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Crime A
falsa questão da pobreza
Os assassinos de João Hélio têm família, educação
e religião, mas acabaram no crime
 Ronaldo
Soares e Ronaldo França Marcos
D' Paula/AE
 | | Quatro
dos acusados do crime no Rio de Janeiro: o "social" nγo explica a barbαrie |
Até
o dia 7, Tiago de Abreu Matos, de 19 anos, levava uma vida como a de qualquer
outro jovem da sua idade. Gostava de carros em especial, Opala antigos
, soltar pipa e sair com a namorada. Sua família é evangélica
praticante e mora na melhor casa de uma rua de Madureira, bairro do subúrbio
carioca. Concluiu o ensino médio na melhor escola particular da região,
onde não era um aluno brilhante, mas estudava o suficiente para passar
de ano. Jamais se envolvera em confusão com outros alunos. Para ajudar
no orçamento da família, dirigia o táxi do pai. Seu plano
para este ano era prestar concurso para a Polícia Militar. Na vizinhança,
a família do rapaz sempre foi tida como unida e solidária. Chamado
pelo pastor da igreja para ajudar na distribuição de pães
em uma favela perto de sua casa, Tiago atendia com boa vontade. Essa imagem de
bom moço virou pelo avesso na noite da quarta-feira 7. Tiago foi no táxi
do pai com outros quatro rapazes até um cruzamento de Oswaldo Cruz, bairro
vizinho a Madureira. Três deles saltaram e interceptaram o carro em que
estava o menino João Hélio Fernandes, dando início ao bárbaro
assassinato que revolta o país desde então.
O episódio não só revelou um Tiago que nem os próprios
parentes conheciam como ajudou a enterrar um mito que a doutrinação
esquerdista-tropical propaga: o de que a única e verdadeira raiz da formação
de criminosos está na miséria e na desestruturação
familiar das camadas miseráveis da população. Tiago não
é pobre, e sua família está longe de ser exemplo de desagregação.
O caso desnuda também a injustiça que se encerra na visão
"social" das causas da proliferação de bandidos. Onde fica a imensa
maioria dos garotos que moram em favelas ou bairros humildes e encontram satisfação
em uma vida honesta de estudo e trabalho? Especialistas concordam que a escalada
do crime e, em especial, do crime com crueldade tem causas bem mais complexas.
Para a cientista social Simone Gonçalves de Assis, que coordena o Centro
Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde (Claves), da Fundação
Oswaldo Cruz, o desrespeito ao ser humano, a desvalorização da vida
e a noção de impunidade fazem parte de uma cultura difundida diariamente.
"Quem vive nas grandes cidades respira violência e desrespeito. Você
não confia na polícia, no professor, no vizinho. Isso faz crescer
o descaso pelo outro", diz. Some-se a isso a força da cultura da permissividade
no Brasil, onde criminosos e maus políticos não são punidos,
a propina é um hábito e as autoridades usam suas credenciais para
obter favores. No caso do Rio de Janeiro, há uma agravante: a valorização
da cultura da malandragem, que em muito contribui para glamourizar os marginais.
É nessa sociedade que crescem os jovens de hoje, muitos deles bandidos
amanhã. Amigos e vizinhos
ainda se mostram surpresos com o envolvimento de Tiago no crime. "O pai dele,
aos poucos, está começando a ligar fatos do dia-a-dia com o que
aconteceu agora, lembrando de situações em que o filho saía
de casa sem dizer aonde ia", diz o delegado Adílson Palácio, um
dos responsáveis pelas investigações. A polícia não
tem dúvida de que o rapaz ajudou a perpetrar a monstruosidade contra João
Hélio. Tiago e os quatro cúmplices foram indiciados por latrocínio
(roubo seguido de morte), formação de quadrilha e corrupção
de menor. Cada um deles pode pegar até quarenta anos de prisão
exceto o menor, de 16 anos, que, embora também tenha participado do crime,
ficará no máximo três anos em uma unidade para menores infratores.
Além disso, na semana passada Tiago e dois de seus cúmplices foram
identificados por uma vítima de roubo de carro, ocorrido no ano passado.
Mais um episódio, claro, que a família desconhecia. Com
reportagem de Marcelo Bortoloti |