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Edição 2061

21 de maio de 2008
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Cartas

"É triste constatar que a saúde no Brasil tem tecnologia de última geração e recursos financeiros, mas mal administrados."
Sérgio da Costa Bueno
São Paulo, SP

O custo da saúde

Muito oportuna a reportagem "A inflação da saúde" (14 de maio). É necessário acrescentar que grande parte dos custos em saúde se deve ao fato de ser mais fácil vender e comprar ilusões do que assistência médica efetiva, eficiente e segura. Para tal, é necessário que as escolas médicas e os sistemas provedores de saúde (seguradoras, autogestões, secretarias, hospitais etc.) se utilizem dos princípios da medicina (saúde) baseada em evidências, como suporte às tomadas de decisão, com a finalidade de melhorar resultados da prática (efetividade), a menor custo, para resultados melhores ou equivalentes (eficiência) com a maior segurança possível. Ou seja, as novas tecnologias devem ser avaliadas cientificamente quanto aos critérios explicitados acima antes de ser compradas, para que pacientes e contribuintes não tenham de pagar por promessas fantasiosas que, freqüentemente, não se cumprem. E que podem colocar a saúde, a vida e os parcos recursos de todos em risco.
Álvaro N. Atallah
Professor titular de medicina de urgência e medicina baseada em evidências da Unifesp
Diretor científico da Associação Paulista de Medicina
São Paulo, SP

VEJA não poderia ter sido mais feliz ao abordar o tema dos custos médicos no momento atual. Se não houver uso criterioso das novas e caríssimas tecnologias de diagnóstico e tratamento, o estado e os planos de saúde não vão conseguir equilibrar suas contas. A solução para manter viável a medicina pública e privada, sem abrir mão da qualidade, está na otimização da relação custo-benefício dos processos assistenciais. Para isso é necessário que haja uma educação médica continuada e que a remuneração dos serviços prestados por médicos e hospitais passe a ser regida pela qualidade, e não pela quantidade.
Roberto Bassan
Professor titular de cardiologia e do Programa Padcor, da PUC-Rio
Rio de Janeiro, RJ

Sou médico formado há quase dez anos, trabalho com crianças especiais há quase oito e tenho observado com preocupação a deterioração na qualidade do atendimento pelo Sistema Único de Saúde. Em teoria, o SUS se apresenta como um sistema de saúde universal. Contudo, na minha especialidade, infelizmente, dependemos de exames considerados de "alto custo", como a tomografia e a ressonância do crânio. Mesmo atuando em uma cidade considerada "rica" em relação às demais de nosso país, enfrentamos a morosidade do SUS. Os pacientes passam por diversas etapas durante o longo calvário até um médico especialista. Primeiro, precisam de um encaminhamento, em geral emitido por um médico de uma Unidade Básica de Saúde. Depois, devem aguardar o agendamento da consulta, o que, dependendo da especialidade, pode demorar meses, muitas vezes mais de um ano. Após consultarem o especialista, tem início a longa espera pela realização dos exames solicitados. Geralmente mais alguns meses. Mesmo sabendo que os planos de saúde ainda deixam muito a desejar, simplesmente não há comparação com o SUS.
Paulo Liberalesso
Médico
Curitiba, PR

Antigamente, adoecer era proibido porque as doenças não tinham cura. Agora, é proibido porque os custos levam as famílias à falência pura e simples. Atingir um grau de evolução que não chega às pessoas comuns é um desapontamento para a medicina neste começo de século.
Mara Narciso
Endocrinologista
Montes Claros, MG

Para diminuir os custos da saúde no Brasil e no mundo, é necessário que as pessoas aprendam a gerenciar a sua saúde adotando comportamentos e hábitos saudáveis. Aliás, a própria pesquisa da Universidade de Stanford, publicada há alguns anos, mostrou que a possibilidade de viver além dos 65 anos depende muito pouco dos progressos de uma medicina cada vez sofisticada e de alta complexidade. Em 63% dos casos, o responsável pela superação da barreira dos 65 anos – e hoje chegar aos 100 anos – é o estilo de vida, ou seja, os bons hábitos adotados em toda a nossa existência. A genética contribui com cerca de 17% e o meio ambiente com os restantes 20%.
Mario Maranhão
Ex-presidente da Federação Mundial de Cardiologia e presidente do Instituto Qualivitae
Curitiba, PR

Tanto as seguradoras quanto o governo começam a cortar custos ao remunerar mal o profissional de saúde, obrigando os médicos a reduzir o tempo de consulta e acumular empregos, o que é crucial para a queda da qualidade da assistência médica citada pela própria reportagem.
Fernando Cesena
Cardiologista
São Paulo, SP

O ciclo vicioso da saúde privada é o seguinte: o plano paga mal o médico e este, por sua vez, faz um overbooking em sua agenda. Os pacientes enfrentam atrasos enormes e são atendidos rapidamente, o médico pede exames caros e desnecessários, a seguradora precisa arcar com esses custos, cada vez mais altos, e os repassa aos usuários. O início da solução poderia ser: o plano paga adequadamente o médico, este atende uma quantidade menor de pacientes, colhe um histórico detalhado e faz uma avaliação física minuciosa, solicitando exames somente se necessário. A seguradora, por sua vez, gasta menos e não repassa os dividendos aos usuários. Ganha o médico, ganha a seguradora e, principalmente, ganha o paciente.
Oscar Bacelar
Neurologista e Ph.D. pela Universidade de Basel, na Suíça
Rio de Janeiro, RJ

Gostaria de acrescentar outro fator que tem contribuído para aumentar os gastos com a saúde do nosso tão sofrido povo. Não podemos negar que nós, médicos, ao recorrer de forma metódica a exames caros e sofisticados, somos em parte responsáveis pelos reajustes dos planos de saúde. É evidente que, se não tivéssemos tanta pressa em nossas consultas e dedicássemos mais tempo à análise minuciosa da "história" do doente, valorizando seus sintomas, faríamos o diagnóstico da maioria dos casos sem o obsessivo hábito de recorrer a procedimentos complementares de alto custo.
Levi Bronzeado dos Santos
Ginecologista
Guarabira, PB

O desenvolvimento tecnológico tem feito com que sobrevivam pessoas com doenças e malformações que espontaneamente seriam eliminadas pela natureza. O estado não está aparelhado para atender essa legião de dependentes da tecnologia para continuar vivos. A sobrecarga nos serviços de fonoaudiologia, fisioterapia, hemodiálise cria filas intermináveis. Quanto menor o peso dos prematuros que salvamos, maior carga financeira entregamos à família e ao estado. Há necessidade de uma discussão ampla dos aspectos legais e éticos relativos aos procedimentos nas UTIs, prolongando a sobrevivência de pacientes terminais ou com mínima chance de qualidade de vida razoável. Os interesses, nessas terapias de alto custo, passam pelos setores financeiros das instituições e longe da ética.
Rui Tavares da Costa
Médico pediatra
Brasília, DF

Seria interessante divulgar que o SUS paga por uma consulta o valor de um sanduíche (dos ruins) e que algumas cirurgias rendem ao médico o valor de duas entradas de cinema.
Paulo Zorzetti
Goiânia, GO

Menos de 20% da população brasileira possui algum tipo de plano privado de saúde. O grande acerto do sistema público (SUS) é investir em prevenção, o que evita em grande parte gastos futuros com hospitalização e outros procedimentos de maior complexidade. A atual remuneração por produção aos hospitais e médicos que integram a rede de saúde privada contraria a lógica da prevenção. É um modelo no qual se ganha mais tratando a doença (quanto mais doença melhor) do que a evitando.
Everton Luiz Lacerda Dutra
Curitiba, PR

 

Radar

Com relação à nota publicada na seção Radar "Taunay e a Missão Francesa: nova polêmica" (14 de maio), gostaria de esclarecer que, propositadamente, não estabeleço data para a carta que Taunay enviou a dom João. Na página 15 do meu livro, o leitor encontra: "Hora de voltar a nosso pintor... Não há, pois, como saber se a carta é anterior à vinda do pintor ou se, ao contrário, foi entregue pessoalmente – e em mãos – já no Brasil, quando Taunay procurava garantir o próprio emprego". Na página 154, novamente: "Além do mais e como mencionamos anteriormente, uma vez que a carta não tem data nem o timbre do Instituto Francês, não se pode ter certeza do contexto em que foi escrita, ou mesmo se foi enviada antes da vinda do artista ao país; ou se, ao contrário, se refere a uma intimidade adquirida já no Rio de Janeiro. O importante é que tudo parece sinalizar para um projeto pessoal e que não incluía objetivos maiores, como, por exemplo, a criação de uma  Academia em terras tropicais". Em O Sol do Brasil encontram-se as duas possibilidades interpretativas a respeito da ocasião em que a carta foi escrita. Apresento, ainda, documentação primária e original encontrada, entre outros, nos arquivos da Torre do Tombo e da Academia de Belas Artes Francesa, que comprova que o governo de dom João não apoiou até o último minuto a iniciativa do grupo de artistas franceses. Nos capítulos 7, 8 e 9, o leitor poderá encontrar um histórico detalhado do debate sobre a existência ou não da assim chamada Missão Francesa, com as várias interpretações suscitadas. A melhor resposta é a leitura do livro.
Lilia Schwarcz
Por e-mail     

Sou a última filha viva de Affonso d’E.Taunay, estou com 93 anos e fiquei extremamente perturbada e infeliz com a leitura do livro O Sol do Brasil, que é muito injusto com meu pai. Lembro-me sempre de meu pai nos contando a epopéia da vinda de meu trisavô Nicolau Antonio Taunay para o Brasil. Estou certa de que a opinião da historiadora Lilia Schwarcz sobre o assunto não é o que realmente se passou.
Clarisse Taunay Taques Horta
Rio de Janeiro, RJ

 

Roberto Pompeu de Toledo

O ensaio "Desceu quadrado" (14 de maio) revela que existem pessoas que não se deixam levar pela maré dourada do lobby das cervejarias. A análise do conteúdo dos anúncios da Abap foi perfeita. Faz tempo que vejo a enxurrada de sangue nos jornais de segunda-feira provocada pelas brigas fúteis de bêbados ou pelos acidentes de trânsito. Basta ver as mesas de bar da periferia, em que dezenas de garrafas vazias revelam quanto de "moderação" foi aplicado no consumo da "boa". A pergunta é: se a propaganda não é feita para incentivar o consumo, então por que é tão importante? Perguntem aos filhos e às viúvas e viúvos de pessoas que perderam a vida em acidentes que envolvem o álcool o que eles acham da venda e propagação indiscriminada da cerveja.
Luiz Otavio Salameh Braga
Belém, PA

Sou o mediador da comunidade Propaganda Sustentável (www.propagandasustentavel.com.br) e lá, em 11 de abril, eu já havia me manifestado contra a campanha da Abap. Os comentários de meu post (e certamente os milhares que Pompeu receberá) mostram como determinados interesses privados procuram se sobrepor ao interesse público em nome de causas que vão muito além do que o interesse das agências de propaganda no Brasil buscam alcançar.
Jacques Meir
São Paulo, SP

 

Tom Ford

Tom Ford, apesar de ter sido importante para o enorme sucesso da Gucci, na década de 90, parece não viver neste planeta atualmente. Em sua entrevista, fez questão de ser arrogante, exibicionista e pretensioso. Infelizmente, não faço parte do "topo do topo" a que ele se refere, mas sim de uma geração consciente da importância da moda na vida cotidiana. Assim como ele, adoro moda e concordo no que diz respeito à confiança e ao estilo que o consumidor deve ter, mas a forma com que apresenta sua inacessível grife nos faz acreditar que, para ter um paletó bem cortado com caimento perfeito, é preciso ser bilionário. Até quando essa pequena parcela da população estará disposta a gastar muito mais do que vale uma roupa, por melhor que ela seja, somente para alimentar o ego de pessoas como Tom Ford (Amarelas, 14 de maio)?
Stefanie Malotti e Silva
São Paulo, SP

 

Caso Dorothy Stang

A absolvição do fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura em segundo julgamento põe à mostra a arcaica e falida legislação brasileira, que engessa a Justiça sob um tribunal do júri leigo, que muitas vezes é levado pela retórica de um bom advogado a condenar o inocente e a absolver o culpado.
Antonio Fidelis
Londrina, PR

O réu é inocente até que seja provada sua culpa. Não é esse um princípio básico do nosso direito penal? Seria melhor, portanto, mudar o título do artigo para "Sensação de justiça", pois, pelos fatos apresentados, sou levado a concluir que a condenação anterior foi injusta.
Mário Ivan Araújo Bezerra
João Pessoa, PB

 

Caso Isabella

Parabéns ao promotor Francisco Cembranelli pela seriedade, tranqüilidade e transparência com que tem realizado o trabalho no caso Isabella. Depois de um tempo em que eu e uma parcela da população brasileira estávamos desacreditados da Justiça, o trabalho firme do promotor trouxe esperança de que as pessoas da classe média no Brasil não fiquem impunes ao cometer atos ilícitos ("Agora, eles são réus", 14 de maio). 
Glauciene Gonçalves
Brasília, DF

 

Ciclone em Mianmar

Fiquei horrorizado quando li a reportagem "Destruídos e abandonados" (14 de maio). A ditadura birmanesa, após o país ter sofrido um terrível ciclone, recusa-se a receber ajuda internacional. A que ponto pode chegar uma ditadura? A ONU poderia convocar uma assembléia para resolver o problema.
Daniel Jabra
São Paulo, SP


CORREÇÃO: o nome correto do juiz do caso Martin Luther King, citado na reportagem "Defesa da liberdade" (7 de maio), é William Joseph Brennan Jr.

 

 

Mais Estátuas

El Cristo de la Concordia: maior que o Redentor carioca

No quadro "Uma idéia de jerico?" (Cartas, 7 de maio), a leitora Perola Soares Zambrana, de São Paulo, mostrou-se simpática ao ator Paulo César Pereio, que quer demolir a estátua do Cristo Redentor, no Rio. "O pior é que os cristos redentores estão se multiplicando pelas cidades", dizia Perola. "Sobre qualquer montinho de terra colocam um; alguns deles são terrivelmente feios, mas mostrados como pontos turísticos do lugar." Ela sabia o que estava dizendo, conforme relatam alguns leitores. Manuel Ferreira, de Cruzeiro, no Distrito Federal, escreveu à redação para dizer que, "se se considerarem apenas as medidas das estátuas, sem o pedestal (que no Redentor do Rio é de 8 metros), a segunda maior das Américas é a de São Francisco, em Canindé, Ceará, que mede 30,25 metros".

Com pedestal ou sem pedestal, ela será menor do que a peça apresentada pelos leitores Mauro A.M. Gonçalves Junior, de Itabuna, Bahia, e Marcus Madeira, de Varginha, Minas Gerais, que informam a existência de uma estátua do Cristo Redentor no município de Elói Mendes, em Minas: "Ela terá 39 metros de altura e será a segunda maior das Américas", garante Gonçalves Junior. Enganam-se. Três leitores – Talia M. Soria, Nilson Thomé e Jaime Burgos Claros Paz – escreveram para dizer que em Cochabamba, Bolívia, a estátua de El Cristo de la Concordia tem 40 metros de altura, 2 a mais que o Redentor do Rio com pedestal e tudo. "Justiça se faça aos irmãos bolivianos", pede Nilson. Há ainda uma Nossa Senhora das Graças, em Irati, Paraná, lembrada pela carioca Maria Luiza Costa. Com seus 22 metros, seria "a maior imagem feminina de santa do mundo!". Veja ao lado um quadro com as medidas das imagens religiosas citadas na reportagem e pelos leitores.

 

 



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