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Mulher de bigode

Creme que inibe pêlos faciais já pode
ser encontrado em importadoras

Angela Nunes

Montagem sobre fotos de coleção Eduardo Constantini e Claudia Paiva
Montagem em obra de Frida Kahlo: à moda antiga


Considerada uma espécie de bíblia das mulheres americanas bem-sucedidas, a revista Cosmopolitan trouxe em sua edição de janeiro um suplemento publicitário de seis páginas sobre um assunto que interessa de perto a cerca de 40 milhões de representantes do sexo feminino nos Estados Unidos. Esse é o contingente de adultas e adolescentes que depilam os pêlos do rosto ao menos uma vez a cada seis meses naquele país, de acordo com estimativas da Gillette, um dos mais tradicionais fabricantes de barbeadores do mundo, e do laboratório farmacêutico Bristol-Myers Squibb. As duas empresas estavam alardeando na revista os benefícios do cosmético Vaniqa, que produzem e comercializam, capaz de retardar o crescimento da penugem sob o nariz e no queixo, que nocauteia a vaidade feminina. "Se o bigode que a impede de chegar perto é seu (e não dele), provavelmente é hora de cuidar do rosto", desafia a propaganda. A controvertida artista mexicana Frida Kahlo, eternizada em auto-retratos com o buço avantajado, talvez adorasse o cosmético.

O creme não acaba definitivamente com o bigodinho, mas penetra na pele e inibe a ação dos responsáveis pelo crescimento do pêlo. Deve ser aplicado duas vezes por dia. Quando a paciente pára de usar o produto, volta tudo de novo. Embora os fabricantes ainda não saibam quando produzirão a pomada no Brasil, o Vaniqa já pode ser encontrado em lojas que vendem cosméticos importados nas grandes capitais, ao preço de 150 reais. A dermatologista Patrícia Guedes Rittes, de São Paulo, já o receitou para cerca de cinqüenta de suas clientes. "O resultado está sendo ótimo, em quase todos os casos o pêlo realmente não cresce mais enquanto a pessoa usar", ela atesta. As origens dos pêlos são diversas, a começar por herança genética. Em muitos casos, entretanto, a ocorrência se dá em razão de distúrbios hormonais, como os que se verificam em uma síndrome que provoca o surgimento de cistos no ovário e impede a ovulação.

O tubinho de creme e o anúncio: buço na mira

Na semana passada, o Vaniqa voltou a estar em evidência. A Organização Mundial de Saúde revelou que está em fase final de negociações com a Squibb para que o laboratório patrocine o emprego da substância eflornitina – o princípio ativo do Vaniqa – na produção de um remédio para combater a temível doença do sono. Transmitida pela mosca tsé-tsé e provocada por um protozoário, a moléstia aflige 300.000 africanos por ano, provoca a loucura e pode matar. A OMS herdou a patente da eflornitina do laboratório franco-alemão Aventis, que apostava nela como composto para a cura do câncer. Como isso não se confirmou, o Aventis abandonou a produção da droga. Descoberta em 1970, a eflornitina passou a ser empregada no combate à doença do sono em 1979, mas sempre houve carência de doses para fins humanitários. Nos anos 90, os pesquisadores identificaram também sua capacidade de inibir a ação de uma enzima responsável pelo crescimento dos pêlos. No acordo em via de ser chancelado, a Squibb se compromete a doar 180.000 doses de eflornitina em três anos. Em troca, com seu creme prodigioso, segue fazendo barba e bigode nas mulheres pelo mundo afora.

 

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