O filhinho do papai
Pepe Casals
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Eu sempre achei que, se tivesse filhos, o ideal seria fazer
exatamente como o filósofo francês Jean-Jacques
Rousseau, que abandonou os seus num orfanato. Pais costumam
ser uma influência nefasta para as crianças.
Quanto mais distantes, melhor. Agora que estou esperando
um filho, porém, já não tenho mais
coragem de aplicar meus princípios pedagógicos.
Esmoreci. Virei um pai presente e apreensivo. Pareço
mais o tonto do Tony Blair do que Rousseau. Só penso
e só falo no meu filho. Uma idéia fixa. Passo
o dia com a mão na barriga da mãe, à
espera de seus socos e pontapés. Quando vi pela primeira
vez o filme Aprile, de Nanni Moretti, em que ele
narra o nascimento de seu filho, achei de uma pieguice insuportável.
Vi-o novamente na TV, no mês passado, e gostei muito.
O filho tornou-me uma pessoa pior, mais molenga, mais acrítica.
E ele ainda nem nasceu.
O maior motivo de preocupação em relação
ao meu filho é a escola. Recentemente, o ministro
da Educação da Itália divulgou uma
pesquisa em que se dizia que dois terços dos italianos
são analfabetos. Não aquele analfabetismo
absoluto, de quem não sabe assinar o próprio
nome, mas um analfabetismo funcional: sessenta e tantos
por cento dos italianos são incapazes de compreender
um texto simples. O número é assustador, considerando-se
que, na Itália, a escola é obrigatória
até os 16 anos e todo mundo a freqüenta. Nem
posso imaginar o resultado de uma pesquisa semelhante no
Brasil. Vejo os professores paulistas em greve por melhores
salários e logo desconfio que muitos deles sejam
analfabetos. Passei por um cartaz dos grevistas com um erro
de concordância verbal. No dia seguinte, no Show
do Milhão, apareceu uma professora que não
sabia o que era o Apocalipse. Ganhou apenas 3.000
reais do programa. É o que ela mereceria receber
anualmente. Aliás, se o governo passasse a calcular
o salário dos professores de acordo com o que cada
um deles ganhasse no Show do Milhão, provavelmente
haveria uma boa economia para as finanças públicas.
O melhor, portanto, seria educar meu filho em casa, enchendo-o
de livros, mas ele correria o risco de ficar meio isolado.
A não ser que eu conseguisse ganhar tanto dinheiro
nos próximos anos que ele simplesmente começasse
a comprar suas amizades. Não tenho nada contra amizades
compradas. São tão válidas quanto quaisquer
outras. Basta ter cacife para sustentá-las. É
nesse ponto que pretendo garantir o futuro de meu filho.
Eu nunca dei bola para dinheiro. Desde que minha mulher
engravidou, sonho em ficar rico. Quero encher meu filho
de grana, para que ele possa viver na maior vagabundagem
e gastar no que quiser. Se quiser perder tudo na roleta
do Cassino de Montecarlo, por exemplo, que perca. No dia
seguinte, cubro todas as suas dívidas. Se quiser
fornecer divertimentos para todo o seu círculo de
sanguessugas, que forneça. É ofensivo dizer
uma coisa dessas num país de crianças miseráveis,
mas meu filho me subjugou. Ele pode fazer o que bem entender.
O importante é que volte de vez em quando para casa,
para os braços do pai.