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Auto-retrato Matti
Vanhanen
Petras Malukas/AFP  |
O primeiro-ministro da
Finlândia, Matti Vanhanen, de 52 anos, governa um dos países de maior
carga tributária do planeta: 43% do PIB, 6 pontos porcentuais acima da
marca brasileira. A diferença é que o estado finlandês é
eficiente e o país é o menos corrupto do mundo, segundo a Transparência
Internacional. Em São Paulo na semana passada, ele falou ao repórter
Thomaz Favaro.
A Finlândia
é o país menos corrupto do mundo. Como o Brasil pode chegar lá?
Não conheço outra maneira de combater a corrupção
além da transparência das contas do setor público. A
corrupção é um problema institucional ou cultural?
Ambos. Os países com um longo histórico de corrupção
tendem a enxergá-la como algo intrínseco à sociedade, e,
por essa razão, sem solução. Essa cultura permite que a corrupção
continue indefinidamente. Nossa boa posição no ranking da corrupção
deve-se muito a uma tradição antiga de honestidade. O
senhor já conheceu políticos corruptos em sua carreira?
Sim. Nosso país não está livre da corrupção.
Temos uma legislação que obriga os candidatos a declarar as fontes
de financiamento de sua campanha eleitoral, mas não há limite para
a quantidade de dinheiro que uma empresa pode doar. Isso precisa ser mudado. O
combate à corrupção nunca termina. A
pesada carga tributária da Finlândia atrapalha a economia do país?
Tudo depende de como o dinheiro público é usado. Com o dinheiro
dos impostos, oferecemos um sistema de seguridade social de qualidade aos nossos
cidadãos: educação, saúde e investimentos em pesquisa
e desenvolvimento. Em nosso país, os impostos são vistos como investimentos
na sociedade. Nossa educação, considerada a melhor do mundo, é
gratuita da pré-escola ao doutorado e serve de base para o desenvolvimento
individual e de habilidades no mercado de trabalho. Assim conseguimos aproveitar
ao máximo todos os talentos existentes na pequena população
que temos [5,2 milhões de habitantes]. Também fazemos um esforço
constante para melhorar a eficiência do estado e para isso utilizamos as
mesmas táticas das empresas privadas. O governo federal tem 120 000 servidores
públicos. Nossa meta é cortar para 50.000 até 2050. Os
altos impostos levam os empregos a migrar para países emergentes?
Sim, e por isso nós cortamos impostos das empresas no meu primeiro mandato.
Em setores que exigem mão-de-obra intensiva, no entanto, simplesmente não
podemos competir com países onde o salário equivale a 5% do nosso.
Por isso, a Finlândia concentra-se em áreas nas quais pode estar
entre os melhores do mundo, como a tecnologia da informação. Essa
tem sido nossa estratégia no mundo globalizado. Alguns
governos latino-americanos apresentam os recursos naturais como a única
saída para a pobreza. O senhor concorda? Um século atrás,
a Finlândia era um dos países mais pobres da Europa. Cerca de 90%
da população vivia da agricultura de baixa produtividade. Com a
exploração da natureza, pode-se obter apenas uma melhora limitada
no desenvolvimento econômico de um país. Se a Finlândia continuasse
dependendo apenas dos recursos naturais, como a extração de madeira,
teríamos um padrão de vida muito inferior. É preciso investir
nos recursos humanos para conseguir algo mais. Com aplicações em
pesquisa e desenvolvimento nas universidades, também se podem obter mais
produtividade e melhor qualidade na exploração de recursos naturais.
O etanol brasileiro é um bom exemplo disso.
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