Sem camisinha,
só com milagre
Igreja Católica bombardeia a campanha
pelo uso de preservativo para evitar a Aids no Carnaval
Reprodução
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| O
cartaz: brincadeira entre o bem e o mal |
A
nova campanha de prevenção à Aids patrocinada
pelo Ministério da Saúde foi ao ar na semana
passada. O filme que está sendo exibido na televisão
mostra um rapaz abordando uma moça em um baile de Carnaval.
Um diabinho o estimula a ir em frente. Um anjo lembra que
o rapaz esqueceu a camisinha em casa e o detém. Surpreso,
até o diabo concorda com o anjo. No final, o aviso:
"Não importa de que lado você está. Use
camisinha". A Igreja Católica levou a campanha a sério
demais e a recebeu mal. Entendem os bispos católicos
que a propaganda estaria tratando em tom de deboche dois valores
sagrados do cristianismo. Um deles é a distinção
clara entre o bem e o mal, que habitam mundos opostos. Quem
poderia imaginar o Satanás preocupando-se em proteger
alguém? O outro valor está ligado ao sexo. Para
a Igreja Católica, a relação sexual é
a forma pela qual procriam os casais devidamente unidos pelo
matrimônio. Como a prática do sexo, segundo entendimento
da doutrina católica, não deve visar prazer
mas, sim, a concepção de um novo ser humano,
o uso de preservativo seria injustificável.
O secretário-geral da Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil (CNBB), Raymundo Damasceno, tentou entrar
na discussão em tom elevado. A princípio afirmou
que o comercial é intolerável "porque coloca
no mesmo pé de igualdade o bem e o mal, a honestidade
e a corrupção, a mentira e a verdade". Depois
foi ao ponto: "O Ministério da Saúde defende
o uso da camisinha, mas nós somos contra porque achamos
que usar preservativo se opõe aos ensinamentos morais".
Os brasileiros já se acostumaram às intromissões
da Igreja nos assuntos do Estado. Os bispos adoram aconselhar
o ministro Raul Jungmann a ser mais generoso com a turma do
MST. Recentemente, a CNBB decidiu orientar o trabalho do ministro
Pedro Malan e sugeriu a realização de um plebiscito
para saber se o governo deve ou não continuar a pagar
a dívida externa. Em outro lance, o presidente da entidade,
Jayme Chemello, atacou de jurisconsulto e propôs o seqüestro
automático dos bens das pessoas envolvidas em atos
de corrupção ou desvio de dinheiro público.
Quando integrantes da Igreja tratam de assuntos para os quais
não estão habilitados tecnicamente a discutir,
como a reforma agrária, as finanças públicas
ou a legislação penal, suas opiniões
não fazem mal algum, pois o país não
as leva tão a sério. Malan não iria declarar
moratória da dívida em função
dos desejos dos bispos. Jungmann também não
contrataria João Pedro Stedile como assessor apenas
porque a Igreja quer mais espaço para os sem-terra.
Wilson Pedrosa/AE

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| O
ministro Serra como anjo e como diabo |
É
diferente no caso da campanha anti-Aids. Ao opinar sobre a
propaganda feita pelo governo e sugerir que as pessoas não
devam usar camisinha, a Igreja começa a pisar em território
minado. A Aids é doença letal, vitima milhões
de pessoas em todo o mundo e o tratamento dos doentes consome
cifras bilionárias. A camisinha é a proteção
mais eficaz que se conhece contra a doença. No lançamento
da campanha, o ministro José Serra, da Saúde,
foi fotografado de maneira bem-humorada pelos fotógrafos
Wilson Pedrosa, da Agência Estado, e Givaldo Barbosa,
da Agência O Globo, que enquadraram o rosto do ministro
num halo de anjo e também entre os chifres do diabo.
O efeito é engraçado, mas a campanha que Serra
vem fazendo contra a expansão da Aids é muito
séria e eficiente. No Brasil, mais de 500.000
pessoas foram contaminadas desde seu surgimento, nos anos
80. Como a doença não tem cura, quem evita o
uso da camisinha e eventualmente contrai Aids só pode
esperar que um milagre o salve. O papel do Ministério
da Saúde é alertar a população
sobre a camisinha como prevenção contra a doença.
E o da Igreja, em vez de criticar campanhas positivas como
essa, é pregar sua visão de mundo não
para o governo brasileiro, mas sim para seu rebanho.
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