Edição 1 620 - 20/10/1999
 

Drogas

Barato total

Consumo de maconha supera
o do álcool nas universidades

Consuelo Dieguez

  Um sinal de alarme foi dado na semana passada com a divulgação de uma pesquisa sobre o uso de drogas no meio universitário do Rio de Janeiro. Os jovens estão consumindo mais maconha do que álcool. A constatação está no estudo "Universidade, educação e drogas", organizado pelo psicanalista Dalcy Fontanive, da Universidade Federal Fluminense, UFF. A revelação é surpreendente não tanto pelos efeitos da maconha sobre o organismo, que podem ser tão danosos quanto os do álcool, mas principalmente porque pela primeira vez se verifica que o uso de uma droga ilícita superou o de uma droga lícita. Além do perigo do vício em si, é preocupante a aproximação dos estudantes com o mundo do tráfico. Afinal, não se compra maconha no bar da esquina ou no supermercado, como acontece com a cerveja e a vodca.

Para chegar a essa conclusão, foram ouvidos durante dois anos 2.500 alunos e 88 professores de quatro universidades do Estado duas públicas e duas privadas. A pesquisa mostra também que a iniciação à maconha e ao álcool ocorre cada vez mais cedo: entre 15 e 18 anos. Outro dado espantoso é que o número de mulheres que consomem maconha, cigarro e antidepressivos superou o de homens. A preferência pela maconha foi revelada por 5,6% dos entrevistados. Não se está falando aqui de tragadas esporádicas, mas de dependentes que não podem passar um dia sem a droga. Esse resultado é agravado por outra descoberta não menos alarmante. Grande parte dos usuários consome a droga no interior da própria universidade. Entre os que fumam maconha, 40% admitiram consumir a droga no interior do campus. De uma forma ou de outra, esses estudantes se sentem autorizados a cair no fumacê dentro dos muros universitários. "É imprescindível que as universidades adotem programas agressivos de prevenção às drogas", afirma Fontanive.

Campanhas preventivas Segundo a pesquisa, os estudantes ouvidos não parecem preocupados com os malefícios do uso de drogas como maconha e cocaína. Indagados se desejariam deixar o vício, apenas os fumantes de cigarro mostraram interesse em parar. Os números são estes: 57% dos tabagistas gostariam de largar o vício e só 14% dos usuários de maconha e 33% dos cocainômanos julgariam aconselhável fazer o mesmo. Sinal de que as campanhas preventivas contra o fumo, que associam o tabaco a doenças graves, estão surtindo efeito. O que, infelizmente, ainda não aconteceu com as outras drogas. Fontanive considera os programas preventivos fundamentais nas universidades. "É muito mais fácil prevenir do que tratar um jovem dependente", explica. A UFF criou recentemente um curso que ensina técnicas de prevenção aos professores que não sabiam como lidar com o problema. "O trabalho de prevenção tem de ser muito bem feito porque, em vez de desestimular, ele pode acabar aguçando ainda mais a curiosidade dos jovens pela droga", afirma o psicanalista.

Foto: Rogério Montenegro

 
 

 




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