Dá
para controlar
O ex-chanceler alemão propõe
um controle
do fluxo de capital financeiro e
diz que lutar
contra a globalização é inútil
José
Galisi Filho, de Hamburgo
O ex-chanceler alemão Helmut Schmidt, um dos pais
da social-democracia, foi também um profeta da unificação
européia, cujo processo ele visualizou muito antes
de outros líderes. Com a Guerra Fria no auge, Schmidt
realizou a façanha de aproximar a então Alemanha
Ocidental da União Soviética sem se distanciar
dos Estados Unidos. Nos oito anos em que ocupou o cargo
de primeiro-ministro, entre 1974 e 1982, e muito antes da
queda do Muro de Berlim, foi o primeiro a falar em reunificação
da Alemanha. Junto com o presidente francês Giscard
d'Estaing, impulsionou a implantação da União
Européia e lançou a idéia de uma moeda
única para a Europa. Durante os mais de trinta anos
de carreira política, foi um defensor da democracia
cristã e do Estado do bem-estar social. Em 1987 deixou
a política partidária, mas, como editor do
prestigioso jornal semanal Die Zeit e autor de dezenas
de livros, continuou influente interlocutor de políticos
e comentarista inteligente dos grandes temas do mundo moderno.
Aos 83 anos, não poupa os inimigos do processo de
globalização da economia. "Lutam contra o
óbvio", diz. Na semana passada, Helmut Schmidt recebeu
VEJA na sede de seu jornal para a seguinte entrevista.
Veja O senhor sempre foi otimista em relação
ao Brasil. Por quê?
Schmidt
Meu otimismo em relação ao Brasil decorre,
em parte, de suas fantásticas riquezas minerais,
do gigantesco potencial agrícola do país e
também da formidável vitalidade de uma população
em média ainda jovem. Alguns obstáculos à
caminhada brasileira existem, mas podem ser vencidos. Um
deles é o desequilíbrio de riqueza. A diferença
atual de padrões de vida entre a costa brasileira
e o interior é tão grande como a que existe
entre Xangai e Sichuan, na China. Se a China for capaz de
superar essas contradições nos próximos
decênios, terá um papel poderoso no cenário
mundial. O mesmo vale para o Brasil. A um Brasil mais igualitário
está reservado um papel de liderança.
Veja Os governos militares já defendiam
a idéia de um Brasil potência na década
de 70.
Schmidt
Quando digo que o Brasil pode ser uma superpotência,
não estou me referindo apenas à capacidade
militar. Do meu ponto de vista, uma potência mundial
é o resultado de vários fatores. O militar
é apenas um deles. Decorre de sua capacidade econômica,
de sua saúde social, da ausência de conflitos
internos, do tamanho do território. Apenas por causa
de seu território, a Rússia já é
uma potência, queiramos ou não. Sem levar em
conta suas 10.000 ogivas nucleares.
O Brasil não precisa de armas nucleares, mas não
excluo a possibilidade de que venha a desenvolvê-las
um dia.
Veja O que exatamente o senhor chama de "capitalismo
de rapina"?
Schmidt
Com
a expressão "capitalismo de rapina", refiro-me especificamente
aos consultores e corretores que fazem as operações
de anexação hostil de empresas, aos intermediários
financeiros, aos palpiteiros de plantão do mercado
de capitais, aos plantadores de boatos, enfim, a todos aqueles
que participam dessa ciranda financeira desenfreada, ganhando
rios de dinheiro, sem levar em conta as conseqüências
de suas decisões. Pelo menos metade das grandes fusões
do mercado é malsucedida. Elas são feitas
apenas por ganância dos executivos que chegam para
os conglomerados e dizem: "Vejam só, temos um palpite
excelente de como se pode comprar o conglomerado 'a' ou
'b' ". Claro que eles lucram muito e artificialmente com
essas transações. É isso que entendo
por "capitalismo de rapina". Trata-se de um desenvolvimento
lamentável do capitalismo, sob o qual se esconde
um impulso doentio para a riqueza fácil.
Veja O Estado ainda tem algum papel regulador
dos mercados?
Schmidt
Existem setores nos quais a competência do poder público
ainda desempenha enorme papel regulador, especialmente no
controle dos monopólios, na política de concorrência
e na política de cartéis no velho estilo.
Nesse domínio, ainda prevalece, como antes, a soberania
legislativa do Parlamento. Mas o grande poder regulador
dos governos vem sendo exercido com ações
de defesa ambiental. No passado, nem o Estado nem a iniciativa
privada dispunham de competência reguladora sobre
esse setor. Agora têm. Até mesmo nos países
do Sudeste Asiático e do Extremo Oriente os governos
vêm impondo medidas ambientais. Esse é um domínio
em que a soberania estatal cresce, consolida-se e aprimora-se
em relação a trinta ou vinte anos atrás.
Veja E onde o Estado é mais fraco?
Schmidt
Um domínio-chave em que os governos perderam essencialmente
o controle nos últimos vinte a trinta anos é
o campo das finanças internacionais. Nesse domínio
se cometem os maiores atentados à razão e
à moral nas manobras especulativas mais baixas. Trata-se
de um campo muito amplo, com aspectos bastante distintos
e falo aqui menos dos mercados de crédito
que da especulação financeira de curto prazo
com papéis, ações e moedas.
Veja O Estado social alemão fracassou?
Schmidt
Na maioria dos países da Europa Ocidental o Estado
do bem-estar social ainda representa um modelo cultural
forte. Eu não diria que ele fracassou em sua grande
promessa ou que não a tenha cumprido. Muito pelo
contrário: a maioria esmagadora da população
da Inglaterra, Bélgica, Itália, Holanda, Alemanha
e da Escandinávia nunca dispôs de um padrão
de vida tão elevado como no final do século
XX.
Veja Afinal, a tão falada globalização
significa mais progresso ou menos emprego?
Schmidt
A aliança de interesses contra a globalização
é completamente estéril. É uma aliança
contra o óbvio, feita por aqueles que são
contra o que desconhecem inteiramente. Esses grupos voltam-se
contra um clichê, a palavra "globalização".
É estranho porque a globalização nem
é coisa nova. Comércio mundial e tráfego
internacional existem desde Marco Polo, Colombo e os armadores
de Veneza e Genebra. Desde o início da idade moderna,
a globalização operou uma divisão internacional
do trabalho entre os fornecedores de matérias-primas
e os países da manufatura. Aquilo que se conhece
mais recentemente como globalização já
estava muito claro desde a crise do petróleo, no
início dos anos 70. Naquela época os políticos
inteligentes perceberam que a economia de seus países
não poderia mais ser conduzida independentemente
dos desdobramentos da economia mundial. O que é absolutamente
novo é o poder dos novos atores financeiros. Um poder
nada transparente, por sinal.
Veja É possível controlar esse
poder?
Schmidt
As autoridades podem modernizar os mecanismos de controle
bancário, supervisionar as operações
financeiras e de seguro, estabelecer novas regras internacionais
de conduta nesse setor. Isso é perfeitamente possível.
Já foi feito em outros setores da vida internacionalizada.
Temos uma complexa regulamentação para o transporte
marítimo. Desde o advento da aviação
comercial, surgiram também novas regras de tráfego.
Apenas um exemplo: nenhum avião decola de Frankfurt
em direção a Londres se não houver
um lugar preciso para ele aterrissar quando chegar ao Aeroporto
de Heathrow. O transporte aéreo é prova de
uma complexa e eficiente regulamentação internacional.
É hora de os países mais desenvolvidos chegarem
a um acordo sobre como controlar o fluxo do dinheiro.
Veja A que se devem as altas taxas de desemprego
na Europa?
Schmidt
Apenas em uma parcela mínima o desemprego em massa
na Europa é conseqüência da concorrência
internacional. A culpa maior é da super-regulamentação
estatal do mercado de trabalho. Há uma inflação
de normas e regulamentos. Apenas a legislação
da União Européia tem 80.000
parágrafos. Esse é um dos maiores obstáculos
a um desenvolvimento mais flexível. O Estado de bem-estar
desempenha também um papel decisivo com seus pesados
encargos sociais. Mas o ponto mais importante é que
o alto nível salarial e o elevado padrão social
dos países europeus implicam naturalmente altíssimos
custos de produção diante dos países
de baixa renda e com baixo padrão de vida. Se os
produtos que fazemos podem ser confeccionados em qualquer
outro lugar do mundo com a qualidade do "made in Germany"
e a um preço bem mais baixo, então sobram
aos europeus apenas duas alternativas. A primeira é
se conformar em achatar seus salários e, no futuro,
rebaixar seu padrão social. A segunda, ainda mais
decisiva, é se capacitar para fabricar coisas que
não possam ser produzidas em nenhum outro lugar.
Veja Quais são os maiores desafios enfrentados
pela Europa?
Schmidt
A pressão demográfica é o mais significativo.
Os povos europeus envelhecem e declinam drasticamente em
números absolutos. Por outro lado, observamos a explosão
demográfica da população mundial, que
começou na metade do século XX e se prolongará
no nosso. No começo do século passado, havia
no planeta 1,5 bilhão de habitantes. Na metade, já
eram 2 bilhões, e hoje são quatro vezes mais
que em 1901. E isso conduz, em muitas partes do mundo, a
conflitos e guerras, como em Ruanda, Burundi e na África
ocidental, e a Estados pessimamente administrados na América
Latina ou no Sudeste Asiático, originando deslocamentos
migratórios e enormes contingentes de refugiados
em direção aos Estados Unidos e à Europa.
Será preciso administrar esse fluxo.
Veja Por que o senhor exclui a Rússia
e a Turquia de seu projeto de Europa?
Schmidt
Pela mesma razão que excluo a China ou a Venezuela.
Seria um equívoco incorporá-las à União
Européia. A Rússia, diferentemente da maioria
das nações européias, não tem
tradição democrática do Estado de direito.
Não tem também uma cultura de economia de
mercado, de livre iniciativa ou de respeito à propriedade
privada. O mesmo vale para a Turquia. Não vejo como
ela possa resolver do dia para a noite o problema do Curdistão.
Aqui mesmo, em Hamburgo, nós alemães somos
testemunhas dos conflitos violentos entre curdos e turcos.
Acho que seria um erro admitir a Turquia ou a Rússia
na União Européia.
Veja Quais as chances de êxito do euro,
a moeda comum da União Européia?
Schmidt
Não tenho nenhuma dúvida de que o euro será,
em alguns anos, uma moeda mundialmente reconhecida. Em trinta
anos haverá três moedas mundiais: o dólar
americano, o euro e o remimbi chinês. Existe certo
ceticismo na opinião pública de alguns países
no momento em que, pela primeira vez, as pessoas têm
de pagar o aluguel, o cigarro ou o café, enfim as
pequenas coisas do dia-a-dia, não mais em pesetas,
francos ou marcos, mas em euro. Mas a maioria vai se acostumar
rapidamente com isso.
Veja O senhor acredita que o Mercosul e a União
Européia podem estabelecer uma zona de livre comércio?
Schmidt
Sou bastante cético diante das zonas de livre comércio,
mas você está falando com um cidadão
de Hamburgo. Nós do porto de Hamburgo praticamos,
há séculos, um comércio intenso com
a América do Sul e nunca precisamos de uma zona de
livre comércio. De qualquer maneira, poderia haver
vantagem para ambas as partes, mas não acho que esse
seja um dos problemas mais urgentes da União Européia.
Veja É possível dar aos países
em desenvolvimento mais poder junto ao Fundo Monetário
Internacional?
Schmidt
Não existe neste momento uma clara distribuição
de tarefas e competências entre o Banco Mundial e
o FMI. Um se imiscui na órbita do outro. E ambos
agem apenas em função da manutenção
e da ampliação de seu poder enquanto organizações.
O mesmo vale para o Secretariado Geral das Nações
Unidas. Faltam transparência e controle democrático
a essas organizações. Essa democratização
vai ocorrer logo.
Veja O senhor dizia alguns anos atrás,
em plena euforia pela reunificação das duas
Alemanhas, que os alemães "não são
ainda um único povo". E agora?
Schmidt
O processo de normalização avançou
bastante, mas as diferenças econômicas com
os chamados novos Estados, a Alemanha do Leste, ainda são
flagrantes. No Leste, a taxa de desemprego é em média
duas vezes maior que nas demais regiões do país.
Algumas décadas ainda serão necessárias
para aplainar essas diferenças econômicas,
mais até do que imaginávamos quando começamos
esse processo.
Veja Quais são suas expectativas quanto
à administração do novo presidente
americano?
Schmidt
George Bush é um jovem com pouca experiência
em política externa. Não tenho por ele nenhuma
expectativa positiva nem negativa. A classe política
americana de hoje conhece menos o mundo do que aquela de
vinte anos atrás. Alguns políticos americanos
até se gabam de não precisar de passaporte,
já que nunca viajam ao exterior. Eles entendem muito
pouco de China, menos ainda de Índia, não
sabem quase nada sobre a Rússia e muito pouco sobre
os países em desenvolvimento da Ásia, da África
e da América Latina. Apesar disso, são muito
ligeiros para fazer juízos de valor sobre tudo e
acreditam que aquilo que funciona nos Estados Unidos deve
funcionar em qualquer outro lugar. Provavelmente essa petulância
vai perdurar por alguns anos, mas, mais cedo ou mais tarde,
os americanos serão obrigados a reconhecer que a
China e a Rússia são superpotências
mundiais e que o Brasil e a Índia provavelmente vão
integrar esse grupo.