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Além do "mundinho"

Os DJs brasileiros estão virando astros.
Até já sonham em ganhar milhões

Marcelo Marthe

 
Ricardo Benichio
Marky: sucesso e boicote por ciúme dos DJs ingleses

Há cerca de dois anos, a música eletrônica se tornou o combustível das casas noturnas da moda. Desde então, a profissão de disc-jóquei vem passando por uma metamorfose. Visto antigamente como um mero animador de festas, muitas vezes anônimo, o DJ foi alçado à condição de astro. Ele determina tendências e, se for carismático, consegue atrair seu público para onde quer que esteja tocando. "O DJ hoje é o centro da cena", resume o produtor Dudu Marote. Mundialmente, os maiores expoentes desse fenômeno são o americano Moby e o inglês Fatboy Slim. Mais que meros disc-jóqueis, eles produzem seus próprios números, lotam estádios e vendem milhões de CDs. No Brasil, a fama de alguns profissionais também começa a extrapolar os limites do chamado "mundinho". É o caso do paulistano DJ Marky. Adepto do drum'n'bass, a batida quebrada e aceleradíssima que agita as pistas, ele saiu da periferia de São Paulo rumo ao sucesso nas danceterias freqüentadas pela classe média. Produziu versões dançantes para canções da MPB e, atualmente, tem carreira promissora até na Inglaterra. Seu cachê chega a 3.000 reais por apresentação. Na esteira do sucesso de Marky e outras feras dos pick-ups, como o também paulistano DJ Patife, toda uma geração está trocando o velho sonho de tocar guitarra numa banda de rock pelo apelo contemporâneo da nova profissão.


Antonio Milena
O casal Davi & Ana: festas na Inglaterra, em dobradinha


Já existe até excesso de mão-de-obra no mercado. Para triunfar num cenário em que há oferta de mais e empresários dispostos a pagar de menos, há DJs que se apresentam de graça, só para fazer nome. Outros apostam na profissionalização. Só em São Paulo e no Rio de Janeiro já existem no mínimo seis empresas cuja especialidade são os serviços de discotecagem. Elas funcionam mais ou menos como uma agência de modelos. Arranjam compromissos para os profissionais em troca de um porcentual dos cachês. "Realizamos sonorização de festas, desfiles de moda, vernissages e outros eventos", informa o DJ Renato Lopes, dono da SmartBiz, que detém o "passe" de dez disc-jóqueis especializados nos gêneros house e tecno. A maior dessas agências, a Hypno, tem um plantel de 26 DJs. A empresa agencia mais de 100 eventos por mês, inclusive no exterior.

A indústria da música também começou a prestar atenção no trabalho dos melhores DJs. As grandes gravadoras têm recorrido a seus serviços para produzir versões de músicas de artistas como Rita Lee, Marina Lima ou Adriana Calcanhotto. As gravadoras menores, por sua vez, perceberam que lançar discos de DJs é um bom negócio. "Produzir um CD de música eletrônica custa por volta de 25.000 reais", diz Bruno E, diretor artístico do SambaLoco, selo da Trama voltado ao gênero. "Sai cinco vezes mais barato que o disco de uma banda de rock." Em apenas um mês, a gravadora vendeu 30.000 cópias do novo disco do DJ Marky, Audio Architecture. Já o primeiro CD do DJ Patife – que diz fazer "um drum'n'bass mais leve para a mulherada" – teve até agora 13.000 cópias comercializadas. Parece fichinha diante dos milhões vendidos por artistas sertanejos. Mas são bons números em um mercado segmentado.


Ricardo Benichio
Patife: som eletrônico leve, "para a mulherada"


Para a maioria dos DJs, o grande sonho é obter reconhecimento no exterior – de onde, afinal, vem esse tipo de música. Vários brasileiros têm se desdobrado para animar noitadas na Inglaterra ou na França. É o caso da dupla paulistana Ana & Davi, casal que se apresenta em dobradinha. Embora não tenham disco gravado, há quatro meses Ana & Davi tocaram em duas festas em Londres. A situação de Marky e Patife é bem diferente. Eles caíram nas graças do público que freqüenta a Movement, uma badalada festa de drum'n'bass da capital inglesa, e hoje têm até agente na Europa. Marky vai para lá a cada dois meses e aparece nas revistas especializadas. Seu sucesso provoca frêmitos nos piercings da concorrência. Mal disfarçando o boicote, alguns expoentes do corporativo mundo dos DJs britânicos chegam a lhe negar acesso a músicas inéditas, que saem em edições limitadas para disc-jóqueis, só em vinil. Até nisso, vejam só, há reserva de mercado.

 

Com reportagem de Sérgio Martins

 

 

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