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Esse filme é massa!

A Fuga das Galinhas traz de volta à tela
a magia
da animação de massinha

Marcelo Marthe

 
Fotos TM & Dreamworks
Os bonecos de A Fuga: expressividade

Imagine um campo de concentração. Cercas de arame farpado isolam os prisioneiros, alimentados com parcas migalhas. De vez em quando, um deles é separado violentamente do grupo e levado para a execução sumária. Pior: os sobreviventes descobrem que está próxima a hora em que todos irão para o forno. Parece o mote de um tenebroso documentário sobre o Holocausto, certo? Mas, na verdade, estamos falando de um filme para crianças – uma fábula sobre a liberdade, que tem por cenário uma granja e, como heroínas, galinhas tão cheias de alma que, depois de assistir ao filme, o espectador pensará duas vezes antes de degustar um fricassé ou uma coxinha. Com estréia confirmada para esta sexta-feira em todo o país, A Fuga das Galinhas (Chicken Run, Inglaterra/EUA, 2000) é o primeiro longa-metragem de animação produzido pelo estúdio Aardman, sediado na cidade inglesa de Bristol. Seus diretores, Nick Park e Peter Lord, se notabilizaram por ir na contramão das tendências. Enquanto os desenhos animados se aproveitam caddades proporcionadas pelos computadores, os dois ingleses são fiéis a uma técnica "antiquada": a modelagem em massinha.

É uma forma complicadíssima de trabalhar, que requereu o apoio de dezenas de profissionais ao longo de quatro anos (veja quadro). Falta de perfeccionismo, entretanto, é a última coisa de que se pode acusar o filme. Como nos curtas-metragens da série Wallace & Gromit, inéditos no Brasil, mas premiados com dois Oscar, Park e sua equipe compõem detalhadamente cada cantinho dos cenários. E os personagens são um capítulo à parte. Além de criar bichos engraçadíssimos, o pessoal da Aardman consegue dar-lhes uma expressividade raramente vista em bonecos ou desenhos animados. Cada "protagonista" da história tem feições e traços comportamentais bem diferenciados. Há a franguinha intelectual de óculos, a determinada líder do grupo e uma rechonchuda poedeira que faz tricô. Todas, é claro, imbuídas da mais legítima fleuma britânica. Com ajuda de um galo falastrão (voz de Mel Gibson, nas pouquíssimas cópias legendadas) e de outro um tanto caduco, elas pretendem fugir para não virar torta nas mãos da cruel dona da granja. A seqüência em que sabotam a engenhoca de fazer tortas revela uma das especialidades de Park. Como nas animações de Wallace & Gromit, estreladas por um inventor e seu cão espertíssimo, as engrenagens que nunca funcionam garantem ótimos momentos.

Para quem conhece as tramas cheias de ironia e nonsense criadas pelo diretor anteriormente, A Fuga das Galinhas pode soar um pouco meloso. Explica-se: a produção do filme coube à DreamWorks, o megacomplexo de entretenimento de Steven Spielberg, Jeffrey Katzenberg e David Geffen. Park e companhia relutaram durante duas décadas em encarar parceria com um dos gigantes de Hollywood. Agora, finalmente curvaram-se às inevitáveis concessões para entrar no mercado americano, mas seria uma leviandade afirmar que isso afetou a qualidade do trabalho. Nick Park é o rei da massinha, e ninguém tasca.

 

Detalhes tão pequenos

Filmar uma animação de massinha é um trabalho excruciante. No cinema, para dar a ilusão de movimento, cada segundo de imagem é composto de 24 fotografias – os chamados frames. Para fazer A Fuga das Galinhas, foi necessário ajustar milimetricamente as feições dos bonecos e outros detalhes quadro a quadro, e depois fotografar a cena inteira. Ou seja, como a produção do estúdio Aardman tem 82 minutos, foram realizadas nada menos do que 118.080 tomadas. Para se ter a dimensão da trabalheira, um filme de ação razoavelmente agitado precisa de bem menos: cerca de 500 tomadas. Nas filmagens, realizadas durante quatro anos na sede da companhia, em Bristol, utilizaram-se maquetes em tamanho reduzido, repletas de detalhes. E aquelas expressões de medo, angústia, surpresa ou paixão tão bem delineadas nas caras dos personagens resultam de uma estratégia nada simples: a todo momento, era preciso trocar os bicos e os olhos dos bonecos. Diante disso, não parece surpresa que os diretores Nick Park e Peter Lord tenham levado tanto tempo para estrear no longa-metragem.

 

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