a título de imposto de renda na produção. E finalmente o programa calcula todos os impostos que incidem sobre a produção da matéria-prima e qual o resíduo da tributação em cascata – aquela que é paga mais de uma vez na cadeia produtiva. O resultado é a pesada carga fiscal que os brasileiros suportam.

Nos Estados Unidos, quando compra um automóvel, o consumidor sabe que o fabricante pagou 33% de imposto de renda sobre o lucro e que ele mesmo está pagando, em média, 8% no caixa da concessionária. O lucro da indústria automobilística americana projetado para este ano é de 7,4%. Portanto, o imposto que recai sobre o carro nessa etapa é de 2,44%. E ponto. Não importa se se está comprando uma Mercedes último tipo ou um carrinho econômico. O mais importante é que o valor que se paga de imposto vem claramente discriminado na nota fiscal. No Brasil, se os impostos fossem especificados, a nota fiscal seria um livro.

Um exemplo: o ICMS, que é cobrado no comércio de bens e serviços, varia de Estado para Estado e entre grupos de produtos. A alíquota é de 25% sobre os serviços telefônicos, de 12% sobre os combustíveis e de 7% sobre os produtos da cesta básica. A cadeia de lanchonetes McDonald's paga ICMS de onze maneiras diferentes, dependendo da localização da loja. Só esse imposto tem mais de 1 000 artigos fora da legislação básica, e a todo momento surge uma novidade. Tem mais. Como PIS, Cofins, IOF e INSS são cumulativos, aumentam o preço do produto a cada etapa da cadeia produtiva. Não há nada claro na floresta de impostos do Brasil. Desentranhar as informações é uma façanha.

A fileira de problemas do sistema tributário brasileiro parece não ter fim. Como administra um país pobre, com pouca renda, o Estado não consegue financiar-se taxando apenas os rendimentos das pessoas, ou suas propriedades. Resolve o problema com impostos que incidem sobre o consumo e assim atingem toda a população. Isso provoca uma injustiça brutal. As pessoas que ganham pouco, e são isentas de imposto de renda, pagam um dos impostos sobre consumo mais altos do mundo. Nos Estados Unidos, um terço da arrecadação do governo vem da taxação da propriedade e da renda. São os ricos que sustentam o Estado. No Brasil, são os pobres que ficam com a carga.

Sem considerar a sonegação, que é facilitada pela falta de clareza na legislação tributária, a situação, trocada em miúdos, está no seguinte pé. O brasileiro paga mais impostos do que o americano, vive na ignorância, sem saber exatamente o que está repassando para o governo, goza de serviços públicos de má qualidade e ainda tem de arcar com os juros pagos sobre o déficit público, já que, embora arrecade muito, o governo gasta tão mal que sempre acaba o ano com rombo no caixa. A coisa é feia.

O país meteu-se nessa enrascada na década de 60, quando tomou dinheiro emprestado para investir em infra-estrutura que possibilitasse o crescimento da economia. Nada errado, em princípio. Outros países fizeram o mesmo e não estão tão embrulhados. Acontece que, no Brasil, o dinheiro foi mal administrado e a dívida cresceu como uma bola de neve. Conclusão: hoje as dívidas interna e externa, somadas, correspondem a um ano da produção brasileira, um PIB. "É como se uma dona-de-casa devesse, na mercearia e no cartão de crédito, o correspondente a um ano da renda de sua família. O salário mensal mal dá para cobrir os juros da dívida. Se fosse uma dona-de-casa, o Brasil estaria quebrado", diz Inocêncio Prado. Assim, é de entender que o governo esteja preocupado em arrecadar muito. Mas não há espaço para dúvidas a respeito da necessidade de uma reforma nos impostos brasileiros, além de um esforço paralelo de redução de gastos na máquina administrativa. Com isso, as contas de receita e despesa terão parcelas definidas e será mais fácil fazer com que o resultado final empate. Toda dona-de-casa endividada sabe que apertar o cinto é doloroso, mas inevitável.

No ano passado, segundo um estudo feito pelos economistas Andréa Lemgruber Viol e Jefferson José Rodrigues, técnicos da Coordenação de Estudos Tributários da Receita Federal, as três instâncias de governo recolheram 306 bilhões de reais em seus cofres. Desse total, a maior parte, 216 bilhões de reais, fica com a União. Os Estados engolem 78 bilhões de reais e os municípios, 12 bilhões de reais. Vista assim, a distribuição parece absurda. Afinal, é nas cidades que a necessidade dos cidadãos é atendida. O que acontece é que, por uma distorção criada na Constituição de 1988, o governo federal ficou com muitas atribuições, além de ter de arcar com os juros de dívidas acumuladas ao longo da História. Estados e municípios, por outro lado, tiveram direito a dar uma mordida maior na arrecadação, sem ter de prestar serviços em contrapartida. "A Constituição de 1988 criou para o governo federal obrigações de despesas que vão além de sua capacidade", diz o ex-ministro Mailson da Nóbrega. "Isso teve dois efeitos nocivos. O governo precisou aumentar sua arrecadação, especialmente em impostos não partilháveis com Estados e municípios, como as contribuições e o efeito cascata das taxações cumulativas, e o país como um todo tornou-se menos competitivo no mercado internacional."

A reforma tributária esteve encalhada por muito tempo e ainda não desatolou. O que se observa são apenas alguns movimentos dos que estão no olho desse campo de areia movediça – o que, segundo observadores mais atentos, pode fazer com que o projeto afunde de vez. Governadores resistem à reforma porque não admitem abrir mão da prerrogativa de estabelecer o ICMS no nível que quiserem. A Receita Federal, que sabe que nem o governo entende direito de onde vem o dinheiro que arrecada, teme que uma simples pincelada num texto faça despencar o faturamento do Tesouro. O governo preferiria não correr o risco de mexer nesse vespeiro. Da forma como está, se aprovada no Congresso, a reforma reduziria o número de impostos e taxas e acabaria com o efeito cascata do PIS e do Cofins, duas contribuições que seriam substituídas por uma fisgada no lucro das empresas. Nada de espetacular. Muitas distorções permaneceriam, mas seria um início de faxina. A limpeza, está visto, é mais do que necessária. Espera-se que os responsáveis tenham bom senso e não permitam que se enterre mais esta oportunidade de começar a construir uma democracia fiscal no Brasil.

 
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