Eles cavaram
um
rombo bilionário
Entre
os donos das maiores dívidas com a
Previdência, há notórios caloteiros, falidos
que não honrarão seu compromisso e
empresários que estão tentando acertar
suas contas com o governo
Rodrigo
Vergara
Os
ministros das Finanças de dez países europeus reuniram-se
em Bruxelas para discutir um problema comum que diz respeito aos
aposentados do continente: a Previdência Social está
com as contas desequilibradas em toda a Europa. Se nada for feito,
o sistema previdenciário já tem data para entrar em
colapso. Sabe quando? No caso de Portugal e da Itália, a
crise chega em 2030. Isso mesmo: em trinta anos. Na Holanda, fala-se
em desajuste sério a partir de 2040. Na Espanha, caso persista
o desencaixe atuarial, um problema mais grave pode ocorrer em 2050.
Os governantes europeus decidiram discutir o problema com até
meio século de antecedência porque a adoção
de medidas preventivas nesse campo exige novos aportes de recursos.
Quanto antes isso for feito, menos sofre quem vai pagar a conta:
a sociedade.
O Brasil
jamais discutiu sua Previdência com a seriedade e a antecedência
que o assunto exige. O resultado é que o sistema não
vai quebrar dentro de trinta ou quarenta anos, como na Europa. Já
está quebrado. A data do colapso foi 1996, ano em que a Previdência
Social, conhecida por todos como INSS, passou a apresentar seguidos
balanços vermelhíssimos. Na rubrica INSS, o governo
arrecada 54 bilhões de reais por ano do empresariado e dos
trabalhadores, mas precisa de 100 bilhões para bancar as
aposentadorias e pensões do setor privado e do serviço
público. O buraco cresce anualmente em ritmo acelerado.
Além
de um descasamento entre receita e despesas, o INSS padece de outro
mal de grande magnitude: o calote. O total acumulado das dívidas
referentes à inadimplência e à sonegação,
segundo os dados mais recentes, chega a 109 bilhões de reais,
mais de cinco vezes o valor do patrimônio da Petrobras. Se
o governo conseguisse reaver essa centena de bilhões, possibilidade
apenas teórica, a Previdência estaria saneada pelo
menos até o ano de 2003. VEJA obteve uma relação
oficial produzida pelos computadores do governo com as 900 maiores
dívidas com a Previdência. O menor débito é
de 13 milhões de reais, o maior de 1 bilhão. Esse
punhado de 900 grupos endividados responde por mais de 35 bilhões
de reais, quase um terço do débito integral ao INSS.
"Na maioria dos casos, o dinheiro que deveria estar no bolso dos
velhinhos fica parado no bolso de alguns velhacos e as autoridades
não conseguem acabar com isso", comenta o deputado Luiz Antonio
de Medeiros (PFL-SP).
A
análise da listagem das megadívidas conduz a conclusões
muito curiosas. Uma delas: o governo emerge do cruzamento dos dados
como um dos grandes devedores. Parece piada, mas é verdade.
Brasília deve para Brasília e o mau exemplo
é seguido por diversas empresas públicas nas três
esferas de governo. No total, o poder público deve impressionantes
7,8 bilhões de reais ao INSS. Isso dá 1 de cada 4
reais devidos pelo grupo dos 900 maiores. O destaque da lista dos
super-900 é a Caixa Econômica Federal, acusada de dever
1 bilhão de reais referentes a impostos não recolhidos
sobre adicionais e bonificações salariais. Ela foi
o primeiro alvo de uma operação montada sobre grandes
empregadores de mão-de-obra. A direção da Caixa
não se manifesta sobre o débito e informa, por meio
de sua assessoria de imprensa, que só reconhece 15% da dívida.
O INSS sustenta a autuação e o valor.
Há
dívidas públicas que chamam a atenção
não apenas pelo valor, mas pelo descaso da autoridade governamental.
A Limpurb de Salvador, empresa da área de limpeza, foi criada
em 1979 pela prefeitura da cidade e nunca recolheu um tostão
aos cofres do INSS até 1997. Valor do papagaio: 252 milhões
de reais. A Companhia de Urbanização de Goiânia,
também estatal, funcionou por dezoito anos sem recolher um
centavo ao INSS. O débito, que atingiu a casa dos 155 milhões
de reais, começou a ser negociado três anos atrás.
O resultado da irresponsabilidade dos senhores prefeitos é
uma conta de 3 bilhões de reais remetida aos contribuintes.
Outro
setor de destaque na lista das 900 maiores dívidas brasileiras
com o INSS é formado pelas empresas que já não
existem mais. Isso mesmo. As massas falidas, tipo Cooperativa Agrícola
de Cotia, Encol e Mesbla, deixaram um papagaio somado de 4 bilhões
de reais equivalente ao que o governo federal previa investir
na área de saúde e educação em todo
o ano 2000. Como o patrimônio que restou após a falência
mal dá para cobrir as dívidas trabalhistas, esses
4 bi já são dados como perdidos. A análise
da listagem dos megadevedores leva a outras conclusões interessantes.
Entre as 500 maiores empresas em atividade no país, 50% são
estrangeiras. Já na lista das 900 maiores devedoras, só
5% são multinacionais. Ou seja, as companhias brasileiras
endividaram-se mais que as estrangeiras. Uma explicação
para isso é que os conglomerados estrangeiros são
dirigidos por uma cúpula profissionalizada. Os verdadeiros
proprietários da empresa, os acionistas, não perdoariam
a sonegação.
Uma
característica comum às devedoras gigantes: empresas
que lidam com o governo acumularam dívidas maiores que aquelas
que se entendem exclusivamente com o mercado. Basta dar uma olhada
no lado privado da lista, que deve 21 bilhões de reais para
a Previdência. Nesse conjunto, o primeirão é
o grupo dele: Wagner Canhedo, com 690 milhões de reais a
recolher. O dono da Vasp atua em dois setores controlados pelo Estado:
empresa aérea e firmas de ônibus, ramos que dependem
de concessão pública. Em segundo lugar na lista dos
grandalhões está o grupo dirigido pelo empreiteiro
Murillo Mendes, que contraiu uma dívida de 417 milhões
de reais.
A
terceira posição pertence a um desconhecido, o grupo
Ruas, dono de empresas de ônibus em São Paulo, que
tem um papagaio de 367 milhões com o INSS. O empresário
José Vaz Ruas, dono da companhia, informa que seu único
cliente, o prefeito Celso Pitta (governo, pois), não pagou
o que devia e ele ficou sem recursos. Os fiscais do INSS investigam
agora por que, recentemente, Ruas transferiu a sede de seu grupo
para um paraíso fiscal, o Uruguai. Segundo o departamento
de fiscalização do órgão, vários
devedores estão seguindo esse caminho e fogem rumo a paraísos
fiscais. A operação serve para livrar o patrimônio
dos sócios em caso de execução judicial. Só
nos últimos seis meses foram registrados doze casos de grandes
devedores que escapuliram.
O
governo possui todas essas informações em seu arquivo,
mas jamais extraiu de seus computadores qualquer listagem parecida.
O motivo é a lógica passiva com que o banco de dados
é administrado. É como se o programa tivesse sido
elaborado por pessoas não comprometidas com a tarefa de arrecadar
mais. Um exemplo da má qualidade dos números do governo:
o INSS não reúne as informações de acordo
com o empresário, mas por empresa. Isso significa que quatro
firmas de um mesmo dono podem dever 3 milhões cada uma sem
que ninguém perceba que há um sujeito devendo 12 milhões
de reais. O governo só acorda para os nomes por trás
dos débitos quando os valores atingem cifras astronômicas.
Claudio Rossi
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| O
advogado Oliveira Neves, cujo escritório tem dez andares:
aulas sobre como não pagar impostos |
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Da
lista dos 900 devedores faz parte um grupo de vinte firmas que acabou
armando o maior golpe da história da Previdência. Essas
empresas, todas da área de segurança, deixaram um
rombo de 600 milhões de reais. Como não pagavam impostos,
elas ofereciam seus serviços 30% abaixo dos valores do mercado.
Quando a falcatrua era descoberta, seus donos fechavam as portas
e desapareciam. No ano passado a lei mudou para acabar com essa
farra. A obrigação de recolher o imposto devido ao
INSS passou a ser da companhia que contrata os serviços da
firma de vigilância. Isso foi feito porque normalmente quem
contrata serviços de segurança é uma empresa
maior, que costuma ter algum patrimônio em seu nome. Desde
que a lei foi alterada, o ramo enfrentou uma quebradeira. A dívida
acumulada pelo setor chega a 2,1 bilhões de reais.
AP
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| Reunião
dos ministros das
Finanças dos países europeus: se nada for feito,
o sistema previdenciário na
Europa tem data para entrar em colapso. Sabe
quando? Daqui a trinta
anos. No Brasil, o sistema quebrou, mas a discussão
não começa |
A luta anti-sonegação é inglória. De
um lado, a tropa do governo trabalha com equipe reduzida. Os promotores
chegam a enfrentar bancas de vinte advogados atuando na defesa dos
empresários em falta com a lei. Nos últimos dez anos,
enquanto o número de empresas dobrou, o total de fiscais
do INSS caiu pela metade. O grupo de empresas visitadas pelos fiscais
caiu de 121 000 em 1995 para 55 000 no ano passado. Em 1999 a Previdência
conseguiu recuperar apenas 1,3 bilhão de reais em dívidas
velhas, um cisco no bolo total. Do outro lado, as firmas contratam
a peso de ouro os maiores especialistas em tributação
do país. O advogado paulista Newton de Oliveira Neves é
um deles. Seu escritório ocupa dez andares de um prédio
e é integrado por uma equipe de 180 advogados. No ano passado
ele faturou 30 milhões de reais. Sua especialidade? Orientar
a clientela a pagar pouco imposto. Seu bordão: "Toda, toda
(ele gosta de frisar) dívida fiscal pode ser questionada,
em 100% dos casos". Parece um exagero? Pois mais de 15.000
pequenos e médios empresários pendurados em dívidas
já atenderam ao apelo e participaram dos seminários
que o escritório promove para divulgar a cartilha de Oliveira
Neves. Seu chamado é música nos ouvidos dos endividados
e aflitos do Fisco.
Além
do apoio jurídico, os devedores contam com três grandes
armas. Uma é matemática. A Trevisan Auditores e Consultores
preparou uma simulação a pedido de VEJA. Uma
empresa que, em janeiro de 1996, deixasse de pagar 1 milhão
de reais ao INSS estaria, hoje, com uma dívida de 2,1 milhões
de reais, considerando-se as multas, naturalmente. Se essa empresa
tivesse ido buscar o dinheiro na rede bancária, esse débito
hoje seria o dobro: 4,7 milhões de reais. O cálculo
da Trevisan usou as menores taxas bancárias do mercado. Conclusão:
o empresário prefere deixar crescer o débito com o
Fisco a iniciar uma dívida com o banco. A segunda arma está
ligada ao campo da lógica. Quando a dívida é
pequena, executa-se o devedor. Se ela cresce demais, passa a ser
interesse do credor que o devedor não apenas sobreviva como
tenha condições de pagar o que deve.
Robson Moreira
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| Deputado
Medeiros: "O dinheiro dos velhinhos está na mão
dos velhacos" |
Advém dessa lógica a terceira arma pró-sonegação:
a anistia. Somente nos últimos cinco anos foram realizados
três grandes programas de anistia e refinanciamento de débitos
fiscais. Até abril passado, 27.000
empresas já haviam aderido ao último deles, o Refis
o Programa de Recuperação Fiscal. Por ele,
as empresas que admitem suas dívidas com o governo ganham
o direito de refinanciá-las em prestações muito
leves, de no máximo 1,5% do faturamento. As condições
de pagamento são excepcionais. Em média, estima-se
que as companhias tenham mais de cinqüenta anos para pagar.
As quatro empresas de ônibus do empresário Baltazar
José de Souza, décimo maior devedor privado do país
(152 milhões de reais), negociaram suas dívidas para
com o governo e começaram a pagar uma prestação
mensal de 25.000 reais. Nesse ritmo,
seu débito estará quitado em 2506 isso mesmo,
daqui a 506 anos.
Em
uma década, a dívida ativa da previdência, ou
seja, débitos em execução judicial, aumentou
28 vezes, de 2,8 bilhões de reais para 80 bilhões.
Para fazer frente ao rombo, o governo ordenou a elevação
da contribuição previdenciária, mas não
funcionou. Quem não pagava continuou inadimplente e muitos
que cumpriam suas obrigações em dia deixaram de fazê-lo.
Como a inadimplência subiu, as autoridades responderam com
nova elevação de imposto. O calote aumentou, e mais
uma vez as alíquotas foram ajustadas de forma a cobrir o
buraco. Há uma década, Brasília produziu um
aumento na contribuição previdenciária da ordem
de 100%. O Brasil assumiu a segunda colocação no ranking
das maiores alíquotas do planeta. A contribuição
do INSS equivale a 31% da folha de pagamento das empresas. Perde
apenas para Portugal, cuja taxação sobre a folha chega
a 34,75%. Criou-se um círculo vicioso que só reforça
a sonegação. É um modelo injusto, pois transfere
ao bom pagador a responsabilidade de custear a dívida que
o governo deveria cobrar dos sonegadores e inadimplentes.
Os
tribunais estão apinhados de ações de cobrança.
Há dez anos, uma ação fiscal era julgada num
prazo de seis anos. Hoje, leva mais que o dobro. Durante o processo,
uma parte das firmas quebra, outra fatia abandona o mercado e um
grupo simplesmente muda de ramo de atividade. No fim, só
10% das empresas comparecem para ouvir a sentença. Na prática,
um sonegador tem nove chances em dez de escapar.
Durante
sessenta anos, a Previdência brasileira deu lucros e ninguém
se importou com o amanhã. Mais do que isso, promoveu-se uma
farra com o dinheiro do vovô. Em vez de fazer poupança,
os políticos usaram os recursos para construir Brasília,
fazer a ponte RioNiterói e rasgar a Transamazônica.
O caixa entrou no vermelho no ano de 1996. Esse é o histórico
de um sistema do qual dependem 21 milhões de aposentados
da iniciativa privada e do poder público na esfera municipal,
estadual e federal e que apodreceu. A Previdência precisa
de 100 bilhões de reais por ano para funcionar. É
quanto custa pagar as aposentadorias e pensões, tanto as
do setor privado da economia quanto as do serviço público.
Acontece que o governo só consegue arrecadar 54 bilhões.
Os demais 46 bilhões necessários ao equilíbrio
são bancados pelo Tesouro Nacional com dinheiro oriundo de
outros impostos pagos por (quase) todos os cidadãos que trabalham.
Nos países do Primeiro Mundo, o alarme soa com grande antecedência,
de forma a evitar o surgimento de uma crise. No Brasil, a regra
é outra. Primeiro, deixa-se a crise chegar. Depois, avalia-se
como sair dela.
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OS
DOIS TIPOS DE DEVEDOR
O caixa da Previdência é montado sobre a folha
de pagamento das empresas. Cada empregado com carteira recolhe
um porcentual entre 8% e 11% cobrado sobre seu salário,
até um teto de 1 300 reais. A firma entra com outros
20% sobre a folha. Autônomos pagam de 10% a 20% sobre
o rendimento mensal. Esse é o lastro dos 54 bilhões
de reais com que a Previdência paga os aposentados.
Existem dois tipos de devedor: o inadimplente e o sonegador.
Ambos provocam o mesmo efeito sobre o caixa do governo, já
que não pagam. A diferença é que o inadimplente
reconhece sua dívida e o sonegador é um fora-da-lei.
Este recolhe a contribuição dos empregados e,
por meio de fraude, não repassa todo o dinheiro ao
governo. A sonegação sobrevive graças
à baixa qualidade da fiscalização e à
morosidade da Justiça, na qual um empresário
pode protelar seu pagamento por até quinze anos.
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