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Ambiente A
neutralização da culpa Plantar
árvores para compensar a emissão de poluentes não alivia
o o efeito estufa, mas é parte da solução  Julia
Duailibi
Eric
Lee/Paramount Classics/AP
 | Divulgação
 | | Al
Gore: viagem neutra ao Brasil. Em Resende, no Rio (à dir.), mudas
prontas para neutralizar |
De
tempos em tempos, práticas criadas para reduzir a degradação
do meio ambiente ganham notoriedade especial. Com o passar dos anos, algumas conquistam
mais solidez e a atenção quase exclusiva das pessoas. Dois exemplos
recentes são a febre de consumo de alimentos orgânicos e a "neutralização",
uma invenção de economistas, especialistas em barganhas. A barganha
do "comércio verde" é baseada na idéia de que quem polui
a atmosfera pode e deve fazer alguma coisa para compensar, ou neutralizar, a agressão.
Em geral, isso se resume a plantar uma árvore. Entre todos os poluentes
da atmosfera, o principal alvo da neutralização é o dióxido
de carbono (CO2), gás responsável por impedir a dissipação
para o espaço das ondas de calor resultantes da reflexão da luz
do sol sobre a superfície do planeta. O metabolismo de plantas na etapa
de crescimento consome grande volume de CO2. A árvore, então, mantém
o carbono aprisionado em sua estrutura por décadas ou até
morrer ou ser cortada e transformada em carvão.
Quem não se dispõe a plantar sua própria árvore neutralizadora
pode recorrer a especialistas. Entidades ambientalistas e ONGs podem plantar árvores
a pedido da pessoa disposta a tornar sua presença menos onerosa para a
saúde ambiental do planeta. Pagam-se pelo serviço entre 10 e 30
reais por muda. O plantio não precisa ocorrer, obviamente, na região
onde o dióxido de carbono foi emitido. Existe ainda algum debate acadêmico
sobre a real influência humana na aceleração do efeito estufa
fenômeno que, em níveis normais, garante a existência
de vida na Terra. Mas, do ponto de vista da percepção popular, essa
questão está selada. A vida civilizada oferece risco ao planeta.
Ponto. Quem puder fazer alguma coisa para ajudar estará sendo um terráqueo
responsável.
Carol
do Vale
 | | Com
sete árvores, o administrador de empresas Ronney da Cunha vai neutralizar o MBA
que cursou em 2006. Gostou da idéia. Ele e sua mulher, Denise, planejam neutralizar
o nascimento de Gabriel, o segundo filho do casal |
A neutralização foi inventada por uma entidade inglesa em 1997.
Em dez anos, essa prática passou a ser levada a sério pelas grandes
empresas mundiais, como a companhia aérea British Airways, e por celebridades
como o ator Leonardo DiCaprio e os Rolling Stones. Al Gore, ex-vice-presidente
dos Estados Unidos, veio ao Brasil no ano passado para lançar Uma Verdade
Inconveniente, seu brado de alerta sobre a responsabilidade humana na aceleração
ruinosa do aquecimento global. Gore fez questão de neutralizar sua viagem
(o gás emitido pela turbina do jato que o trouxe, principalmente) com o
plantio de 53 árvores em São Carlos, no interior paulista. A impressão
e distribuição da edição brasileira do livro de Gore
também foi neutralizada, com o plantio de 136 árvores. Gore deixou
sementes. A neutralização está se tornando uma prática
bastante comum também no Brasil. O Carnaval de São Paulo será
neutro. Não é isso que vocês estão pensando! É
neutro não no sentido de sem muita graça... sem ritmo. Usa-se aqui
o termo em sua nova acepção ambiental.
Desde os carros alegóricos até a energia do Sambódromo, tudo
será neutralizado. Custo ambiental da folia? Mil e duzentas árvores.
Até a missa que o papa Bento XVI celebrará em São Paulo,
em maio, será neutra, com o patrocínio da prefeitura paulistana.
A iniciativa cria uma situação inusitada: o culto será católico,
mas a neutralização, multirreligiosa. O pagamento em árvores
será bancado por todos os contribuintes da cidade, católicos e não
católicos. Mas qual
é a real eficácia da neutralização? Para alguns cientistas,
ela é apenas a materialização do sonho quintessencial do
politicamente correto acomodado: nenhum hábito de produção
e consumo precisa ser mudado, desde que se plantem algumas dezenas de mudas. Com
a neutralização, dizem esses críticos, a poluição
torna-se moralmente permitida ou pelo menos um pouco mais aceitável.
Além disso, ainda que as árvores novas funcionem como filtros, tirando
o CO2, calcula-se que seria preciso cobrir com elas cada metro quadrado de toda
a superfície do planeta para neutralizar o excesso de dióxido de
carbono acumulado na atmosfera. Tudo isso é verdade. Mas a ciência
ambiental é ainda tão especulativa que tanto o cético quanto
o fanático preservacionista podem estar errados. Na dúvida, é
bom evitar os excessos. Ainda que não resolva o problema do efeito estufa,
a neutralização é parte da solução. "É
melhor neutralizar do que não fazer nada. É um começo", diz
o engenheiro florestal Paulo Braga, diretor da Max Ambiental, empresa que elabora
projetos de neutralização de carbono. Para Mario Monzoni, coordenador
do centro de estudos em sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas,
a neutralização só será eficaz se for acompanhada
de uma drástica diminuição da queima de combustíveis
fósseis no mundo. Caso contrário, não passará de mais
um modismo. Adrian
Dennis/AFP
 | | Menos
fumaça no céu: a British Airways oferece passagens neutralizadas a passageiros
que pagarem um pouco mais |
Guiadas
pelo marketing, as grandes companhias juram fazer as duas coisas: reduzir os poluentes
e neutralizar as emissões que forem inevitáveis. "As empresas estão
tentando dar uma resposta ao atual sentimento de culpa das pessoas", disse Rony
Rodrigues, da Box 1824, consultoria especializada em análise de mercado.
Num período de cinco anos, a companhia aérea inglesa British Airways
reduziu em 8% a emissão de dióxido de carbono liberado na queima
de querosene dos aviões. A companhia também cobra uma taxa extra
dos viajantes que desejarem neutralizar seus vôos. Custa 14,49 dólares
neutralizar o trecho LondresSão Paulo, responsável pela emissão
de 1,07 tonelada de CO2 por passageiro. O parque de diversões Playcenter
foi uma das últimas empresas brasileiras a aderir à moda: neutralizará
o carbono do funcionamento de 35 atrações, plantando 10 904 árvores
por ano até 2011. Famosos também surfam na nova onda ambiental.
A dupla Sandy & Junior vai neutralizar todos os setenta shows deste ano e
a gravação do seu novo CD. A Pindorama, produtora da atriz Regina
Casé e de seu marido, Estevão Ciavatta, neutralizou, com 28 árvores,
um comercial feito para a Africa, agência de Nizan Guanaes. As mudas plantadas
serviram para abater os deslocamentos da equipe de cinqüenta pessoas, os
gastos com energia e o lixo da produção. Brinca a atriz, para desespero
dos ambientalistas: "Com a quantidade de árvores que plantei, já
posso queimar muito carbono". O administrador de empresas Ronney Saverbronn da
Cunha, 37, contratou uma consultoria para neutralizar um curso de MBA feito no
ano passado. Serão necessárias sete árvores para compensar
o custo ambiental da fabricação das 3.120 folhas de papel usadas,
do trajeto de 15 quilômetros feito de carro durante noventa dias e da energia
usada em sala de aula. "Agora pretendo neutralizar o nascimento do meu filho,
Gabriel", disse Ronney, cuja mulher, Denise, está grávida de oito
meses. Mas quem se encarrega
de fazer tantos cálculos e plantar tantas árvores? E quem fiscaliza
tudo isso? Existe uma miríade de entidades especializadas na neutralização.
A Max Ambiental já fez uma dezena de projetos no verão de 2005/2006.
Para este ano, já há trinta outros engatados. A Iniciativa Verde,
que também faz a neutralização para pessoas e empresas, teve
quinze projetos em 2006. Desde janeiro, trabalha em outros 35. A Max Ambiental
atua em parceria com a SOS Mata Atlântica, entidade que planta árvores
muito antes da moda da neutralização. "Para nós, o plantio
não é novidade. O que interessa é que as empresas, ainda
que em busca do marketing, tenham aderido", declarou Adauto Basílio, diretor
de captação de recursos e responsável pelos programas de
reflorestamento da entidade. O custo dos projetos depende do número de
árvores e das espécies plantadas. Pode chegar centenas de milhares
de reais. Engenheiros florestais e especialistas em crédito de carbono
estão sendo disputados a tapa pelas empresas especializadas em neutralização.
Tudo para aliviar a culpa de clientes, grandes e pequenos, em faturamento e lucro.
A última edição do relatório Carbon Down Profits Up,
da entidade inglesa Climate Group, mostra uma evolução de adesões
à causa: 74 companhias, de onze países, preocupadas com as emissões
de carbono. Andrew
Medichini/AP
 | | Na
moda: a missa celebrada pelo papa Bento XVI em São Paulo terá a emissão de CO2
compensada |
Como
a neutralização não é obrigatória, nenhuma
entidade governamental fiscaliza se os cálculos estão corretos ou
se as árvores são realmente plantadas. Para não cair no conto-do-vigário,
é bom verificar se a prestadora de serviço contrata alguma auditoria
externa conhecida para analisar a execução dos trabalhos. As entidades
mais sérias fazem isso. Como qualquer outro modismo, esse também
tem sua cota de aberrações e hipocrisia. Palco de alguns dos piores
crimes de corrupção (sete envolvendo até órgãos
ambientais) da história brasileira, a Câmara dos Deputados anunciou
que vai neutralizar suas atividades. Já foi encomendado um estudo para
calcular a emissão de dióxido de carbono com transporte e consumo
de energia elétrica dos 513 deputados. A idéia é compensar
os danos ao meio ambiente. Pena que os parlamentares não possam neutralizar
também danos de outra natureza. Com
reportagem de Cíntia Borsato
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