Edição 1 654 -21/6/2000

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A gota d'água

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O dramático encontro de um bandido tresloucado, um policial imprudente e uma jovem inocente produz a mais chocante cena de violência já vista no país e faz o governo acelerar plano nacional de segurança

Marcelo Carneiro e Ronaldo França

 

Reprodução
O soldado Marcelo santos aproxima-se do bandido que usa Geisa como escudo pouco antes de atirar: ação errada, na hora errada, fez o drama terminar com a morte da refém


Perto de 35 milhões de brasileiros acompanharam ao vivo na segunda-feira passada o drama dos dez passageiros de ônibus feitos reféns por um criminoso no Rio de Janeiro. As cenas foram levadas ao ar pelas principais redes de televisão do país e pela CNN, que distribui as imagens em todo o mundo. Após quatro horas de agonia, o desfecho mostrou de forma definitiva que ou o Brasil faz uma remodelação completa na sua estrutura de combate ao crime ou a população terá motivos para correr – e não só quando vê um ladrão. Mas também quando chega a polícia. Numa ação irresponsável, foi a PM fluminense, e não o seqüestrador, que sentenciou à morte uma das reféns, a professora Geisa Firmo Gonçalves, de 20 anos. Depois, numa atitude covarde, os policiais se vingaram do pivô da tragédia, Sandro do Nascimento, de 21 anos, conhecido pelo apelido de "Mancha". Quando a viatura estava a caminho do hospital, Sandro foi morto por asfixia pelos policiais. É de se perguntar o que mais será preciso acontecer até que se decida enfrentar de forma eficiente a chamada "questão da segurança".

Em países onde a vida humana tem um valor maior, dramas de menor gravidade desencadearam um processo de transformação. Em 1991, um cinegrafista amador registrou a imagem de quatro policiais de Los Angeles espancando um jovem negro, Rodney King, que teve seu carro parado após uma perseguição. King já se ajoelhara no chão, entregando-se à prisão, quando foi agredido. As imagens duram dois minutos e 53 pancadas, e ninguém morreu. Ainda assim, foram os dois minutos mais longos da história da polícia de Los Angeles. A crueza dos policiais levou os Estados Unidos a uma comoção, que se transformou em revolta após a absolvição dos agressores. O saldo foi um amplo movimento pela redução da violência policial e uma depuração nos quadros da polícia. A faxina americana está longe de terminar, mas alguma coisa foi feita. No Brasil, até a semana passada, o exemplo mais próximo ao de Rodney King havia ocorrido em São Paulo, há três anos. Um grupo de policiais foi filmado na entrada de uma favela cobrando pedágio e agredindo quem passasse pelo local. Na cena mais chocante, levada ao ar posteriormente, um deles disparou e matou um homem pelas costas. Os agressores foram presos, mas nada mudou na conduta da polícia paulista. Na região em torno da favela as coisas até pioraram. Ali se tornou o lugar mais violento do Estado de São Paulo. Será diferente dessa vez? Terá a professora Geisa morrido em vão?

Em função da brutalidade das imagens, o presidente Fernando Henrique Cardoso pronunciou-se sobre o caso no mesmo dia. Ele anunciou sua repulsa, registrou seu protesto contra a atuação da polícia fluminense e apontou para o futuro, na direção da única saída para que o cidadão escape da barbárie que invade o país: um plano nacional de segurança pública. O presidente deverá anunciar o pacote de medidas que compõem o projeto na terça-feira desta semana. O programa vinha se arrastando havia meses, e foi retomado no mesmo dia do assalto ao ônibus, numa reunião de emergência convocada por FHC. O plano original engloba 124 medidas e não deverá conter nenhuma de efeito imediato. "Não existe milagre a ser feito nessa área", comentou FHC com um amigo. O projeto prevê iniciativas como a abertura de concurso para 2.000 vagas na Polícia Federal, criação de um fundo nacional para reequipar as polícias estaduais, suspensão por seis meses do registro de armas de fogo, regulamentação do programa de proteção a testemunhas e ampliação do controle das fronteiras, dentre outras. O ministro José Gregori, da Justiça, chegou a anunciar um aporte de 700 milhões de reais para a área de segurança, mas a idéia foi abandonada. Ninguém sabia de onde tirar o dinheiro. O presidente promete convidar os governadores para estudar uma ação conjunta.

A tragédia do Jardim Botânico produziu outros efeitos. Imediatamente começou a se formar na internet uma corrente pela paz e foram marcadas, para este final de semana, manifestações pelo fim da violência. No Congresso, o efeito mais visível do impacto das cenas de banditismo ao vivo foi a aprovação, na quarta-feira, pela Comissão de Constituição e Justiça, do projeto de proibição da venda de armas de fogo no país. "Esse incidente com o ônibus no Rio conseguiu em 48 horas o que o Senado não conseguiu em seis meses", afirma o senador José Roberto Arruda, autor do projeto, empacado havia meses.

Na lista dos problemas brasileiros, a falta de segurança assumiu o primeiro lugar. Em vinte das cinqüenta maiores cidades do Brasil, a criminalidade é apontada como o principal problema. Em Brasília comenta-se que ela tomou o posto que pertencia a um velho inimigo nacional. "A violência urbana pode vir a ocupar o mesmo espaço que a inflação teve no passado", avalia o deputado tucano paulista Arnaldo Madeira, líder do governo na Câmara dos Deputados. A diferença é que o aumento de preço empobrece as pessoas, mas não mata. De acordo com os especialistas, esse será o assunto mais debatido nas eleições municipais, estaduais e federal. Mata-se no Brasil a um ritmo inacreditável: um assassinato a cada treze minutos. Para se ter uma idéia da gravidade, durante as quatro horas do seqüestro do ônibus no Rio, dezenove outras pessoas foram mortas no país. As grandes metrópoles brasileiras possuem índices de criminalidade só inferiores aos de países dominados pelo narcotráfico ou pela guerrilha.

 

AFP
Fernando Henrique em viagem à Colômbia: governo anuncia nesta semana plano nacional de segurança e promete mais verbas para o combate ao crime


Na semana passada, o presidente Fernando Henrique esteve num desses países campeões, a Colômbia, com dura lição a dar nessa área. Lá, diversos esforços foram empregados para conter o banditismo, mas eles não produziram o resultado esperado. Na década de 90, imaginava-se que o nó da criminalidade colombiana poderia ser desatado caso os chefões do narcotráfico fossem presos. Com o apoio dos Estados Unidos, todos os comandantes do narcotráfico, como o legendário Pablo Escobar, acabaram mortos ou foram colocados atrás das grades. Para a surpresa de todos, o negócio do pó prosperou mesmo sem os cabeças daquela época. Para cada chefão tirado de circulação, dezenas de traficantes miúdos, pequenos e médios assumiram o negócio. Os seqüestros se multiplicaram. Nos últimos três anos foram quase 10.000 casos, justamente no período em que os EUA reforçaram sua presença militar no país. Até cinco anos atrás, o governo americano empregava algo em torno de 25 milhões de dólares por ano no combate ao tráfico. Discute-se elevar os gastos para 1,6 bilhão de dólares neste ano. O incrível é que as exportações de coca colombiana e a área destinada ao cultivo de folha de coca e papoulas para produção de heroína expandiram-se. Na semana passada, o chefe da polícia colombiana pediu demissão sob a justificativa de que não agüentava mais ver policiais tombarem na guerra do tráfico.

 
Reprodução
Daniel Garcia/AE
Em março de 1997, a televisão exibiu um vídeo em que dez policiais militares extorquiam e agrediam moradores da favela Naval, na divisa entre São Paulo e Diadema. Um tiro disparado por um dos policiais matou uma pessoa. A imagem também comoveu o país, mas pouca coisa mudou. Diadema continua uma das cidades com os maiores índices de criminalidade do Brasil. Neste ano, a PM paulista bateu o recorde de civis mortos em batidas policiais

A agonia dos passageiros do ônibus carioca que faz a linha 174 teve início às 14h20 de segunda-feira. No bairro do Jardim Botânico, fez sinal o assaltante Sandro do Nascimento. Com bermuda, camiseta e um revólver calibre 38 à mostra, ele pulou a roleta e sentou-se próximo a uma das janelas. Vinte minutos depois, um dos passageiros conseguiu sinalizar para um carro da polícia que passava pela rua. O ônibus, então, foi interceptado por dois policiais. Nesse momento, o pânico já se havia instalado. O motorista e o cobrador abandonaram o veículo e alguns passageiros também conseguiram escapar, pulando pelas janelas e pela porta traseira. Dez passageiros, porém, foram tomados como reféns pelo seqüestrador. O marginal agarrou uma senhora aposentada de 63 anos e, mantendo-a à sua frente, disparou um tiro contra os policiais e jornalistas. As negociações só começaram com a chegada do Batalhão de Operações Especiais (Bope), que apareceu no local uma hora depois com dezoito homens – dois atiradores de elite e dezesseis soldados da tropa de assalto.

As câmaras e os refletores foram a senha para o início do show de horrores protagonizado por Sandro do Nascimento. Três horas após o início da confusão, Sandro obrigou a estudante Janaína a escrever numa janela do ônibus: "Ele tem pacto com o diabo. Tem um punhal e o diabo desenhados no braço. Ele vai matar". Dez minutos depois, em um dos momentos mais dramáticos do seqüestro, o bandido mandou que os outros passageiros deitassem Janaína no chão do ônibus e a cobrissem com um lençol. O seqüestrador avisou, então, que iria simular a morte da jovem, para que os policiais atendessem às suas exigências: armas, dinheiro e um veículo para a fuga. Ele disparou uma vez, próximo ao tornozelo de Janaína, e as reféns – àquela altura todos os homens já haviam sido libertados – entraram em desespero. Sandro colocou o revólver na boca da estudante Luanna Belmont e da professora Geisa Firmo Gonçalves. Às 18h49, teve início a seqüência final da tragédia. Puxando Geisa pelos cabelos e com o revólver apontado contra sua cabeça, o bandido desceu do ônibus e aproximou-se de três policiais. Ele avisou que era a última chance de negociação e que pretendia matar Geisa e depois se suicidar. Agachado perto do ônibus, um dos soldados do Bope avançou contra o bandido e tentou matá-lo com um tiro. Errou o alvo.

 
Marcelo Tasso/AE
O PM Paulo Roberto Monteiro, com o braço engessado, chega para depor: junto com quatro colegas, alegou legítima defesa para matar o bandido dentro do carro da polícia

De acordo com o laudo do Instituto Médico Legal, Geisa foi alvejada quatro vezes. A primeira vez, pela arma do soldado. O que deveria ter sido o tiro letal no marginal feriu de raspão o queixo da moça. A reação do bandido foi se abaixar, usando a jovem como escudo. Ao mesmo tempo, disparava à queima-roupa atingindo seu tronco e o meio das costas. A menina, moradora da favela da Rocinha, saíra cedo de casa com uma amiga. Professora de um projeto de educação de crianças carentes na Rocinha, complementava a renda do marido, o cavalariço Alexandre Magno de Oliveira, com a venda de artesanato para uma loja de shopping. Geisa tinha planos de firmar-se como artista plástica e mal iniciara a carreira. Estava no 174 a caminho do banco, para descontar um cheque de 130 reais.

O Batalhão de Operações Especiais é a unidade de elite da polícia fluminense, considerada a mais bem treinada do país. Dá cursos a policiais de quinze Estados e até do exterior. A operação teve erros flagrantes apontados por cinco especialistas consultados por VEJA. A começar pela escolha do negociador. Ao contrário do que recomendam as regras, ele era o comandante da operação. Essa conduta colocou em risco a própria negociação. Se o bandido percebe que o mediador é quem tem o poder de decisão final, qualquer negativa pode criar animosidade e levar a um desfecho desfavorável. "O bandido nunca deve achar que suas opções se esgotaram", explica o pesquisador do Instituto Fernand Braudel, José Vicente da Silva Filho, coronel reformado da PM de São Paulo. Não havia também rádios para comunicação entre os integrantes da equipe.

Nenhum erro, no entanto, foi maior que o do soldado Marcelo Oliveira dos Santos, 27 anos, fazia quatro no Bope. Quando ele decidiu agir, Sandro já estava fora do ônibus e a situação era francamente favorável a um desfecho seguro. O policial Santos estava agachado há mais de três horas. Ao partir para a aproximação ao bandido, ele teria cambaleado. Não portava a arma mais adequada, segundo especialistas, porque sua submetralhadora não teria impacto suficiente para paralisar o agressor e encerrar seus movimentos. Santos é considerado um soldado experiente e corajoso. Para integrar o batalhão, ultrapassou outros 200 candidatos numa prova, cursou três meses de academia e praticou cerca de 1.200 tiros. O policial é descrito por seu superior como um destaque na corporação.

O bandido Sandro marchava para o ocaso de uma vida de desgraças a bordo do ônibus da linha 174. Criado com a idéia de que sua mãe fora assassinada, viveu desde os 7 anos nas ruas do Rio. Escapou da morte no episódio que ficou conhecido como chacina da Candelária, em 1993, quando oito meninos de rua foram mortos a tiros por policiais militares, que vingavam o roubo de um relógio. Estava condenado a cinco anos e meio de prisão por dois crimes. Um furto e um assalto a mão armada a um táxi. Na prisão, de onde fugiu com outros detentos, foi considerado inexpressivo. "Mancha", apelido que ganhou na Candelária, nem sequer tinha documento de identidade. Seu luto foi reivindicado pela faxineira Elza da Silva, que diz ser sua mãe. No único documento pessoal que produziu em sua vida, uma ficha na delegacia de um subúrbio carioca, atribui a outra mulher a sua maternidade. O encontro do bandido Sandro, da professora Geisa e do soldado Marcelo durou alguns poucos segundos. Foram cinco tiros, dois golpes de imobilização e um enredo de tragédia. Espera-se que o episódo seja um dia lembrado como o começo do fim de um tempo de barbárie.

Com reportagem de Silvia Rogar, Cristine Prestes,
Rodrigo Vergara e Raul Juste Lores, de Bogotá

 
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