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A gota d'água
Veja
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O dramático encontro de um bandido
tresloucado, um policial imprudente e uma jovem inocente
produz a mais chocante cena de violência já
vista no país e faz o governo acelerar plano nacional
de segurança
Marcelo Carneiro e Ronaldo França
Reprodução
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| O soldado Marcelo santos aproxima-se
do bandido que usa Geisa como escudo pouco antes de
atirar: ação errada, na hora errada, fez
o drama terminar com a morte da refém |
Perto de 35 milhões de brasileiros acompanharam ao
vivo na segunda-feira passada o drama dos dez passageiros
de ônibus feitos reféns por um criminoso no
Rio de Janeiro. As cenas foram levadas ao ar pelas principais
redes de televisão do país e pela CNN, que
distribui as imagens em todo o mundo. Após quatro
horas de agonia, o desfecho mostrou de forma definitiva
que ou o Brasil faz uma remodelação completa
na sua estrutura de combate ao crime ou a população
terá motivos para correr e não só
quando vê um ladrão. Mas também quando
chega a polícia. Numa ação irresponsável,
foi a PM fluminense, e não o seqüestrador, que
sentenciou à morte uma das reféns, a professora
Geisa Firmo Gonçalves, de 20 anos. Depois, numa atitude
covarde, os policiais se vingaram do pivô da tragédia,
Sandro do Nascimento, de 21 anos, conhecido pelo apelido
de "Mancha". Quando a viatura estava a caminho do hospital,
Sandro foi morto por asfixia pelos policiais. É de
se perguntar o que mais será preciso acontecer até
que se decida enfrentar de forma eficiente a chamada "questão
da segurança".
Em países onde a vida humana tem um valor maior,
dramas de menor gravidade desencadearam um processo de transformação.
Em 1991, um cinegrafista amador registrou a imagem de quatro
policiais de Los Angeles espancando um jovem negro, Rodney
King, que teve seu carro parado após uma perseguição.
King já se ajoelhara no chão, entregando-se
à prisão, quando foi agredido. As imagens
duram dois minutos e 53 pancadas, e ninguém morreu.
Ainda assim, foram os dois minutos mais longos da história
da polícia de Los Angeles. A crueza dos policiais
levou os Estados Unidos a uma comoção, que
se transformou em revolta após a absolvição
dos agressores. O saldo foi um amplo movimento pela redução
da violência policial e uma depuração
nos quadros da polícia. A faxina americana está
longe de terminar, mas alguma coisa foi feita. No Brasil,
até a semana passada, o exemplo mais próximo
ao de Rodney King havia ocorrido em São Paulo, há
três anos. Um grupo de policiais foi filmado na entrada
de uma favela cobrando pedágio e agredindo quem passasse
pelo local. Na cena mais chocante, levada ao ar posteriormente,
um deles disparou e matou um homem pelas costas. Os agressores
foram presos, mas nada mudou na conduta da polícia
paulista. Na região em torno da favela as coisas
até pioraram. Ali se tornou o lugar mais violento
do Estado de São Paulo. Será diferente dessa
vez? Terá a professora Geisa morrido em vão?
Em função da brutalidade das imagens, o
presidente Fernando Henrique Cardoso pronunciou-se sobre
o caso no mesmo dia. Ele anunciou sua repulsa, registrou
seu protesto contra a atuação da polícia
fluminense e apontou para o futuro, na direção
da única saída para que o cidadão escape
da barbárie que invade o país: um plano nacional
de segurança pública. O presidente deverá
anunciar o pacote de medidas que compõem o projeto
na terça-feira desta semana. O programa vinha se
arrastando havia meses, e foi retomado no mesmo dia do assalto
ao ônibus, numa reunião de emergência
convocada por FHC. O plano original engloba 124 medidas
e não deverá conter nenhuma de efeito imediato.
"Não existe milagre a ser feito nessa área",
comentou FHC com um amigo. O projeto prevê iniciativas
como a abertura de concurso para 2.000
vagas na Polícia Federal, criação de
um fundo nacional para reequipar as polícias estaduais,
suspensão por seis meses do registro de armas de
fogo, regulamentação do programa de proteção
a testemunhas e ampliação do controle das
fronteiras, dentre outras. O ministro José Gregori,
da Justiça, chegou a anunciar um aporte de 700 milhões
de reais para a área de segurança, mas a idéia
foi abandonada. Ninguém sabia de onde tirar o dinheiro.
O presidente promete convidar os governadores para estudar
uma ação conjunta.
A tragédia do Jardim Botânico produziu outros
efeitos. Imediatamente começou a se formar na internet
uma corrente pela paz e foram marcadas, para este final
de semana, manifestações pelo fim da violência.
No Congresso, o efeito mais visível do impacto das
cenas de banditismo ao vivo foi a aprovação,
na quarta-feira, pela Comissão de Constituição
e Justiça, do projeto de proibição
da venda de armas de fogo no país. "Esse incidente
com o ônibus no Rio conseguiu em 48 horas o que o
Senado não conseguiu em seis meses", afirma o senador
José Roberto Arruda, autor do projeto, empacado havia
meses.
Na lista dos problemas brasileiros, a falta de segurança
assumiu o primeiro lugar. Em vinte das cinqüenta maiores
cidades do Brasil, a criminalidade é apontada como
o principal problema. Em Brasília comenta-se que
ela tomou o posto que pertencia a um velho inimigo nacional.
"A violência urbana pode vir a ocupar o mesmo espaço
que a inflação teve no passado", avalia o
deputado tucano paulista Arnaldo Madeira, líder do
governo na Câmara dos Deputados. A diferença
é que o aumento de preço empobrece as pessoas,
mas não mata. De acordo com os especialistas, esse
será o assunto mais debatido nas eleições
municipais, estaduais e federal. Mata-se no Brasil a um
ritmo inacreditável: um assassinato a cada treze
minutos. Para se ter uma idéia da gravidade, durante
as quatro horas do seqüestro do ônibus no Rio,
dezenove outras pessoas foram mortas no país. As
grandes metrópoles brasileiras possuem índices
de criminalidade só inferiores aos de países
dominados pelo narcotráfico ou pela guerrilha.
AFP
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| Fernando Henrique em
viagem à Colômbia: governo anuncia nesta
semana plano nacional de segurança e promete
mais verbas para o combate ao crime |
Na semana passada, o presidente Fernando Henrique esteve
num desses países campeões, a Colômbia,
com dura lição a dar nessa área. Lá,
diversos esforços foram empregados para conter o
banditismo, mas eles não produziram o resultado esperado.
Na década de 90, imaginava-se que o nó da
criminalidade colombiana poderia ser desatado caso os chefões
do narcotráfico fossem presos. Com o apoio dos Estados
Unidos, todos os comandantes do narcotráfico, como
o legendário Pablo Escobar, acabaram mortos ou foram
colocados atrás das grades. Para a surpresa de todos,
o negócio do pó prosperou mesmo sem os cabeças
daquela época. Para cada chefão tirado de
circulação, dezenas de traficantes miúdos,
pequenos e médios assumiram o negócio. Os
seqüestros se multiplicaram. Nos últimos três
anos foram quase 10.000 casos,
justamente no período em que os EUA reforçaram
sua presença militar no país. Até cinco
anos atrás, o governo americano empregava algo em
torno de 25 milhões de dólares por ano no
combate ao tráfico. Discute-se elevar os gastos para
1,6 bilhão de dólares neste ano. O incrível
é que as exportações de coca colombiana
e a área destinada ao cultivo de folha de coca e
papoulas para produção de heroína expandiram-se.
Na semana passada, o chefe da polícia colombiana
pediu demissão sob a justificativa de que não
agüentava mais ver policiais tombarem na guerra do
tráfico.
Reprodução
 |
Daniel Garcia/AE
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| Em março de 1997, a
televisão exibiu um vídeo em que dez policiais militares
extorquiam e agrediam moradores da favela Naval, na
divisa entre São Paulo e Diadema. Um tiro disparado
por um dos policiais matou uma pessoa. A imagem também
comoveu o país, mas pouca coisa mudou. Diadema continua
uma das cidades com os maiores índices de criminalidade
do Brasil. Neste ano, a PM paulista bateu o recorde
de civis mortos em batidas policiais |
A agonia dos passageiros do ônibus carioca que faz
a linha 174 teve início às 14h20 de segunda-feira.
No bairro do Jardim Botânico, fez sinal o assaltante
Sandro do Nascimento. Com bermuda, camiseta e um revólver
calibre 38 à mostra, ele pulou a roleta e sentou-se
próximo a uma das janelas. Vinte minutos depois,
um dos passageiros conseguiu sinalizar para um carro da
polícia que passava pela rua. O ônibus, então,
foi interceptado por dois policiais. Nesse momento, o pânico
já se havia instalado. O motorista e o cobrador abandonaram
o veículo e alguns passageiros também conseguiram
escapar, pulando pelas janelas e pela porta traseira. Dez
passageiros, porém, foram tomados como reféns
pelo seqüestrador. O marginal agarrou uma senhora aposentada
de 63 anos e, mantendo-a à sua frente, disparou um
tiro contra os policiais e jornalistas. As negociações
só começaram com a chegada do Batalhão
de Operações Especiais (Bope), que apareceu
no local uma hora depois com dezoito homens dois
atiradores de elite e dezesseis soldados da tropa de assalto.
As câmaras e os refletores foram a senha para o
início do show de horrores protagonizado por Sandro
do Nascimento. Três horas após o início
da confusão, Sandro obrigou a estudante Janaína
a escrever numa janela do ônibus: "Ele tem pacto com
o diabo. Tem um punhal e o diabo desenhados no braço.
Ele vai matar". Dez minutos depois, em um dos momentos mais
dramáticos do seqüestro, o bandido mandou que
os outros passageiros deitassem Janaína no chão
do ônibus e a cobrissem com um lençol. O seqüestrador
avisou, então, que iria simular a morte da jovem,
para que os policiais atendessem às suas exigências:
armas, dinheiro e um veículo para a fuga. Ele disparou
uma vez, próximo ao tornozelo de Janaína,
e as reféns àquela altura todos os homens
já haviam sido libertados entraram em desespero.
Sandro colocou o revólver na boca da estudante Luanna
Belmont e da professora Geisa Firmo Gonçalves. Às
18h49, teve início a seqüência final da
tragédia. Puxando Geisa pelos cabelos e com o revólver
apontado contra sua cabeça, o bandido desceu do ônibus
e aproximou-se de três policiais. Ele avisou que era
a última chance de negociação e que
pretendia matar Geisa e depois se suicidar. Agachado perto
do ônibus, um dos soldados do Bope avançou
contra o bandido e tentou matá-lo com um tiro. Errou
o alvo.
Marcelo Tasso/AE
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| O PM Paulo Roberto Monteiro, com
o braço engessado, chega para depor: junto com
quatro colegas, alegou legítima defesa para matar
o bandido dentro do carro da polícia |
De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal,
Geisa foi alvejada quatro vezes. A primeira vez, pela arma
do soldado. O que deveria ter sido o tiro letal no marginal
feriu de raspão o queixo da moça. A reação
do bandido foi se abaixar, usando a jovem como escudo. Ao
mesmo tempo, disparava à queima-roupa atingindo seu
tronco e o meio das costas. A menina, moradora da favela
da Rocinha, saíra cedo de casa com uma amiga. Professora
de um projeto de educação de crianças
carentes na Rocinha, complementava a renda do marido, o
cavalariço Alexandre Magno de Oliveira, com a venda
de artesanato para uma loja de shopping. Geisa tinha planos
de firmar-se como artista plástica e mal iniciara
a carreira. Estava no 174 a caminho do banco, para descontar
um cheque de 130 reais.
O Batalhão de Operações Especiais
é a unidade de elite da polícia fluminense,
considerada a mais bem treinada do país. Dá
cursos a policiais de quinze Estados e até do exterior.
A operação teve erros flagrantes apontados
por cinco especialistas consultados por VEJA. A começar
pela escolha do negociador. Ao contrário do que recomendam
as regras, ele era o comandante da operação.
Essa conduta colocou em risco a própria negociação.
Se o bandido percebe que o mediador é quem tem o
poder de decisão final, qualquer negativa pode criar
animosidade e levar a um desfecho desfavorável. "O
bandido nunca deve achar que suas opções se
esgotaram", explica o pesquisador do Instituto Fernand Braudel,
José Vicente da Silva Filho, coronel reformado da
PM de São Paulo. Não havia também rádios
para comunicação entre os integrantes da equipe.
Nenhum erro, no entanto, foi maior que o do soldado Marcelo
Oliveira dos Santos, 27 anos, fazia quatro no Bope. Quando
ele decidiu agir, Sandro já estava fora do ônibus
e a situação era francamente favorável
a um desfecho seguro. O policial Santos estava agachado
há mais de três horas. Ao partir para a aproximação
ao bandido, ele teria cambaleado. Não portava a arma
mais adequada, segundo especialistas, porque sua submetralhadora
não teria impacto suficiente para paralisar o agressor
e encerrar seus movimentos. Santos é considerado
um soldado experiente e corajoso. Para integrar o batalhão,
ultrapassou outros 200 candidatos numa prova, cursou três
meses de academia e praticou cerca de 1.200
tiros. O policial é descrito por seu superior como
um destaque na corporação.
O bandido Sandro marchava para o ocaso de uma vida de
desgraças a bordo do ônibus da linha 174. Criado
com a idéia de que sua mãe fora assassinada,
viveu desde os 7 anos nas ruas do Rio. Escapou da morte
no episódio que ficou conhecido como chacina da Candelária,
em 1993, quando oito meninos de rua foram mortos a tiros
por policiais militares, que vingavam o roubo de um relógio.
Estava condenado a cinco anos e meio de prisão por
dois crimes. Um furto e um assalto a mão armada a
um táxi. Na prisão, de onde fugiu com outros
detentos, foi considerado inexpressivo. "Mancha", apelido
que ganhou na Candelária, nem sequer tinha documento
de identidade. Seu luto foi reivindicado pela faxineira
Elza da Silva, que diz ser sua mãe. No único
documento pessoal que produziu em sua vida, uma ficha na
delegacia de um subúrbio carioca, atribui a outra
mulher a sua maternidade. O encontro do bandido Sandro,
da professora Geisa e do soldado Marcelo durou alguns poucos
segundos. Foram cinco tiros, dois golpes de imobilização
e um enredo de tragédia. Espera-se que o episódo
seja um dia lembrado como o começo do fim de um tempo
de barbárie.
Com reportagem de
Silvia Rogar, Cristine Prestes,
Rodrigo Vergara e Raul Juste Lores, de Bogotá
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