Produtividade: os dois Brasis
"O Brasil moderno, e tocado pela mágica
da
globalização, tem-se tornado cada vez mais
produtivo. Já o Brasil mais isolado do mundo
tem níveis medíocres de produtividade"
Ilustração Ale Setti
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Duas pesquisas recentes sobre a produtividade durante a
década de 90 permitem que o brasileiro saiba mais
sobre seu país. O economista Maurício Moreira,
do BNDES, examinou a produtividade na indústria nos
anos 90 e achou que, a despeito da variedade de técnicas
de medição, não há como escapar
de um resultado fulminante: a produtividade do trabalho
na indústria deve ter aumentado mais que uns 7% anuais
nesses anos. Isso quer dizer que uma hora de trabalho em
1999 deve produzir uns 60% a mais em mercadorias do que
em 1990. As implicações desse processo, do
ponto de vista salarial e para a competitividade de nossa
indústria, são extremamente positivas, inclusive
e principalmente porque não há inconsistência
entre maiores salários e mais competitividade quando
há ganhos de produtividade.
A segunda pesquisa, conduzida pelo professor Regis Bonelli,
difere da primeira por observar a economia brasileira como
um todo, e não apenas a indústria, e também
por tratar da produtividade considerando não só
a mão-de-obra, mas o conjunto dos fatores de produção
(capital, terra etc). Bonelli divide a economia em 42 setores
e observa, em primeiro lugar, que a taxa média global
de crescimento da produtividade foi de respeitáveis
2,53% anuais para o período 1991-1998, tendo a indústria
crescido cerca de 4% anuais. O fato de a produtividade medida
para todos os fatores, como faz Bonelli, ser menor que a
do trabalho indica que a produtividade do capital na indústria
está crescendo bem abaixo de 4%, ou seja, que provavelmente
em razão das baixas taxas de investimento durante
a maior parte dos anos 90 estão envelhecendo o capital
e as instalações industriais.
A pesquisa de Bonelli fornece indicações
preocupantes sobre as raízes da desigualdade no Brasil.
Ele observa que, para o ano de 1998, prevalecia uma enorme
variância nos níveis absolutos de produtividade
no país. A indústria do refino de petróleo,
por exemplo, produzia 447.000
reais por unidade de fator, ao passo que o setor menos produtivo
dos 42 examinados, os serviços privados não
mercantis, produzia 1 800 reais. A indústria automobilística
estava na faixa de 85.800, enquanto
a agropecuária estava com 5.200.
Os efeitos perversos dessa disparidade são acentuados
ainda mais pelo fato de que é exatamente nos setores
de baixo nível de produtividade que está concentrada
a maior parte do emprego. Os serviços não
mercantis, acima mencionados, são responsáveis
por 9,4% da ocupação, enquanto a agropecuária
responde por 23%. O comércio e os serviços
a famílias tinham níveis de produtividade
de, respectivamente, 7.000 e
6.600 reais, e sua participação
no emprego total era, respectivamente, de 14,7% e 15,3%.
Esses quatro setores de baixíssima produtividade,
juntos, eram responsáveis por cerca de 62% do emprego.
E, para piorar as coisas, foram medíocres as taxas
médias anuais de crescimento da produtividade no
período 1991-1998 para três desses setores:
serviços a famílias (-0,9%), serviços
não mercantis (-0,6%) e comércio (1,0%). A
agropecuária, possivelmente em razão dos efeitos
da abertura, registrou um número significativamente
acima da média: 4%.
Note-se que a taxa de crescimento da produtividade durante
1991-1998 em vários segmentos da indústria
foi brilhante automobilística (9,4%), siderurgia
(10,1%), mecânica (6%), equipamentos elétricos
(8,1%) e eletrônica (7,2%). Esses cinco setores juntos,
todavia, não chegam a representar 1,7% do emprego
total em 1998. O Brasil moderno, e tocado pela mágica
da globalização, tem-se tornado cada vez mais
produtivo, embora seus níveis absolutos de produtividade
ainda estejam na faixa de um terço a um quarto do
que se observa nos países desenvolvidos.
Já o Brasil mais isolado do mundo, especialmente
o do setor terciário, não apenas tem níveis
medíocres de produtividade como para vários
de seus subsetores a taxa de crescimento foi negativa nos
anos 90. Como o comércio exterior não alcança
o terciário, a modernização que tem
ocorrido em outros setores só chegará lá
por dois caminhos: o da privatização e o do
investimento estrangeiro direto.
Gustavo Franco é
economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.inf.br)