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Edição 2061

21 de maio de 2008
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Cinema
Em busca do tempo perdido

De volta após dezenove anos, a série Indiana Jones
tem tudo a seu favor para ganhar a platéia – desde
que esta aceite a idéia de um herói sexagenário


Isabela Boscov, de Los Angeles

Divulgação
Harrison em cena de O Reino da Caveira de Cristal

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Vídeo: Comentários de
Isabela Boscov

Galeria de personagens

De acordo com Steven Spielberg, nada é mais importante na série Indiana Jones do que Harrison Ford – nem ele, Spielberg, nem o produtor George Lucas, nem os vários roteiristas de peso que já nela trabalharam, nem os outros atores, por mais talentosos que sejam. Ford, diz o cineasta, é a peça que mantém todas as outras no lugar e as faz funcionar. (Assim como Indiana foi o motor que impulsionou a carreira de superastro de Ford.) Por um triz, porém, a história não se escreveu de forma diferente. Em 1980, Lucas e Spielberg estavam de olho em outro nome popular do momento para estrelar Os Caçadores da Arca Perdida – Tom Selleck, que era um sucesso na série de televisão Magnum. Mas os produtores do programa fizeram manha e recusaram liberar Selleck pelo tempo da filmagem. A escolha recaiu então sobre Ford, que Lucas conhecia bem por ter-lhe dado um dos papéis mais populares de Star Wars, o do caubói Han Solo (personagem que seu intérprete, aliás, considera "meio burrinho"). Não se pode dizer que tenha sido puro acaso, portanto, que Ford e Indiana tenham encontrado um ao outro e entrado, juntos, para a cultura pop. Mas pode-se dizer, sim, que a sorte deu a ambos uma mãozinha. "As chances de um ator conseguir viver de sua profissão são infinitesimais. Que dirá então de fazer sucesso, e sucesso como o que Indiana Jones usufruiu desde o início. Portanto, afirmo e reafirmo que tive sorte", disse Ford a VEJA durante a campanha de lançamento do quarto filme da série, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, que estréia nesta quinta-feira (e estará guardado a sete chaves dos olhares da crítica até sua exibição em Cannes, neste domingo).

As pequenas – e felizes – coincidências pontuam toda a trajetória da franquia. Foi quase de uma brincadeira, por exemplo, que ela nasceu. Spielberg comentou com Lucas que adoraria fazer um filme de James Bond. Como essa sea-ra estava tomada, o amigo lhe sugeriu outro tipo de agente secreto – não um espião que derrota vilões nucleares, mas um arqueólogo que evita que objetos dotados de poderes mágicos caiam nas mãos de forças mal-intencionadas. Um pouco do caráter do protagonista também foi tomado de empréstimo de 007. Indiana é um herói que não tem qualidades heróicas muito óbvias: é um cínico, nem sempre age com lisura exemplar para com as mulheres, decora a sala da universidade em que dá aula com artefatos subtraídos dos locais de origem e acha que, desde que aplicados nos inimigos, golpes abaixo da linha da cintura são perfeitamente aceitáveis. O segredo da empatia intensa que o personagem forjou com a platéia, contudo, está em outro ingrediente, inventado pela dupla criadora e lapidado por Ford: a sua falibilidade física. Indiana apanha do começo ao fim de seus filmes, e ganha galos, esfoladuras e hematomas em número condizente com o das surras que toma. Claro que devolve o favor e, no processo, apanha mais ainda. A conexão do público com esse herói que bate, mas leva, foi imediata.

Divulgação
Karen Allen, que retoma o papel de Marion Ravenwood: a melhor personagem feminina da série

Essa característica da série sempre exigiu enorme disposição física por parte do ator. Spielberg é um cineasta que acredita no cinema feito à velha moda, com cenas de ação protagonizadas, no limite do possível, pelos próprios atores. Ford, entretanto, tem hoje 65 anos. Quando primeiro se aventou a hipótese de um quarto episódio para as aventuras do arqueólogo, já se discutia se, na sua idade, elas pareceriam plausíveis. Agora, passados catorze anos desde que essa notícia começou a circular, a questão atingiu um relevo crucial. Não é acaso, então, que há vários meses Ford esteja numa onda de exposição pública cujo objetivo nunca declarado, mas evidente, é provar que ele está em forma e preserva aquela faísca que o personagem exige. Ford foi com a mulher, Calista Flockhart, ao Oscar, obrigação que faz de tudo para dispensar, como apresentador e alvo constante das câmeras. (Numa nota que funcionou como prova de bom humor, virtude que não se costuma atribuir ao astro, ele teve de ir embora em uma viatura de polícia, já que o motorista de sua limusine sumiu.) Na mesma noite, apareceu no programa de Barbara Walters, onde discorreu sobre os vários aviões que pilota e sobre o menino que adotou com Calista – ambas coisas que sugerem vigor e vitalidade. Não muito antes, Ford fizera uma pequena aparição num vídeo ultra-irreverente do apresentador Jimmy Kimmel – intitulado I’m F***ing Ben Affleck –, com uma camiseta justinha, mandando beijinhos e piscadelas para Kimmel e Affleck e flertando, assim, com a simpatia da porção mais jovem do público.

Em respeito à inteligência da platéia, O Reino da Caveira de Cristal se passa em 1957 e leva em conta as quase duas décadas vividas por atores e personagens desde Indiana Jones e a Última Cruzada. Mas, pelo sim pelo não, não há entrevista de profissional ligado ao filme que não inclua menções à jovialidade do astro. Lucas desafia os interlocutores a distinguir o Ford de antes e o de agora nas fotos de cena; Shia LaBeouf (segundo boatos, no papel do filho de Indiana) jura que, apesar de seus 21 anos, não é páreo em agilidade para o veterano; Karen Allen, que volta à série no melhor personagem feminino que esta criou, o da durona com coração de manteiga Marion Ravenwood, diz que o colega é capaz de repetir a mesma cena de ação, tomada após tomada, sem dar mostra de cansaço. O próprio Ford anuncia, sem querer querendo, que o figurino é o mesmo dos três primeiros filmes, e não necessitou de ajustes. Tanto empenho se justifica pelo fato de que Spielberg tem, sim, razão: Harrison Ford é a peça central dessa engrenagem, e não há enredo ou seqüência mirabolante de ação que possa encobrir uma eventual falha sua. Em uma coisa, pelo menos, a idade certamente trabalhará a favor de Ford. Se quarentão ele já apanhava bem, como sexagenário presume-se que apanhe ainda melhor. E aí, afinal, é que está a graça de Indiana Jones.

SEM CHAPÉU, UM SUJEITO MUITO SÉRIO

A conservação ambiental é uma de suas paixões, mas o senhor se recusa a ser porta-voz do movimento. Por quê?
Pertenço ao conselho da Conservation International, que lida com a ciência e a estratégia da preservação ambiental. Mas não sou o garoto-propaganda de uma causa; sou um membro ativo de uma organização que usa políticas e faz gestões junto a governos, corporações e indivíduos para proteger a biodiversidade. Não preciso subir num palanque para fazer meu trabalho.

O Brasil é uma peça fundamental desse quebra-cabeça?
Nossos parceiros brasileiros são muito eficientes – e generosos –, e temos colhido vitórias no Pantanal. O problema é que o Brasil é um país imenso. O outro problema é que muitas das suas áreas de conservação pertencem a tribos indígenas, o que implica uma miríade de sutilezas políticas. Algumas dessas tribos têm manejado de forma sensata seus recursos; outras, não. E o governo mesmo não tem tido muito sucesso em deter o desmatamento. Quero frisar, aliás, que discutir o seu governo não é o nosso papel. Nosso papel é trabalhar com quem quer que os brasileiros elejam.

O cinema comercial americano, hoje, está se tornando cada vez mais sintético e impessoal. Por que isso acontece?
Veja o caso de Jason Reitman, autor de dois filmes brilhantes, Juno e Obrigado por Fumar, que divertem mas também engajam a platéia, sem recorrer a efeitos. Se existem diretores assim, então talvez o problema não esteja no cinema, mas na nossa cultura. Talvez faltem a ela hoje profundidade, sinceridade e vitalidade capazes de atrair os jovens. Talvez por isso eles se isolem nesse mundo de diversão manufaturada. O que nós precisamos é trazer essas pessoas de volta para o mundo do contato humano e envolvê-las com a ciência, a invenção, a economia, a cultura. Mas existe agora uma esperança real de que possamos reviver este país e dedicar a atenção necessária à educação dos jovens.

O senhor está se referindo à eleição presidencial de novembro?
Sim. Toda a esperança depende de uma mudança, de fazer com que a juventude sinta que há um lugar para ela na cultura e na sociedade, sem que se peça que sacrifique sua vida num campo de batalha estrangeiro ou num emprego sem perspectiva.

Quem deve ganhar a eleição, em sua opinião?
Barack Obama.

E isso o deixa feliz?
Me deixa mais feliz. Este país sempre funcionou melhor sob lideranças messiânicas – não no sentido religioso da palavra, mas no sentido da liderança apaixonada, com foco e energia, em torno da qual as diferenças se unem.



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