Stephen
Kanitz
Estabilidade
e crescimento
"Quem
disse que os desenvolvimentistas
sabem qual o melhor caminho que eu e
você devemos seguir?"
Ilustração Ale Setti
 |
De tempos a tempos o ministro da Fazenda é criticado por
ex-colegas que o acusam de fazer "nada". Seus críticos
querem que ele faça "algo", algo como desenvolver o país.
A nação estremece cada vez que desenvolvimentistas
querem nos fazer "algo". Foi o desenvolvimentismo de Juscelino
Kubitschek que desembocou na inflação brasileira;
foram os desenvolvimentistas que optaram por endividar o país
em dólar no meio da crise do petróleo; foi o discurso
desenvolvimentista que criou os bancos estaduais que vinte anos
depois tiveram de ser saneados; são deles os inúmeros
impostos e fundos obrigatórios para financiar seus setores
prediletos. Já pagamos caro por decisões do passado,
que geraram crescimentos curtos e efêmeros.
Os médicos também eram conclamados a fazer "algo"
pelos seus doentes. Galeno, sem nenhum embasamento científico,
achava que as doenças eram causadas por desequilíbrios
internos devido aos humores, teoria que perdurou por mais de 1
000 anos.
Periodicamente, esses humores eram mal distribuídos em
nosso corpo e um médico drenava o excesso. Daí vieram
as sanguessugas e as punções, que tiravam litros
de sangue com anticorpos e nutrientes justamente de quem mais
precisava. Os pacientes morriam às pencas, mas pelo menos
"alguém estava fazendo algo".
No fim do século XVIII, durante as epidemias, alguns médicos
mais observadores perceberam, horrorizados, que os pacientes não
atendidos por falta de tempo sobreviviam em maior número
que os atendidos. Os primeiros médicos que externaram essa
constatação foram imediatamente trucidados, vilipendiados
e banidos, como todos aqueles que, no Brasil, alertavam que os
sucessivos planos bem-intencionados de nossos economistas no poder
mais atrapalharam do que ajudaram nesses últimos 36 anos.
Curiosamente, foi justamente Malan quem renegociou a dívida
externa e combateu a inflação que antigos desenvolvimentistas
nos legaram. Quando esses médicos galgaram os postos de
administradores de hospitais, enganando por anos a fio seus colegas
quanto às suas verdadeiras convicções
como acusam Malan de ter feito , finalmente puderam mudar
as práticas médicas da época. Em vez de aplicar
as malucas teorias de Galeno, decidiram simplesmente fazer "nada".
Os pacientes melhoraram porque, então, seus anticorpos
puderam agir por conta própria, sem ter de lutar também
contra sanguessugas infectadas e contra a drenagem de sangue,
feita com agulhas não esterilizadas.
É
muito sedutor o discurso de que alguém tem uma agenda para
nos desenvolver. Mas será que somos meras peças
do tabuleiro econômico, sem rumo nem movimento, peões
que precisam ser movidos por mãos esclarecidas? Quem disse
que os desenvolvimentistas sabem qual o melhor caminho que eu
e você devemos seguir? Se soubessem prever os setores de
futuro, seriam arquimilionários investindo na bolsa, mas
infelizmente não o são.
Ninguém é dono de nosso futuro a não ser
nós mesmos. Ninguém tem o direito de decidir o que
eu e você devemos fazer. A única coisa que precisamos
de um governo é um ambiente estável que permita
o desenvolvimento por conta própria. Estabilidade é
crescimento, o nosso crescimento.
Não deve ser fácil para o ministro da Fazenda lidar
com todos aqueles que querem nos desenvolver fazendo "algo". Provavelmente,
todo dia ele recebe inúmeros pedidos como privilegiar um
setor favorito, dar um subsídio seletivo, reduzir alguma
alíquota, transferir algum recurso, criar alguma isenção,
favorecer um grupo empresarial em detrimento de outro, proteger
um setor com tarifas elevadas, criar uma política industrial,
cobrir algum furo de caixa, conceder algum empréstimo a
juros subsidiados. Dizer "não" raramente traz satisfação,
amigos e manchetes de jornal, muito menos fama de salvador da
pátria.
Portanto, se conseguirmos resistir aos inúmeros pretendentes
que, de tempos a tempos, querem nos desenvolver fazendo "algo",
170 milhões de brasileiros poderão, um dia, fazer
"muito".
Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)