A
falta que faz uma
boa utopia
Por
que tanto
o Mercosul como
a Alca estão distantes
do modelo
da União Européia
O
leitor alguma vez imaginou que o Mercosul ou a Alca, a associação
de livre comércio proposta pelos Estados Unidos, seriam iguais
à União Européia? Se imaginou, trate de desimaginar.
Nos últimos dias, ganhou urgência a opção
entre Mercosul e Alca uma comunidade de países sul-americanos,
tal como já vem sendo realizada, ou uma mais ampla, compreendendo
as três Américas, tal como projetada pelos EUA. Para
o Brasil, o momento é como o do jovem diante da escolha da
profissão. Está em jogo o futuro. Os últimos
lances, representados pela deserção do Chile, pelo
titubeio da Argentina e pela solidão do Brasil, na insistência
em preservar o bloco sul-americano, além da impaciência
dos Estados Unidos, um de cujos representantes chamou a posição
brasileira de "infantil", tornaram muita coisa obscura. Uma ficou
clara: se com o Mercosul já estava difícil atingir
algo parecido com União Européia, com a Alca é
impossível. As evidências disso são:
.Falta
de instituições. A União Européia assenta-se
sobre uma complexa arquitetura institucional, composta de órgãos
que reproduzem, no âmbito do bloco, os poderes Executivo,
Legislativo e Judiciário. O Mercosul, de caso pensado, e
muito por influência brasileira, arquitetou-se de maneira
informal. Não quis aprisionar-se a instituições,
vale dizer, a regras definidas e, na medida do possível,
definitivas. Se para o Mercosul tal passo se afigurou complicado,
para a Alca é impossível. Ou alguém imagina
os EUA num órgão que, erigido à semelhança
do Parlamento Europeu, juntasse seus representantes aos do Brasil,
Paraguai e Honduras? Ou submetendo-se a um tribunal comunitário?
Ou renunciando ao Federal Reserve Board, o querido "Fed", em favor
de um banco central continental, como estão fazendo os europeus?
.Falta
de cessão de soberania. Um dos aspectos mais inovadores da
construção européia foi a renúncia a
fatias importantes de soberania por parte dos países-membros.
Um amplo espectro de questões, variando do comércio
internacional aos direitos humanos, é hoje mais do âmbito
supranacional que do nacional, ou, pelo menos, tão do âmbito
supranacional quanto do nacional. Até da emissão de
moeda, a continuar como previsto o projeto do euro, os Estados nacionais
terão de abrir mão. A renúncia à soberania
é ao mesmo tempo causa e conseqüência da institucionalização
referida acima. Se o Mercosul não tem instituições,
e a Alca dificilmente as terá, igualmente não há
cessão de soberania num caso, nem jamais haverá no
outro.
.Falta
de gente. O Mercosul prefere as coisas às pessoas. Cuida
basicamente de mercadorias. Já na União Européia,
entre outras conquistas que transcendem o âmbito mercantil,
é livre o fluxo de cidadãos. Podem trabalhar ou estudar
uns nos países dos outros, e os diplomas profissionais são
reciprocamente reconhecidos. O Mercosul um dia ainda poderá
(ou poderia, diriam os que vêem sua existência
ameaçada) chegar a tal patamar. Já a Alca... É
difícil imaginar as fronteiras dos EUA abertas ao fluxo de
cidadãos dos países ao sul.
.Falta
de igualitarismo. A União Européia eis um de
seus milagres foi tecida entre iguais. Representa uma renúncia
à hegemonia por parte de países exangues de guerras
e milenares rivalidades. Acresce que, tendo por base quatro ou cinco
países de semelhante peso econômico, territorial, demográfico
e cultural França, Alemanha, Inglaterra, Itália
e, talvez, Espanha , uns compensam os outros, e garante-se
o equilíbrio do conjunto. No Mercosul, iniciativas discutíveis,
como a convocação, pelo presidente Fernando Henrique
Cardoso, com razoável barulho, neste ano, de uma cúpula
sul-americana, acabam por salientar o papel brasileiro, aos olhos
de certos parceiros, algo além da conta. De modo geral, porém,
a polaridade Brasil-Argentina, reciprocamente desencorajadora de
tentativas hegemônicas, até que pode (ou podia)
acenar com o equilíbrio. Já a Alca... Que dizer,
nesse aspecto, de um bloco que nasce sob a inspiração
da potência que dá as cartas no mundo como nenhuma
outra, desde Roma?
O
leitor pode ter chegado a este ponto convencido, para honra e alegria
do autor da argumentação, de que, realmente, numa
hipótese temos pouca chance de reproduzir na América
algo equivalente à União Européia, e noutra
nenhuma. Mas se perguntará: e daí? Por que haveríamos
de ter, se as circunstâncias históricas que geraram
os blocos, num e noutro continente, são tão diferentes,
e tão diferentes as realidades em que se desenvolvem? A resposta
é: porque o ideal seria que tivéssemos a União
Européia como modelo. Para além de um acordo tarifário,
ou comercial, ou para além mesmo da convergência de
políticas econômicas e sociais, o bloco europeu contém
uma utopia. Num continente historicamente marcado pelos nacionalismos
e sacrificado pelos confrontos, ele veio oferecer um anteparo de
paz, aceitação do outro, igualitarismo e cooperação.
Seria bom se o bloco americano também contivesse alguma dose
de utopia.
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