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Tales
Alvarenga
É a cultura, tolinho!
"Intelectuais culpam os países
ricos ou
as elites locais pelo atraso brasileiro.
Motoristas de táxi
culpam os políticos
ladrões. Cabeleireiros culpam o governo
do PT. Eu digo: não é nada disso. Somos
todos nós juntos"
Espero que você, leitor, não esteja
mais entre aqueles que sempre procuram um bode expiatório
para explicar o atraso brasileiro. No passado, culpou-se primeiro
o imperialismo americano. Depois, mentes mais sofisticadas passaram
a acusar a exploração promovida pelos "países
centrais" contra os pobrezinhos "países periféricos",
como o Brasil. Os africanos? Bem, os africanos viviam naquela pindaíba
toda unicamente por ter sido triturados pelo colonialismo europeu,
informavam os bem-pensantes. O colonialismo foi embora há
uns cinqüenta anos. Ainda há escravidão na África,
tribos chacinam tribos e a aids é ainda mais popular por
lá do que a desnutrição. Recentemente, um governante
da África do Sul chegou a dizer que o vírus da aids
não passava de uma invenção ocidental. Intelectuais
culpam os países ricos ou as elites locais pelo atraso brasileiro.
Motoristas de táxi culpam os políticos ladrões.
Cabeleireiros culpam o governo do PT. Eu digo: não é
nada disso. É a cultura, tolinho! Somos todos nós
juntos a causa do atraso.
A África está num estágio
cultural semelhante ao dos bárbaros que derrubaram o Império
Romano do Ocidente há um milênio e meio. Já
estava antes do ciclo do colonialismo. O Brasil tem oscilado junto
com a América Latina inteira. O bloco teve caudilhos na mesma
fase, teve luta armada de esquerda no mesmo período, ditaduras
militares paralelas, redemocratizações, planos econômicos
mirabolantes e, por fim, as tentativas em curso de ajuste fiscal.
Alguns países da América Latina se movimentaram de
forma diferente, mas é impressionante a coincidência
de tempos históricos na maior parte dos casos. Aí
estão uma herança cultural e uma capacidade medíocre
de reagir que transcende fronteiras. As condicionantes do crescimento
são também externas (imperialismo, colonialismo, globalização),
mas o que interessa é aquilo que os países fazem com
os estímulos positivos ou negativos que recebem. As condições
vigentes dos anos 70 aos anos 2000 depenaram os países latino-americanos,
mas foram benévolas com os Tigres Asiáticos. Nos anos
70, o Brasil era muito mais ágil, mais rico e mais atraente
para investimentos do que Taiwan, Coréia do Sul e Cingapura.
A busca de bodes expiatórios tende
a nos transformar em um povo apático e conformista. Os Tigres
Asiáticos se mexeram. Educaram suas populações
para operar uma economia baseada em tecnologia. Mandaram multidões
de jovens fazer cursos de doutorado no exterior em áreas
favoráveis ao desenvolvimento. Criaram um ambiente propício
aos investimentos. Incentivaram as exportações. Com
exceção do Chile, que abriu e desregulamentou seu
mercado, os latino-americanos foram lentos nessas mudanças.
Na última semana, o Fórum Econômico Mundial,
entidade internacionalmente respeitada, divulgou seu ranking global
de competitividade. O Brasil estava em 54º lugar no ano passado.
Caiu para o 57º lugar neste ano, entre 104 países analisados.
Levamos notas péssimas em criminalidade, taxas de juros,
burocracia, infra-estrutura, déficit fiscal do setor público,
sistema de impostos. Na lista dos 104 países, a América
Latina crava um 22º lugar em competitividade, com o Chile,
e depois só volta a aparecer no 48º posto, com o México.
No meio da lista, estamos rigorosamente alinhados com a mediocridade.
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