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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
Sobre Nobel, beatos,
mulheres e gays
A freira brasileira
que marcou gol
contra, o azar da filha de Cheney
e um idioma só de mulheres
A Áustria é um país de
8 milhões de habitantes, o Brasil de 180 milhões.
Digamos que 0,2% dos austríacos se dedique à literatura.
Temos aí 16.000 escritores. O
Brasil é menos alfabetizado. Aqui, os praticantes das letras
não passariam de 0,02%. Mas, como a população
é muito maior, temos um número robusto: 36.000.
Trinta e seis mil escritores brasileiros contra 16.000
austríacos. E quem ganha o Prêmio Nobel de Literatura?
Uma austríaca, Elfriede Jelinek.
Mudemos para a religião. Na Áustria,
75% da população declara-se católica, o que
equivale a 6 milhões de pessoas. No Brasil a porcentagem
é quase a mesma 74%, segundo o censo de 2000. Isso
dá 130 milhões de católicos. Digamos que, dos
6 milhões de austríacos, 10% sejam católicos
de verdade, quer dizer, observadores estritos dos ritos e das regras.
Resultado: 600.000 pessoas. O Brasil
é mais dado a crenças, mas mais esculhambado em sua
observância. Fiquemos então com os mesmos 10%. Treze
milhões de verdadeiros católicos. Treze milhões
no Brasil contra 600.000 austríacos.
E, no entanto, na hora de promover novo beato, primeiro grau da
santidade, o papa escolhe quem? Um austríaco, Carlos I (1887-1922),
o último imperador do país.
Entre as mais caras aspirações
brasileiras estão ganhar um Prêmio Nobel e fazer um
santo. Neste mês o Brasil conheceu dupla derrota, ambas, para
maior humilhação, diante de um país pequeno
como a Áustria. Em 2002 o papa canonizou madre Paulina, mas,
apesar de viver no Brasil, ela nasceu na Itália. Não
pode ser considerada uma conquista nacional por inteiro. A beatificação
de Carlos I é esquisita. Ele autorizou o uso de armas químicas
na I Guerra Mundial. Menos controversas seriam as beatificações,
para ficar no âmbito palaciano, da princesa Isabel ou de dona
Santinha, a mulher do presidente Dutra, ambas catolicíssimas.
Mas ainda teve mais: quem possibilitou a beatificação
de Carlos I, testemunhando um milagre por ele praticado, foi uma
freira brasileira, que disse ter se curado de varizes ao rezar por
sua intercessão. É demais! Por que a freira não
rezou para um brasileiro, ainda mais que se tratava de algo tão
fácil de curar quanto uma crise de varizes? A freira marcou
um gol contra.
O homossexualismo entrou forte no debate político,
na Europa e nos Estados Unidos. O Parlamento Europeu rejeitou, na
semana passada, a indicação do italiano Rocco Buttiglione
para o cargo de comissário europeu de Justiça, Liberdade
e Segurança. Buttiglione é ministro para Assuntos
Europeus do governo de Silvio Berlusconi, na Itália. É
um católico piedoso, amigo do papa (outro futuro beato?)
e, além de situar-se contra o aborto, considera o homossexualismo
um pecado. Outro membro do governo italiano, Mirko Tremaglia, de
passado fascista, lamentou a derrrota de Buttiglione. "Os culattoni
estão em maioria", disse. É preciso traduzir a palavra?
Digamos, para usar um termo brando, que queira dizer mariquinha.
Nos Estados Unidos, o homossexualismo
o casamento gay em especial só perde do Iraque e da
economia, como tema da campanha presidencial. No último debate
entre os candidatos, o mediador perguntou se eles acreditavam que
o homossexualismo era uma questão de escolha. George W. Bush
disse que não sabia. John Kerry respondeu, invocando o exemplo
da filha do vice de Bush: "Se você fizesse essa pergunta à
filha de Dick Cheney, que é lésbica, ela lhe diria
que é o que é desde que nasceu. Não é
uma escolha".
Coitada de Mary Cheney. Não por seu
homossexualismo. Ela não pôde escolher coitada
é o pai que tem.
Morreu na China a última praticante
do nushu, uma escrita inventada por mulheres e só
usada entre elas. Para alguns, o nushu é mais que
milenar. Comprovadamente, existe desde o século XIX. Composto
de caracteres próprios, servia para as mulheres registrarem
canções e poesias, em suas reuniões, e para
dar conselhos às mais jovens, em especial às noivas.
O idioma digamos que seja um idioma, embora só escrito
desenvolveu-se entre as mulheres de uma região da
província de Hunan, num tempo em que lhes era vedada a educação
formal. Elas o ensinavam umas às outras, de geração
em geração, e assim foi até a senhora Yang
Huanyi, que morreu em fins de setembro, com quase 100 anos, numa
época em que, levantadas as proibições contra
a educação feminina, o nushu perdeu muito da
utilidade e do apelo.
O idioma permanece documentado nos estudos
acadêmicos, mas não nos textos das mulheres, que elas
costumavam destruir ou se fazer enterrar com eles. O nushu
tem sido encarado como uma forma originalíssima de resistência
das mulheres à opressão. O.k. quanto à resistência,
mas originalíssima? Pensando bem, as mulheres desde sempre
têm uma língua só delas. Não que seja
comum a invenção de escritas próprias
mas que falam uma língua que só entre elas, e que
homem só com muita observação e persistência
penetra, isso falam.
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