Telefone
sem fio
Pepe Casals
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Uma jornalista pernambucana decidiu entrevistar-me sobre o cinema
digital. Mandou-me algumas perguntas pelo correio eletrônico.
Errou o título do filme a que se referia a entrevista.
Pior: errou o nome de seu entrevistado. Chamou-me de Clóvis.
Eu! Clóvis! Presumo que seja esse o significado de globalização.
Pernambuco nem tem água encanada, mas está por dentro
de cinema digital e correio eletrônico. O único problema
é que as informações vão sendo desvirtuadas
ao longo do caminho, como naquela brincadeira de criança,
o telefone sem fio. Quando chega ao fim da fila com o Brasil
em penúltimo lugar do globo e Pernambuco em último
, Diogo virou Clóvis. E sabe-se lá o que aconteceu
com o cinema digital.
Há também quem tema os efeitos econômicos
da globalização, como demonstram as discussões
em torno da Alca, o acordo de livre comércio com os Estados
Unidos. Nesse ponto, eu ficaria mais tranqüilo. É
a velha paranóia latino-americana de que os países
ricos só pensam em nos explorar. O historiador uruguaio
Eduardo Galeano contribuiu muito para difundir essa idéia.
Uma geração inteira foi doutrinada por seu livro
As Veias Abertas da América Latina, de 1971. Eu,
por exemplo, estudei-o no colegial. Um leitor bem mais zeloso
que eu foi o subcomandante Marcos, líder da guerrilha zapatista,
no México. Volta e meia leio entrevistas em que Galeano
ataca a globalização, dizendo que o Primeiro Mundo
enriquece à custa do Terceiro, em particular da América
Latina.
Infelizmente, o que acontece é o exato contrário:
a América Latina é uma miséria porque os
países ricos nunca se interessaram em nos explorar. Espanha
e Portugal deixaram-nos às moscas durante boa parte do
período colonial, preferindo concentrar seus esforços
em outras direções. Quando passamos para os Estados
Unidos, a história se repetiu: eles sempre nos consideraram
a mais ínfima de suas prioridades. Nos últimos cinqüenta
anos, os americanos financiaram a reconstrução da
Europa, venceram a corrida armamentista contra a União
Soviética, meteram-se em duas guerras no Extremo Oriente
e criaram confusão atrás de confusão no Oriente
Médio. Enquanto isso, a América Latina ficou por
conta da terceira linha dos burocratas da CIA.
Os países ricos não são ricos por acaso.
São ricos porque sabem ganhar dinheiro. E a América
Latina nunca lhes pareceu um negócio muito promissor. Li
na edição retrasada de VEJA que os palestrantes
mais requisitados do Brasil ensinam "motivação no
trabalho". Isso quer dizer que, sem uma motivação
extra, sem um empurrãozinho vindo de fora, a gente tende
ao ócio, à acomodação. Impossível
dinheiro desse jeito. É sintomático que os
países que mais investem na América Latina, proporcionalmente
à própria riqueza, sejam Espanha e Portugal. Não
o fazem por esperteza, mas porque chegaram tarde ao capitalismo
e encontraram ocupados todos os mercados mais rentáveis,
restando-lhes apenas o nosso quintal. Não sei se é
um consolo para Eduardo Galeano, o subcomandante Marcos e outros
valorosos inimigos latino-americanos da globalização,
mas a minha suspeita é que Espanha e Portugal vão
entrar pelo cano, perdendo seus investimentos por aqui. É
a nossa vingança contra séculos de espoliação
colonial: vamos afundá-los junto conosco.