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Cartas
O custo da saúde Muito oportuna a reportagem
"A inflação da saúde" (14 de
maio). É necessário acrescentar que grande parte
dos custos em saúde se deve ao fato de ser mais fácil
vender e comprar ilusões do que assistência médica
efetiva, eficiente e segura. Para tal, é necessário
que as escolas médicas e os sistemas provedores de saúde
(seguradoras, autogestões, secretarias, hospitais etc.)
se utilizem dos princípios da medicina (saúde)
baseada em evidências, como suporte às tomadas
de decisão, com a finalidade de melhorar resultados da
prática (efetividade), a menor custo, para resultados
melhores ou equivalentes (eficiência) com a maior segurança
possível. Ou seja, as novas tecnologias devem ser avaliadas
cientificamente quanto aos critérios explicitados acima
antes de ser compradas, para que pacientes e contribuintes não
tenham de pagar por promessas fantasiosas que, freqüentemente,
não se cumprem. E que podem colocar a saúde, a
vida e os parcos recursos de todos em risco. VEJA não poderia
ter sido mais feliz ao abordar o tema dos custos médicos
no momento atual. Se não houver uso criterioso das novas
e caríssimas tecnologias de diagnóstico e tratamento,
o estado e os planos de saúde não vão conseguir
equilibrar suas contas. A solução para manter
viável a medicina pública e privada, sem abrir
mão da qualidade, está na otimização
da relação custo-benefício dos processos
assistenciais. Para isso é necessário que haja
uma educação médica continuada e que a
remuneração dos serviços prestados por
médicos e hospitais passe a ser regida pela qualidade,
e não pela quantidade. Sou médico
formado há quase dez anos, trabalho com crianças
especiais há quase oito e tenho observado com preocupação
a deterioração na qualidade do atendimento pelo
Sistema Único de Saúde. Em teoria, o SUS se apresenta
como um sistema de saúde universal. Contudo, na minha
especialidade, infelizmente, dependemos de exames considerados
de "alto custo", como a tomografia e a ressonância
do crânio. Mesmo atuando em uma cidade considerada "rica"
em relação às demais de nosso país,
enfrentamos a morosidade do SUS. Os pacientes passam por diversas
etapas durante o longo calvário até um médico
especialista. Primeiro, precisam de um encaminhamento, em geral
emitido por um médico de uma Unidade Básica de
Saúde. Depois, devem aguardar o agendamento da consulta,
o que, dependendo da especialidade, pode demorar meses, muitas
vezes mais de um ano. Após consultarem o especialista,
tem início a longa espera pela realização
dos exames solicitados. Geralmente mais alguns meses. Mesmo
sabendo que os planos de saúde ainda deixam muito a desejar,
simplesmente não há comparação com
o SUS. Antigamente, adoecer
era proibido porque as doenças não tinham cura.
Agora, é proibido porque os custos levam as famílias
à falência pura e simples. Atingir um grau de evolução
que não chega às pessoas comuns é um desapontamento
para a medicina neste começo de século. Para diminuir os custos
da saúde no Brasil e no mundo, é necessário
que as pessoas aprendam a gerenciar a sua saúde adotando
comportamentos e hábitos saudáveis. Aliás,
a própria pesquisa da Universidade de Stanford, publicada
há alguns anos, mostrou que a possibilidade de viver
além dos 65 anos depende muito pouco dos progressos de
uma medicina cada vez sofisticada e de alta complexidade. Em
63% dos casos, o responsável pela superação
da barreira dos 65 anos e hoje chegar aos 100 anos
é o estilo de vida, ou seja, os bons hábitos adotados
em toda a nossa existência. A genética contribui
com cerca de 17% e o meio ambiente com os restantes 20%. Tanto as seguradoras
quanto o governo começam a cortar custos ao remunerar
mal o profissional de saúde, obrigando os médicos
a reduzir o tempo de consulta e acumular empregos, o que é
crucial para a queda da qualidade da assistência médica
citada pela própria reportagem. O ciclo vicioso da
saúde privada é o seguinte: o plano paga mal o
médico e este, por sua vez, faz um overbooking em sua
agenda. Os pacientes enfrentam atrasos enormes e são
atendidos rapidamente, o médico pede exames caros e desnecessários,
a seguradora precisa arcar com esses custos, cada vez mais altos,
e os repassa aos usuários. O início da solução
poderia ser: o plano paga adequadamente o médico, este
atende uma quantidade menor de pacientes, colhe um histórico
detalhado e faz uma avaliação física minuciosa,
solicitando exames somente se necessário. A seguradora,
por sua vez, gasta menos e não repassa os dividendos
aos usuários. Ganha o médico, ganha a seguradora
e, principalmente, ganha o paciente. Gostaria de acrescentar
outro fator que tem contribuído para aumentar os gastos
com a saúde do nosso tão sofrido povo. Não
podemos negar que nós, médicos, ao recorrer de
forma metódica a exames caros e sofisticados, somos em
parte responsáveis pelos reajustes dos planos de saúde.
É evidente que, se não tivéssemos tanta
pressa em nossas consultas e dedicássemos mais tempo
à análise minuciosa da "história"
do doente, valorizando seus sintomas, faríamos o diagnóstico
da maioria dos casos sem o obsessivo hábito de recorrer
a procedimentos complementares de alto custo. O desenvolvimento
tecnológico tem feito com que sobrevivam pessoas com
doenças e malformações que espontaneamente
seriam eliminadas pela natureza. O estado não está
aparelhado para atender essa legião de dependentes da
tecnologia para continuar vivos. A sobrecarga nos serviços
de fonoaudiologia, fisioterapia, hemodiálise cria filas
intermináveis. Quanto menor o peso dos prematuros que
salvamos, maior carga financeira entregamos à família
e ao estado. Há necessidade de uma discussão ampla
dos aspectos legais e éticos relativos aos procedimentos
nas UTIs, prolongando a sobrevivência de pacientes terminais
ou com mínima chance de qualidade de vida razoável.
Os interesses, nessas terapias de alto custo, passam pelos setores
financeiros das instituições e longe da ética. Seria interessante
divulgar que o SUS paga por uma consulta o valor de um sanduíche
(dos ruins) e que algumas cirurgias rendem ao médico
o valor de duas entradas de cinema. Menos de 20% da população
brasileira possui algum tipo de plano privado de saúde.
O grande acerto do sistema público (SUS) é investir
em prevenção, o que evita em grande parte gastos
futuros com hospitalização e outros procedimentos
de maior complexidade. A atual remuneração por
produção aos hospitais e médicos que integram
a rede de saúde privada contraria a lógica da
prevenção. É um modelo no qual se ganha
mais tratando a doença (quanto mais doença melhor)
do que a evitando.
Radar Com relação
à nota publicada na seção Radar "Taunay
e a Missão Francesa: nova polêmica" (14 de
maio), gostaria de esclarecer que, propositadamente, não
estabeleço data para a carta que Taunay enviou a dom
João. Na página 15 do meu livro, o leitor encontra:
"Hora de voltar a nosso pintor... Não há,
pois, como saber se a carta é anterior à vinda
do pintor ou se, ao contrário, foi entregue pessoalmente
e em mãos já no Brasil, quando Taunay
procurava garantir o próprio emprego". Na página
154, novamente: "Além do mais e como mencionamos
anteriormente, uma vez que a carta não tem data nem o
timbre do Instituto Francês, não se pode ter certeza
do contexto em que foi escrita, ou mesmo se foi enviada antes
da vinda do artista ao país; ou se, ao contrário,
se refere a uma intimidade adquirida já no Rio de Janeiro.
O importante é que tudo parece sinalizar para um projeto
pessoal e que não incluía objetivos maiores, como,
por exemplo, a criação de uma Academia em
terras tropicais". Em O Sol do Brasil encontram-se
as duas possibilidades interpretativas a respeito da ocasião
em que a carta foi escrita. Apresento, ainda, documentação
primária e original encontrada, entre outros, nos arquivos
da Torre do Tombo e da Academia de Belas Artes Francesa, que
comprova que o governo de dom João não apoiou
até o último minuto a iniciativa do grupo de artistas
franceses. Nos capítulos 7, 8 e 9, o leitor poderá
encontrar um histórico detalhado do debate sobre a existência
ou não da assim chamada Missão Francesa, com as
várias interpretações suscitadas. A melhor
resposta é a leitura do livro. Sou a última
filha viva de Affonso dE.Taunay, estou com 93 anos e fiquei
extremamente perturbada e infeliz com a leitura do livro O
Sol do Brasil, que é muito injusto com meu pai. Lembro-me
sempre de meu pai nos contando a epopéia da vinda de
meu trisavô Nicolau Antonio Taunay para o Brasil. Estou
certa de que a opinião da historiadora Lilia Schwarcz
sobre o assunto não é o que realmente se passou.
Roberto Pompeu de Toledo O ensaio "Desceu
quadrado" (14 de maio) revela que existem pessoas que não
se deixam levar pela maré dourada do lobby das cervejarias.
A análise do conteúdo dos anúncios da Abap
foi perfeita. Faz tempo que vejo a enxurrada de sangue nos jornais
de segunda-feira provocada pelas brigas fúteis de bêbados
ou pelos acidentes de trânsito. Basta ver as mesas de
bar da periferia, em que dezenas de garrafas vazias revelam
quanto de "moderação" foi aplicado no
consumo da "boa". A pergunta é: se a propaganda
não é feita para incentivar o consumo, então
por que é tão importante? Perguntem aos filhos
e às viúvas e viúvos de pessoas que perderam
a vida em acidentes que envolvem o álcool o que eles
acham da venda e propagação indiscriminada da
cerveja. Sou o mediador da
comunidade Propaganda Sustentável (www.propagandasustentavel.com.br)
e lá, em 11 de abril, eu já havia me manifestado
contra a campanha da Abap. Os comentários de meu post
(e certamente os milhares que Pompeu receberá) mostram
como determinados interesses privados procuram se sobrepor ao
interesse público em nome de causas que vão muito
além do que o interesse das agências de propaganda
no Brasil buscam alcançar.
Tom Ford Tom Ford, apesar de
ter sido importante para o enorme sucesso da Gucci, na década
de 90, parece não viver neste planeta atualmente. Em
sua entrevista, fez questão de ser arrogante, exibicionista
e pretensioso. Infelizmente, não faço parte do
"topo do topo" a que ele se refere, mas sim de uma
geração consciente da importância da moda
na vida cotidiana. Assim como ele, adoro moda e concordo no
que diz respeito à confiança e ao estilo que o
consumidor deve ter, mas a forma com que apresenta sua inacessível
grife nos faz acreditar que, para ter um paletó bem cortado
com caimento perfeito, é preciso ser bilionário.
Até quando essa pequena parcela da população
estará disposta a gastar muito mais do que vale uma roupa,
por melhor que ela seja, somente para alimentar o ego de pessoas
como Tom Ford (Amarelas, 14 de maio)?
Caso Dorothy Stang A absolvição
do fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura em segundo julgamento
põe à mostra a arcaica e falida legislação
brasileira, que engessa a Justiça sob um tribunal do
júri leigo, que muitas vezes é levado pela retórica
de um bom advogado a condenar o inocente e a absolver o culpado.
O réu é
inocente até que seja provada sua culpa. Não é
esse um princípio básico do nosso direito penal?
Seria melhor, portanto, mudar o título do artigo para
"Sensação de justiça", pois,
pelos fatos apresentados, sou levado a concluir que a condenação
anterior foi injusta.
Caso Isabella Parabéns ao
promotor Francisco Cembranelli pela seriedade, tranqüilidade
e transparência com que tem realizado o trabalho no caso
Isabella. Depois de um tempo em que eu e uma parcela da população
brasileira estávamos desacreditados da Justiça,
o trabalho firme do promotor trouxe esperança de
que as pessoas da classe média no Brasil não fiquem
impunes ao cometer atos ilícitos ("Agora, eles são
réus", 14 de maio).
Ciclone em Mianmar Fiquei horrorizado
quando li a reportagem "Destruídos e abandonados"
(14 de maio). A ditadura birmanesa, após o país
ter sofrido um terrível ciclone, recusa-se a receber
ajuda internacional. A que ponto pode chegar uma ditadura? A
ONU poderia convocar uma assembléia para resolver o problema.
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