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Gustavo Franco

Um grande eleitor

"Não sabemos quem são os candidatos para
a próxima eleição presidencial nem o que vão
propor. Essas novas informações não estão nos
preços e vão mexer um bocado com os mercados
quando ficarem mais claras"


Ilustração Ale Setti


Pouca coisa pode ser mais irritante para os políticos, qualquer que seja sua extração ideológica, do que ouvir de um zeloso assessor (com pouco apego a seu emprego) que "o mercado" não vai gostar de determinada postura. Os políticos gostam de imaginar que "o mercado" é apenas um poleiro de especuladores, sempre em oposição aos interesses do povo, de modo que deve ser contrariado e mesmo maltratado.

Existem outros que acreditam que "o mercado" é a instituição central de uma economia capitalista como a nossa e que deve ser tomado como o segmento mais bem informado e influente de uma outra entidade, muito mais temida pela classe política: a opinião pública. Assim sendo, as mensagens do mercado devem ser lidas com cuidado e levadas muito a sério.

Curiosamente, a rejeição dos políticos à "tirania do mercado" é simétrica à cega obediência aos "marqueteiros" e suas pesquisas de opinião, sem as quais candidato que se preza não sai de casa. Hoje em dia, como se sabe, pesquisas são feitas continuamente, avaliando cada passo do candidato, cada detalhe de seu discurso e indumentária, de tal sorte que a espontaneidade se reduz em nome da construção "científica" de um personagem. Mas mesmo assim não há tanta segurança quanto aos resultados. Os políticos sabem que a opinião pública pode ser caprichosa e desconcertante, às vezes irracional e insolente, mas consistentemente utilitária e emocional. E ainda por cima muito difícil de interpretar. Exatamente como os veredictos do mercado.

Alguns dos mercados financeiros mais importantes, como a bolsa de valores ou o mercado de câmbio, têm uma característica que os economistas designam como "eficiência". Um mercado eficiente é aquele em que todos sabem de tudo que há para saber, inclusive, e principalmente, o que há de previsível sobre o futuro. Num mercado como este, se o leitor perguntar a um profissional sobre o futuro, a resposta será simples: "Está no preço". O que não está no preço é a surpresa, o imprevisível, a informação nova e diferente da que se esperava. É isso que faz os mercados desabarem, ou estourarem em euforia. Por isso mesmo, "o mercado" é uma espécie de pesquisa de opinião em tempo real, onde toda informação emitida pelos candidatos repercute, para o bem ou para o mal, todo o tempo, indicando a média das opiniões sobre o impacto na economia de cada movimento do candidato.

Hoje sabemos que os resultados das pesquisas eleitorais são eventos que alteram o comportamento dos candidatos e dos eleitores. Tanto é que a legislação eleitoral estabelece regras para a divulgação de pesquisas e existe grande preocupação quanto à manipulação de seus resultados. O que se vislumbra para a próxima eleição presidencial é um cenário de incerteza em que nem mesmo sabemos quem serão os candidatos e menos ainda o que vão propor. Essas novas informações não estão nos preços e vão mexer um bocado com os mercados quando ficarem mais claras.

Candidato que fizer os mercados desabarem quando disser alguma coisa polêmica fará uma grande bobagem em não perceber que perdeu uma boa oportunidade de ficar calado. Atacar "o mercado", na crença de que se está agredindo "especuladores e banqueiros", será o beijo da morte para algumas candidaturas, e por uma razão muito simples: a riqueza destruída não é dos bancos, mas de poupadores, uma classe muito necessária para o crescimento do país e muito maltratada nos últimos anos.

Nas próximas eleições, mercê da indefinição, da globalização e da flutuação cambial, o mercado poderá ter um papel importante na definição dos programas e para os resultados. Isso não significa um alinhamento com "a direita" e rejeição automática da "esquerda". O mercado sabe que será difícil para o governo transformar o projeto de reformas e responsabilidade fiscal, encampado pela banda boa do governo, em um projeto popular. Sabe também que a oposição terá dificuldades em compatibilizar seus projetos populares com o conceito de responsabilidade fiscal. O mercado não tem lealdades: vai ficar com quem chegar mais rápido ao meio-termo e será, como no passado, um importantíssimo formador de opinião.

 

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central
(gfranco@palavra.inf.br)

 

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