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Decisão da Suprema Corte dá vitória a George W. Bush

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Um presidente, afinal

O republicano George Bush vence a
batalha judicial e ganha a Casa Branca
com mais de um mês de atraso

AP

O democrata Al Gore: briga na Justiça e discurso elegante


O que George W. Bush vai fazer agora que foi finalmente sacramentado como o próximo presidente dos Estados Unidos? Essa questão fundamental praticamente sumiu da mente dos americanos durante as tormentosas cinco semanas em que o resultado das eleições ficou na dependência do tapetão judiciário – mas é tudo o que importa desde a semana passada, quando finalmente a Suprema Corte mandou parar com as infinitas recontagens de votos no Estado da Flórida, dando a vitória ao republicano. O candidato democrata, o vice-presidente Al Gore, foi à televisão e, com elegância tardia, concedeu a vitória ao adversário. Nesta segunda-feira, Bush deve ser ungido presidente pelo Colégio Eleitoral, apesar de ter recebido na contagem nacional 300.000 votos a menos que o adversário. É a primeira vez que isso acontece em mais de 100 anos e a terceira na história da democracia americana. É a segunda vez que um filho de ex-presidente chega à Casa Branca. O outro foi John Quincy Adams, eleito em 1824, filho de John Adams, o segundo presidente do país. Separados por quase 200 anos, esses dois primeiros-filhos compartilham outras peculiaridades. Ambos passaram a usar um nome intermediário para se diferenciar do pai homônimo (o W. de Bush significa Walker). Ambos perderam por estreita margem na votação popular, mas conseguiram maioria no Colégio Eleitoral. Como a eleição americana é feita com base estadual, o candidato com maioria num Estado leva todos os seus votos eleitorais. Isso explica por que, após abocanhar os disputadíssimos 25 votos da Flórida por uma diferença de pouco mais de uma centena de votos populares, Bush bate Gore por 271 a 267 no Colégio Eleitoral.

Reuters

Manifestantes diante da Suprema Corte: votação apertada vai para o tapetão

O que Bush vai fazer depois de se mudar para a Casa Branca, no dia 20 de janeiro, tem tudo a ver com outra questão: quem é e o que pensa o presidente eleito. No momento, ele é o governador do Texas, o maior Estado em tamanho e o segundo em riqueza. Poder-se-ia dizer que sua eleição foi inusitada por coroar uma carreira de apenas seis anos em cargo eletivo. Mas quando se trata de um cl&atilsidente (o pai), governadores (seu irmão Jeb governa a Flórida) e um senador (o avô, Prescott), é possível imaginar que a política esteja impressa no material genético. O negócio da família Bush é política e petróleo. Nem é preciso dizer como as duas atividades estão misturadas até o fundo de cada poço. Bush pai é um homem da Nova Inglaterra e o próprio George filho nasceu em Connecticut, um Estado vizinho a Nova York. A família mudou-se para a cidade de Midland, a capital dos campos petrolíferos texanos, quando o primogênito tinha 2 anos de idade. Entre os republicanos dos dois Estados há um formidável abismo cultural no que diz respeito à política e ao modo de vida. Os republicanos da Costa Leste vestem-se de gravata, são elitistas até a ponta dos colarinhos engomados e levam muito a sério a opinião de acadêmicos conservadores. Os republicanos da Costa Oeste e do Sul dispensam gravata, mantêm um namorico populista com as minorias e os pobres e, acima de tudo, desprezam os esnobismos (e os intelectuais) do Leste.

AFP

George Bush, presidente eleito: herdeiro de um clã político


Filho mais velho, George demorou para assumir o legado familiar. Na verdade, sua vida divide-se em duas partes: a mais recente, que é pública e bem-sucedida, e o passado, que quer enterrar e sobre o qual se recusa a comentar. Ele formou-se em história na Universidade Yale, o templo da elite americana, mas não foi um aluno brilhante. Em 1977, fez mestrado em administração em Harvard (outra meca dos endinheirados). Quando terminou o curso, julgou-se preparado para assumir os negócios ligados ao petróleo. Em plena crise mundial do petróleo, as empresas do ramo tiveram lucros enormes. O dinheiro vinha fácil, assim como as noitadas e as bebedeiras. Bush não sossegou até conhecer Laura Welch, com quem se casou em 1977 (
veja quadro). Tentou então, sem sucesso, eleger-se deputado. Continuou bebendo até que a esposa ameaçou deixá-lo cinco anos após o nascimento de suas únicas filhas, as gêmeas Barbara e Jenna. Além de largar o álcool, parou de fumar e se tornou um religioso praticante, influenciado por sua mulher, metodista. Antes era presbiteriano. Tinha 43 anos quando seu pai se tornou presidente, em 1989. Durante algum tempo foi assessor na Casa Branca, mas acabou voltando para o Texas, onde, movido por uma paixão de infância pelo beisebol, pegou 600.000 dólares emprestados e comprou parte do Texas Rangers, time da liga principal americana. Sua fatia era de apenas 2%, mas tornou-se a face do time. As aparições nos estádios do Texas tornaram-no uma figura pública. Mais tarde vendeu suas ações com lucro de 2 500%. Com a alta popularidade de seu pai após a vitória na Guerra do Golfo, Bush vislumbrou um futuro dentro da política. Em 1994, dois anos depois de o pai perder a reeleição para Bill Clinton, candidatou-se ao governo do Texas. A governadora democrata, que disputava a reeleição, chamava-o desdenhosamente de "príncipe George". À frente do Texas, Bush notabilizou-se pela austeridade fiscal. Cortou impostos e melhorou o sistema educacional. Sua popularidade o levou à reeleição, em 1998.

AFP

Eleitores de Bush comemoram a vitória em Washington: pouco tempo para a transição


O velho Bush não se integrou realmente aos costumes políticos de seus pares texanos. O jovem Bush é, sob certa medida, uma excelente simbiose, apesar de gostar de se exibir como um autêntico caubói. Aristocrata por pedigree e formação, ele foi capaz de reunir as duas pontas do Partido Republicano com uma campanha rigorosamente centrista. É o que ele chama de "republicano com compaixão". Ou seja, fiel ao conservadorismo partidário, mas com fartas doses de preocupação social. O eleitor republicano típico é branco, casado, mais rico e mais religioso que o democrata. Por princípio, acredita no potencial do indivíduo para prosperar, desprezando a ajuda do governo. Os democratas, em contrapartida, são mais intervencionistas, tradicionalmente ligados aos sindicatos e às minorias. Os republicanos deram magníficos presidentes – a prosperidade durante os dois mandatos do democrata Bill Clinton é, em boa parte, herança da política liberal do republicano Ronald Reagan, nos anos 80. O cimento que uniu os republicanos nessas eleições foi a convicção de que o governador do Texas era a única esperança para derrotar o candidato de Clinton, pessoa que o partido considera o mais detestável entre os 6 bilhões de habitantes do planeta. Durante a campanha para a Casa Branca, Bush tentou sustentar uma plataforma que fosse a síntese do pensamento das duas correntes principais de seu partido, a ultraconservadora e a moderada. O resultado, como não poderia deixar de ser, foram promessas contraditórias e vagas. Ele é firmemente a favor da pena de morte – durante seu governo mais de 140 condenados foram executados no Texas, um recorde –, mas ninguém sabe com certeza o que pretende fazer a respeito do aborto. A legalidade do aborto é um assunto que divide profundamente os republicanos. Com exceção de um corte de impostos de 1,6 trilhão de dólares nos próximos dez anos e da construção de um sistema antimíssil, as principais preocupações de Bush são na área social.

A primeira batalha interna pelo butim da Presidência está sendo travada no governo de transição. A questão é quem vai indicar os nomes para preencher mais de 7.000 cargos de confiança. O homem que está cuidando do assunto é o vice-presidente eleito Dick Cheney, raposa com sólidas credenciais conservadoras e secretário da Defesa de Bush pai. Outro auxiliar que vai passar de pai para filho é o general Colin Powell, vencedor da Guerra do Golfo, que fica com o Departamento de Estado. Uma particularidade de Powell é a cor – desde os anos 30 pensava-se que não havia lugar para negros entre os republicanos. É verdade que 90% dos negros votaram em Gore. Mas uma elite conservadora negra (da qual fazem parte a provável assessora de Segurança Nacional Condoleezza Rice e o juiz da Suprema Corte Clarence Thomas) está aí para mostrar que as coisas já não são assim, digamos, preto e branco.

Muita gente teme que a baderna das apurações deixe o presidente numa posição frágil, quase de ilegitimidade. Não parece ser o caso, pois o sentimento geral no país é de alívio com o fim da confusão. Talvez a maior dificuldade esteja em impor um programa tão vago a um país dividido por igual em dois campos políticos rivais. O total equilíbrio entre os dois partidos não é conseqüência de divergências ideológicas. Resulta de um outro fenômeno moderno: a transformação da política num produto como qualquer outro. As duas campanhas gastaram perto de 1 bilhão de dólares em anúncios na TV, pesquisas de opinião pública e outros recursos próprios do mundo dos negócios. A opinião dos candidatos passou a oscilar ao sabor do que liam sobre as preferências dos eleitores, captadas pelas equipes de pesquisa. "O resultado", escreveu o Wall Street Journal, "foi que os candidatos se transformaram na Coca-Cola e na Pepsi." Suas estratégias de marketing eram tão perfeitas que cada um deles conquistou metade do mercado. Bush foi eleito com 49,8 milhões de votos contra 50,1 milhões de Gore – diferença de 0,3%. No Senado, republicanos e democratas têm cada um cinqüenta cadeiras. Na Câmara, a vantagem republicana é de apenas nove cadeiras. Nas últimas duas décadas, pareceu que o estilo e a ideologia dos mandachuvas iriam produzir maiorias nacionais. Foi o que ocorreu com o presidente Ronald Reagan, com sua proposta de governo mínimo, com o presidente da Câmara Newt Gingrich, que queria o retorno à moralidade conservadora, e com Bill Clinton, com seu jeito feliz de governar. Mas todos passaram sem criar um novo consenso. O que George W. Bush vai fazer agora que já não pode orientar suas posições pelas pesquisas de opinião pública?

 

O tesouro do presidente

No comando do país mais rico do mundo, George Bush vai administrar somas fabulosas

O PIB dos Estados Unidos é de 7,9 trilhões de dólares, quatro vezes o total de riquezas produzidas nos 33 países da América Latina

O orçamento do governo americano é de 1,7 trilhão de dólares, dezessete vezes o do brasileiro

Os gastos militares dos Estados Unidos atingem 280 bilhões de dólares ao ano, o equivalente ao PIB da Argentina

A despesa de 152 bilhões de dólares com a saúde pública americana representa quase oito vezes o total do comércio entre os países do Mercosul

A conservação das estradas americanas consome por ano 29 bilhões de dólares, quantia que corresponde à soma dos PIBs do Uruguai e do Paraguai

O valor de 1,8 bilhão de dólares gasto na manutenção dos parques nacionais americanos representa cinco vezes a verba anual do Ministério do Meio Ambiente do Brasil

Fontes: Office of Management and Budget e SOF

 

A nova dona da Casa Branca

AP

Laura Bush: discrição e apoio ao marido


Esqueçam o estilo agressivo de Hillary Clinton. Laura Bush, a próxima primeira-dama, só quer acompanhar o marido, sem jamais lhe fazer sombra. Como mulher do governador do Texas, ela limitou-se às campanhas beneficentes e à divulgação de programas de saúde. Ainda assim, desempenhou na carreira do marido importância tão decisiva quanto a de Hillary na de Bill Clinton. Foi Laura quem, com ameaças de divórcio, obrigou George Bush a abandonar a bebida, em 1986. Ele não apenas largou o copo, como se converteu à religião da esposa, a metodista. Laura Welch e George W. Bush casaram-se aos 31 anos, em 1977, depois de um breve namoro de três meses. De família de classe média, ela trabalhava como bibliotecária. Em 1981, tiveram as gêmeas Jenna e Barbara, únicas filhas do casal. O único trauma conhecido de sua existência pacata ocorreu aos 17 anos. Seu carro trombou com o do namorado, que morreu no acidente. Desde o início da campanha pela Casa Branca, a futura primeira-dama americana recebe lições de como se comportar em solenidades oficiais e procura a cor certa para o cabelo. Já experimentou vários tons de castanho. Quando Bush candidatou-se pela primeira vez, Laura o fez prometer que, se eleito, ela jamais teria de fazer discursos. Ela ri quando conta que foi a única promessa que o marido não cumpriu.

 

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