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21 de maio de 2008
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Brasil
No fio da navalha

Acusado de vazar o dossiê vai à CPI dividido
entre a lealdade ao PT e o risco de ser preso


Alexandre Oltramari

Fotos Cristiano Mariz, Lula Marques/Folha Imagem
A CPI espera que José Aparecido revele a identidade do autor da montagem do dossiê

O ex-secretário de Controle Interno da Casa Civil José Aparecido Nunes Pires vem sendo tratado como o vilão do caso do dossiê elaborado pela Casa Civil sobre as despesas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Ele foi indiciado pela Polícia Federal por crime de quebra de sigilo funcional, depois de identificado como o responsável pelo vazamento do documento que contém informações sigilosas. Ficou assim esclarecida a parte mais irrelevante da história. Dois meses depois do escândalo, ainda não se sabe, ao menos oficialmente, quem foi o autor intelectual da trama que tinha o objetivo de chantagear a oposição. Aparecido sabe e contou a pelo menos três pessoas que a ordem para fazer o levantamento dos gastos partiu da secretária executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, braço-direito da ministra Dilma Rousseff. Na próxima terça-feira, Aparecido terá a chance de confirmar essa versão em depoimento à CPI que investiga o caso. Os movimentos do ex-secretário ao longo da semana passada, porém, deram origem a várias especulações. A principal é a de que ele pode silenciar diante da pergunta sobre a identidade do autor do dossiê.

O depoimento de Aparecido à CPI deveria ter ocorrido na quinta-feira. Mas ele sumiu. Um indicador das reais intenções do ex-secretário é que, antes de ir ao Congresso, ele tentou, sem sucesso, conseguir no Supremo Tribunal Federal uma decisão preventiva que impossibilitasse a decretação de sua prisão, caso se negasse a responder às perguntas dos parlamentares. Ele também trocou de advogado. O atual, Luiz Maximiliano Telesca, é ex-sócio e amigo do advogado-geral da União, José Antonio Toffoli. Procurado para prestar esclarecimento à Polícia Federal, Aparecido só apareceu depois que a Justiça autorizou seu advogado a ter acesso ao inquérito. Conhecendo o que já foi apurado, ele pode depor sem se preocupar em enfrentar contradições gritantes. A impressão é que o secretário, orientado pelos advogados, vai se limitar a confirmar aquilo que não há mais condição de ser negado.

O Palácio do Planalto não tem poupado esforços para mostrar a José Aparecido que não há nenhuma animosidade contra ele. Muito pelo contrário. Identificado como vazador, o normal é que ele fosse imediatamente exonerado, o que não aconteceu. A versão oficial é que o próprio Aparecido pediu seu afastamento. A própria ministra Dilma Rousseff, numa declaração contraditória, foi ao Congresso dizer que não via crime algum no vazamento de informações, que nem seriam mais confidenciais. Tudo isso porque o governo teme o que Aparecido pode revelar à CPI. Além de conhecer a máquina de bisbilhotagem palaciana, o ex-secretário é guardião de informações que podem ser constrangedoras ao governo. Pouco antes do escândalo do dossiê, José Aparecido contou a amigos que exigiu que o presidente Lula devolvesse aos cofres públicos 800 reais usados indevidamente para comprar cigarrilhas. Por isso, não será uma surpresa se o ex-secretário se calar para preservar quem promete protegê-lo, mesmo diante do risco de uma humilhante prisão.



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