Edição 1 654 -21/6/2000

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Produtividade: os dois Brasis

"O Brasil moderno, e tocado pela mágica da
globalização, tem-se tornado cada vez mais
produtivo. Já o Brasil mais isolado do mundo
tem níveis medíocres de produtividade"

Ilustração Ale Setti


Duas pesquisas recentes sobre a produtividade durante a década de 90 permitem que o brasileiro saiba mais sobre seu país. O economista Maurício Moreira, do BNDES, examinou a produtividade na indústria nos anos 90 e achou que, a despeito da variedade de técnicas de medição, não há como escapar de um resultado fulminante: a produtividade do trabalho na indústria deve ter aumentado mais que uns 7% anuais nesses anos. Isso quer dizer que uma hora de trabalho em 1999 deve produzir uns 60% a mais em mercadorias do que em 1990. As implicações desse processo, do ponto de vista salarial e para a competitividade de nossa indústria, são extremamente positivas, inclusive e principalmente porque não há inconsistência entre maiores salários e mais competitividade quando há ganhos de produtividade.

A segunda pesquisa, conduzida pelo professor Regis Bonelli, difere da primeira por observar a economia brasileira como um todo, e não apenas a indústria, e também por tratar da produtividade considerando não só a mão-de-obra, mas o conjunto dos fatores de produção (capital, terra etc). Bonelli divide a economia em 42 setores e observa, em primeiro lugar, que a taxa média global de crescimento da produtividade foi de respeitáveis 2,53% anuais para o período 1991-1998, tendo a indústria crescido cerca de 4% anuais. O fato de a produtividade medida para todos os fatores, como faz Bonelli, ser menor que a do trabalho indica que a produtividade do capital na indústria está crescendo bem abaixo de 4%, ou seja, que provavelmente em razão das baixas taxas de investimento durante a maior parte dos anos 90 estão envelhecendo o capital e as instalações industriais.

A pesquisa de Bonelli fornece indicações preocupantes sobre as raízes da desigualdade no Brasil. Ele observa que, para o ano de 1998, prevalecia uma enorme variância nos níveis absolutos de produtividade no país. A indústria do refino de petróleo, por exemplo, produzia 447.000 reais por unidade de fator, ao passo que o setor menos produtivo dos 42 examinados, os serviços privados não mercantis, produzia 1 800 reais. A indústria automobilística estava na faixa de 85.800, enquanto a agropecuária estava com 5.200.

Os efeitos perversos dessa disparidade são acentuados ainda mais pelo fato de que é exatamente nos setores de baixo nível de produtividade que está concentrada a maior parte do emprego. Os serviços não mercantis, acima mencionados, são responsáveis por 9,4% da ocupação, enquanto a agropecuária responde por 23%. O comércio e os serviços a famílias tinham níveis de produtividade de, respectivamente, 7.000 e 6.600 reais, e sua participação no emprego total era, respectivamente, de 14,7% e 15,3%. Esses quatro setores de baixíssima produtividade, juntos, eram responsáveis por cerca de 62% do emprego.

E, para piorar as coisas, foram medíocres as taxas médias anuais de crescimento da produtividade no período 1991-1998 para três desses setores: serviços a famílias (-0,9%), serviços não mercantis (-0,6%) e comércio (1,0%). A agropecuária, possivelmente em razão dos efeitos da abertura, registrou um número significativamente acima da média: 4%.

Note-se que a taxa de crescimento da produtividade durante 1991-1998 em vários segmentos da indústria foi brilhante – automobilística (9,4%), siderurgia (10,1%), mecânica (6%), equipamentos elétricos (8,1%) e eletrônica (7,2%). Esses cinco setores juntos, todavia, não chegam a representar 1,7% do emprego total em 1998. O Brasil moderno, e tocado pela mágica da globalização, tem-se tornado cada vez mais produtivo, embora seus níveis absolutos de produtividade ainda estejam na faixa de um terço a um quarto do que se observa nos países desenvolvidos.

Já o Brasil mais isolado do mundo, especialmente o do setor terciário, não apenas tem níveis medíocres de produtividade como para vários de seus subsetores a taxa de crescimento foi negativa nos anos 90. Como o comércio exterior não alcança o terciário, a modernização que tem ocorrido em outros setores só chegará lá por dois caminhos: o da privatização e o do investimento estrangeiro direto.

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.inf.br)