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Eles são da pá virada

Distúrbio de crianças muito ativas, impacientes e desatentas tem agora tratamento integrado

Fernanda Colavitti


Marcelo Kuba


Qual família não tem ou teve um garoto endiabrado que carrega o rótulo de malcriado ou pestinha, por se comportar como "um capeta em forma de guri", como dizia a música dos anos 60? Muitos pais recebem reclamações freqüentes dos professores sobre a indisciplina e a falta de atenção do filho em sala de aula. Ao mesmo tempo, não sabem o que fazer quando ele está em casa correndo para todos os lados, trepando nos móveis e quebrando os enfeites da sala. É hora, então, de procurar conhecer o alcance do problema. Na maioria dos casos, a agitação tende a se acalmar com o avanço da idade, mas pode ser também que a criança esteja sofrendo de transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), distúrbio que atinge de 3% a 5 % da faixa etária entre 6 e 13 anos. Até o fim da década de 80, falava-se somente em hiperatividade, uma das manifestações mais conhecidas, caracterizada pelo alvoroço permanente. Mais recentemente, o distúrbio passou a ser tratado de maneira ampla, incluindo sintomas de impulsividade (como a impaciência) e a desatenção (esquecimento ou dispersão, por exemplo). Hoje, o TDAH conta com atenção especial e ganhou um setor exclusivo no Hospital das Clínicas de São Paulo, o primeiro do gênero no Brasil. É o Ambulatório para Distúrbios Hiperativos e Déficit de Atenção, coordenado pelo psiquiatra Enio Roberto de Andrade. Segundo ele, para que o comportamento seja diagnosticado como TDAH, é preciso que estejam presentes no mínimo seis características do bloco hiperatividade e impulsividade ou seis de desatenção (veja quadro), por pelo menos seis meses.

Fotos Dilmar Cavalher/Strana e Beatriz Albuquerque

Nas meninas, destaca-se o problema da desatenção, como no caso de Mariana Hartt da Fonte Alonso, de 12 anos, com dificuldades de concentração nas aulas e nas tarefas de casa desde a 1ª série. Após sucessivas terapias e duas mudanças de escola, a família finalmente descobriu que Mariana sofria de TDAH e iniciou um tratamento no começo do ano, com o auxílio de medicamentos. A partir daí, seu rendimento escolar melhorou muito e pela primeira vez ela passou de ano sem exame. A dificuldade em diagnosticar o problema nas meninas deve-se justamente ao desconhecimento da desatenção como uma das manifestações do TDAH, já que durante algum tempo foi difundida a idéia de que o distúrbio era somente a hiperatividade, mais presente no sexo masculino. É o caso de Lucas Teixeira Mieldazis, de 10 anos, em tratamento desde o começo do ano. Sua mãe, a médica Claudete Teixeira, conta que observava o menino constantemente inquieto. "Ele levantava no meio do jantar para buscar a mochila e mostrar alguma coisa que tinha feito na escola. Sempre esquecia as luzes acesas e não prestava atenção em nada", diz ela. De acordo com Claudete, Lucas já apresenta melhoras nítidas.

Segundo o psiquiatra Paulo Mattos, vice-presidente da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (Abda), há uma predisposição genética ao distúrbio, que pode manifestar-se logo nos primeiros meses de vida ou ser desencadeado por fatores psicológicos até os 7 anos. As crianças mostram alterações no processo de desenvolvimento neurológico e emocional. Ficam irritadiças, choram excessivamente nos primeiros meses de vida, movimentam-se bastante durante o sono e acordam várias vezes à noite. Quando começam a andar, precisam ser constantemente vigiadas pelos pais, caso contrário quebram seus brinquedos e aprontam outras artes do gênero. Na idade pré-escolar, há um desenvolvimento mais lento da fala, com omissões e distorções fonéticas, como trocar a letra r pela l. Em casa, correm o tempo todo, não conseguem ficar sentadas em frente da TV assistindo a um desenho ou filme, não têm paciência para brincar com um só brinquedo e não sabem ouvir um "não". Outras também convivem com a falta de coordenação motora, a dificuldade no desenvolvimento da noção espacial e a incapacidade de reconhecer símbolos gráficos semelhantes, como as letras b, p, q e d.

Como se vê, não é um diagnóstico trivial, pois corre-se o risco de uma abordagem simplista e errônea, isto é, enquadrar toda criança espoleta na categoria. Os pais devem procurar um especialista, para identificar a intensidade do problema e prescrever o melhor tratamento, que, em geral, lança mão de remédios. "Dependendo das manifestações clínicas, podem ser necessários complementos, como uma terapia fonoaudiológica ou psicopedagógica", explica o médico Enio Roberto de Andrade. "A chance de recuperação é muito boa." Quanto mais cedo se diagnosticar o problema, menores serão as conseqüências psicológicas no decorrer dos anos. Contudo, se nada for feito, a situação poderá até levar a casos mais preocupantes na idade seguinte – adolescentes que praticam atos de vandalismo, envolvem-se em brigas freqüentes, têm precocidade sexual, exibem condutas desafiadoras diante de pais e professores ou estão mais expostos ao consumo de drogas.

 

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