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O cobiçado tesouro dos índios
Enquanto o Congresso decide sobre
a mineração em áreas indígenas,
empresas
iniciam nova corrida do ouro
Alexandre Oltramari
Eles
são pouco mais de 11.000. Vivem isolados
em dezenas de aldeias no norte do Brasil e ocupam uma área do tamanho
de Portugal. Ali, com um habitante para cada 9 quilômetros quadrados,
a densidade populacional é menor que a do Deserto do Saara. Não conhecem
a escrita, andam praticamente nus e produzem apenas o essencial para sobreviver.
Para um forasteiro, parece que os índios ianomâmis, considerados um dos
povos mais isolados e primitivos da Terra, vivem felizes e tranqüilos
na selva amazônica. Não é exatamente assim. No final da década passada,
durante o auge da febre garimpeira, milhares de aventureiros invadiram
Roraima em busca de ouro. Nessa época, a terra dos ianomâmis chegou a
produzir 2 toneladas do mineral por mês, o dobro de Serra Pelada. No início
desta década, a Polícia Federal começou a remover os garimpeiros da reserva.
Agora, às vésperas da virada do milênio, os índios estão prestes a assistir
a mais uma corrida do ouro em suas terras. O território ianomâmi é o alvo
mais cobiçado de um negócio fabuloso: a mineração em áreas indígenas.
A diferença é que, desta vez, a invasão promete ser civilizada.
André Penner
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Os índios ianomâmis,
que vivem numa área
do tamanho de Portugal:
alvo principal |
Desde a promulgação da Constituição, em 1988, a mineração em reservas
de índios está parada no Brasil. A lei aprovada pelo Congresso permitia
a exploração das riquezas minerais, mas, como não havia uma norma definida,
todas as atividades foram suspensas. Como a regulamentação da lei nunca
ficou pronta, proliferou nas nações indígenas o garimpo ilegal, que não
paga impostos, polui os rios e às vezes dizima índios a bala. Em 1993,
para citar um caso, garimpeiros tomaram a reserva ianomâmi e, numa sucessão
de três ataques, mataram setenta índios. Os homens ianomâmis foram mortos
a tiros, as mulheres esfaqueadas e as crianças degoladas. Foi preciso
que se passassem onze anos desde a promulgação da Constituição, período
em que morreram dezenas e dezenas de índios, para que as instituições
decidissem agir. Até o final deste ano, o Congresso deve votar um projeto
de lei, de autoria do senador Romero Jucá (PFL-RR), regulamentando a mineração
nas reservas. O projeto já foi aprovado pelo Senado e deve ser votado
pelo plenário da Câmara nos próximos meses. O governo, que tem o apoio
da maioria dos deputados, colocou o caso em sua lista de prioridades.
Se o projeto for aprovado, e tudo indica que será, os 561 territórios
indígenas, que ocupam uma área do tamanho de Alemanha, Bélgica, Espanha
e Portugal somados, poderão ser liberados para a mineração a partir do
próximo ano. A Amazônia é o alvo principal. De cada 10 hectares de terras
indígenas, 9,8 ficam na chamada Amazônia Legal, que abrange nove Estados
das regiões Norte e Centro-Oeste. Estima-se que, apenas no subsolo da
Amazônia, exista 1 trilhão de dólares em minérios como ouro, platina,
diamante, ferro e chumbo. Para que se tenha uma idéia do que isso representa,
basta dizer que o PIB brasileiro, o total de bens e serviços produzidos
no país, foi de 775 bilhões de dólares no ano passado. Pela lei que tramita
no Congresso, nenhuma área indígena poderá ser entregue às mineradoras
sem o consentimento dos índios. Se eles concordarem, e a empresa candidata
cumprir todas as exigências legais, caberá ao Congresso decidir sobre
a autorização. As mineradoras terão de pagar uma taxa aos índios para
fazer pesquisa. Em caso de exploração de minérios, eles receberão royalties,
que variam entre 2% e 3% do faturamento bruto de quem explorar a área.
Mercado
nervoso – "A pior situação é a que
está aí. Os garimpeiros não pagam impostos, dão migalhas aos índios e
ainda causam danos ao meio ambiente", diz o senador Romero Jucá.
Com um tesouro desses sob a terra, e a iminente liberação para pesquisa
e lavra de minérios, o mercado anda nervoso. O Departamento Nacional de
Produção Mineral, DNPM, órgão do Ministério das Minas e Energia, já recebeu
6.892 pedidos de pesquisa mineral em 122 áreas indígenas
na Amazônia Legal. Um levantamento inédito do Instituto Socioambiental,
ISA, mostra que os dez territórios mais cobiçados respondem por mais da
metade dos requerimentos de pesquisa. "Não se sabe o potencial mineral
exato das áreas indígenas", diz o geólogo Elmer Prata, ex-diretor
do DNPM e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Geologia. "A única
coisa que se conhece são os garimpos de ouro dos ianomâmis."
O relatório do ISA revela que, entre os requerimentos de pesquisa cadastrados
no DNPM, o ouro é, de longe, o principal interesse das mineradoras. Representa
mais de 60% do total de pedidos para a realização de pesquisas em territórios
indígenas na Amazônia Legal. Entre as 287 empresas que estão de olho no
ouro dos índios, há muitos nomes conhecidos do mercado, como a Vale do
Rio Doce, do empresário Benjamin Steinbruch, a Paranapanema, que pertence
a fundos de pensão estatais, e a CR Almeida, do empresário Cecílio do
Rego Almeida. "As áreas indígenas são o último reduto mineral com
boas surpresas para o país", afirma Ricardo Dequech, diretor do Grupo
Paranapanema. "Queremos participar desse jogo porque somos os parceiros
ideais para os índios." Entre a massa de interessados, contudo, existem
candidatos estranhíssimos. É o caso de uma tal Mineração Chega Tudo, que
apresentou um pedido para pesquisar a existência de ouro na reserva Alto
Turiaçu, no Maranhão, onde vivem 650 índios da etnia urubu-caapor. Na
mesma região, há quatro requerimentos de pesquisa da Mineração Impertinente,
que ninguém sabe exatamente o que é e a quem pertence.
"Lotearam as áreas indígenas antes de regulamentar a mineração por
lei", afirma Márcio Santilli, um dos coordenadores da pesquisa feita
pelo ISA. "Muitas empresas, que são testas-de-ferro dos verdadeiros
interessados, vão acabar vendendo o seu lugar na fila." A explicação
para isso é simples. Ao preparar o projeto de lei que regulamenta a mineração
nas reservas, o senador Romero Jucá fez um acordo com as empresas do setor.
Por ele, ficou decidido que as mineradoras que requisitaram licença para
pesquisa antes de 1988, quando foi promulgada a Constituição, têm prioridade
na hora de oferecer seus préstimos aos índios. Se eles toparem, e o Congresso
autorizar a pesquisa ou a lavra, o negócio está feito. Assim mesmo, por
ordem de chegada, sem licitação nem nada. Dos 6.892
requerimentos de pesquisa nessas áreas cadastrados no DNPM, 1.941
são anteriores a 1988. Isso significa que as áreas somente serão entregues
às mineradoras por meio de licitação se as comunidades indígenas recusarem
os pedidos das empresas. "Eu não podia brigar contra isso. Acabaria
iniciando uma discussão sobre direito adquirido e o projeto não iria adiante",
explica o senador Romero Jucá.
Oscar Cabral
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| Vale do Rio Doce, a maior mineradora do mundo: 569
requerimentos de pesquisa |
Adidas e Havaianas – A liberação
de áreas indígenas para a mineração é um excelente negócio para os índios,
em particular, e para os brasileiros, em geral. Num primeiro momento,
imagina-se que, ao permitir a extração de minérios, está-se contribuindo
para dizimar o que sobrou dessas civilizações. Não é assim. Entre os 350.000 índios que vivem no país, apenas 2.000
nunca tiveram contato com brancos. Parcela significativa dos índios brasileiros
usa calção Adidas, calça sandálias Havaianas e depende, em grande parte,
do contribuinte brasileiro para sobreviver. Neste ano, a Fundação Nacional
do Índio, a Funai, vai gastar 80 milhões de reais em projetos agrícolas,
compra de ferramentas, transporte de índios e servidores, além de demarcações
de novas áreas. Com o dinheiro que irão receber, os índios poderão adquirir
ferramentas e resgatar um pouco da dignidade que o homem branco lhes tomou.
Além disso, o garimpo, com todas as implicações nocivas à saúde dos índios
e ao meio ambiente, já é uma realidade em muitas terras indígenas. Quando
não é praticado pelos próprios índios, como acontece no caso dos mundurucus,
no Pará, ele é feito por garimpeiros "brancos", como ocorre
no território ianomâmi. "É muito difícil combater essa garimpagem
por causa da extensão desses territórios", afirma Márcio Lacerda,
presidente da Funai.
A mineração legal, ao contrário, terá de respeitar as leis ambientais
e garantir o acesso dos índios à parte dos lucros. Ainda assim, o Congresso
precisa ter cuidado na hora de liberar algumas áreas para a mineração.
Um dos dez territórios mais cobiçados pelas mineradoras é o Trombeta–Mapuera,
na divisa de Roraima, Pará e Amazonas. São índios isolados, sem contato
com o homem, que só foram avistados por pesquisadores de avião. Ainda
não se sabe sequer quantos são. Autorizar a mineração numa região assim
seria um crime. Sempre que os deputados e senadores tiverem de analisar
um caso desses, convém lembrar os velhos livros de História. Afinal, desde
o século XVI, quando os primeiros colonizadores desembarcaram no Brasil,
os índios sempre foram passados para trás. Trocaram ouro por espelho,
entregaram toras em troca de cachaça e tiveram de se embrenhar na mata
para não virar escravos. Espera-se que, desta vez, eles tenham melhor
sorte.
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