Falta só
o dinheiro
O
juiz reaparece, mas não se pode dizer o
mesmo do dinheiro que ele ajudou a fazer sumir
Ed Ferreira/AE
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| Os
dois Lalaus: à esq., gordo e confiante, há sete meses. À dir.,
28 quilos mais magro, com cabelos desbotados |
Já
há quem diga que a rendição do juiz Nicolau
dos Santos Neto foi a última boa notícia do caso envolvendo
o desmantelamento da quadrilha que surrupiou as verbas do Fórum
Trabalhista de São Paulo, obra de onde foram desviadas dezenas
de milhões de reais. Advogados e promotores experientes alertam
para o fato de que os responsáveis pela investigação
têm pela frente dois grandes desafios. O primeiro consiste
na recuperação do dinheiro desviado. O segundo é
transformar em provas materiais, daquelas que podem ser apresentadas
num tribunal, a extensa relação de suspeitas levantadas
desde que surgiram as primeiras denúncias, há dois
anos. Há ainda um terceiro desafio: manter Lalau na cadeia.
Paulo Liberti/Ag. Estado
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| O
genro-delator: Marco Aurélio de Oliveira denunciou o ex-sogro
porque ele se negou a lhe dar dinheiro |
O ex-juiz responde a dois processos. Em um deles é acusado
de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Em outro, de
peculato, falsidade ideológica, uso de documento falso e
formação de quadrilha, juntamente com os empresários
Fábio Monteiro de Barros Filho e José Eduardo Teixeira
Ferraz e o ex-senador Luiz Estevão. Se for condenado por
todos os crimes dos quais é acusado, poderá pegar
dezoito anos de prisão no máximo. Mas isso não
significa que ele passará esse tempo todo grades. De acordo com as regras processuais em vigor, depois de
cumprir um sexto da pena encarcerado (três anos, no caso),
um detento pode concluir o que falta em regime de prisão
domiciliar. "Não vai tardar para ele sair. A sociedade deve
estar preparada", alerta o criminalista Flavio Gomes, de São
Paulo.
Até
o final da semana passada, a polícia sabia muito pouco sobre
os 226 dias em que Nicolau esteve desaparecido. O depoimento que
o ex-juiz deu à Justiça na quarta-feira não
ajudou a esclarecer os fatos ligados à fuga. Diante do juiz
Casem Mazloum, Lalau voltou a negar seu envolvimento com as irregularidades
na construção do prédio do TRT e atribuiu a
origem de sua fortuna a uma herança. A polícia abriu
um inquérito para investigar quem ajudou o juiz a se esconder.
Os investigadores querem saber qual o papel do advogado Francisco
Azevedo. Ele vive com a filha mais velha do juiz, Maria Inês,
e teria sido encarregado de cuidar dos interesses financeiros da
família durante a fuga de Lalau. Em torno desse personagem
há uma curiosidade. O escândalo envolvendo Nicolau
começou pela denúncia de um genro, Marco Aurélio
Gil de Oliveira, que revelou ao Ministério Público
que o juiz mantinha contas no exterior e um apartamento luxuoso
em Miami. Agora os holofotes se voltam em direção
ao novo genro. Francisco Azevedo já é considerado
pela polícia peça fundamental para desvendar o mistério
por trás da fuga de Nicolau. Ele foi visto no Uruguai tratando
da transferência de recursos do juiz no exterior e durante
a fuga teria feito vários contatos que os policiais consideram
suspeitos.
Monica Zarattini/AE
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| O
genro-suspeito: a Polícia Federal acredita que Francisco Azevedo
ajudou Nicolau a fugir e a se esconder |
Durante a fuga, a rotina de sua família foi profundamente
alterada. A filha mais nova do juiz, Maria Virgínia, que
sofre de uma doença neurológica, foi internada três
vezes devido a seu estado de saúde e ficou morando sozinha
depois que os três empregados da casa pediram demissão,
em setembro. Maria Cristina, a filha do meio, solicitou licença
do emprego no TRT e se mudou da casa onde morava em São Paulo.
Maria Inês passou a trabalhar menos. Ela e Francisco Azevedo
dedicavam boa parte do tempo a reuniões com os advogados
de Nicolau.
O
receio dos procuradores agora é que as suspeitas levantadas
sobre Lalau não possam ser comprovadas em sua totalidade.
Nos processos, cabe a quem denuncia provar que aquilo que parece
ser muito estranho é também ilegal. Por mais que o
acusado esteja mentindo, a tarefa de sustentar as denúncias
cabe a quem apura, ou seja, aos procuradores. Lalau só precisa
se esquivar. E boa parte desse processo que envolve o prédio
é baseado em coisas estranhas, como os telefonemas trocados
entre Lalau e Eduardo Jorge, ex-assessor direto do presidente Fernando
Henrique. Na semana passada, surgiram outras ligações
suspeitas. Foram localizados 174 telefonemas do juiz para o gabinete
do general Augusto Heleno Ribeiro Pereira, que trabalhava com o
general Alberto Cardoso, chefe do Gabinete de Segurança Institucional
da Presidência.
J. J. Leister/AE
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| As
três filhas de Nicolau em visita à cadeia: vida estilhaçada
e reclusa desde o sumiço do pai |
Do total desviado na obra, 169 milhões de reais, os procuradores
descobriram que 30 milhões circularam por contas de Lalau
e 70 milhões passaram por contas de Luiz Estevão.
Só que ninguém sabe onde o dinheiro foi parar depois
dessas escalas e em nome de quem está. Localizar o destino
das propinas sempre foi tarefa complexa. Entre 1989 e 1991, a advogada
Jorgina de Freitas participou de uma quadrilha que desviou 1 bilhão
de reais dos cofres da Previdência. Boa parte acabou depositada
em contas no exterior. A principal envolvida na operação
acabou condenada, fugiu, foi recapturada, passou alguns anos na
prisão e cumpre o resto de sua pena em regime semi-aberto.
Mas e o dinheiro? A maior parte do volume desviado continua desaparecida.
Em quase dez anos de investigações, pouco mais de
90 milhões de reais relacionados à gangue voltaram
para os cofres públicos. Há duas semanas, a polícia
descobriu uma nova conta bancária utilizada por Jorgina em
Luxemburgo.
Se
a localização das contas for bem-sucedida, terá
início uma batalha jurídica pela repatriação.
Os paraísos fiscais protegem seus correntistas ao limite.
No Uruguai, onde se suspeita de que o juiz tenha algumas contas,
as regras são severas. Desde que começou a operar
como paraíso fiscal, no começo dos anos 70, as autoridades
bancárias só abriram uma exceção para
permitir o rastreamento de contas. Tratava-se de um traficante do
cartel de Cali.
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