Edição 1876 . 20 de outubro de 2004

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
Sobre Nobel, beatos,
mulheres e gays

A freira brasileira que marcou gol
contra,
o azar da filha de Cheney
e um idioma só
de mulheres

A Áustria é um país de 8 milhões de habitantes, o Brasil de 180 milhões. Digamos que 0,2% dos austríacos se dedique à literatura. Temos aí 16.000 escritores. O Brasil é menos alfabetizado. Aqui, os praticantes das letras não passariam de 0,02%. Mas, como a população é muito maior, temos um número robusto: 36.000. Trinta e seis mil escritores brasileiros contra 16.000 austríacos. E quem ganha o Prêmio Nobel de Literatura? Uma austríaca, Elfriede Jelinek.

Mudemos para a religião. Na Áustria, 75% da população declara-se católica, o que equivale a 6 milhões de pessoas. No Brasil a porcentagem é quase a mesma – 74%, segundo o censo de 2000. Isso dá 130 milhões de católicos. Digamos que, dos 6 milhões de austríacos, 10% sejam católicos de verdade, quer dizer, observadores estritos dos ritos e das regras. Resultado: 600.000 pessoas. O Brasil é mais dado a crenças, mas mais esculhambado em sua observância. Fiquemos então com os mesmos 10%. Treze milhões de verdadeiros católicos. Treze milhões no Brasil contra 600.000 austríacos. E, no entanto, na hora de promover novo beato, primeiro grau da santidade, o papa escolhe quem? Um austríaco, Carlos I (1887-1922), o último imperador do país.

Entre as mais caras aspirações brasileiras estão ganhar um Prêmio Nobel e fazer um santo. Neste mês o Brasil conheceu dupla derrota, ambas, para maior humilhação, diante de um país pequeno como a Áustria. Em 2002 o papa canonizou madre Paulina, mas, apesar de viver no Brasil, ela nasceu na Itália. Não pode ser considerada uma conquista nacional por inteiro. A beatificação de Carlos I é esquisita. Ele autorizou o uso de armas químicas na I Guerra Mundial. Menos controversas seriam as beatificações, para ficar no âmbito palaciano, da princesa Isabel ou de dona Santinha, a mulher do presidente Dutra, ambas catolicíssimas. Mas ainda teve mais: quem possibilitou a beatificação de Carlos I, testemunhando um milagre por ele praticado, foi uma freira brasileira, que disse ter se curado de varizes ao rezar por sua intercessão. É demais! Por que a freira não rezou para um brasileiro, ainda mais que se tratava de algo tão fácil de curar quanto uma crise de varizes? A freira marcou um gol contra.  

O homossexualismo entrou forte no debate político, na Europa e nos Estados Unidos. O Parlamento Europeu rejeitou, na semana passada, a indicação do italiano Rocco Buttiglione para o cargo de comissário europeu de Justiça, Liberdade e Segurança. Buttiglione é ministro para Assuntos Europeus do governo de Silvio Berlusconi, na Itália. É um católico piedoso, amigo do papa (outro futuro beato?) e, além de situar-se contra o aborto, considera o homossexualismo um pecado. Outro membro do governo italiano, Mirko Tremaglia, de passado fascista, lamentou a derrrota de Buttiglione. "Os culattoni estão em maioria", disse. É preciso traduzir a palavra? Digamos, para usar um termo brando, que queira dizer mariquinha.

Nos Estados Unidos, o homossexualismo – o casamento gay em especial – só perde do Iraque e da economia, como tema da campanha presidencial. No último debate entre os candidatos, o mediador perguntou se eles acreditavam que o homossexualismo era uma questão de escolha. George W. Bush disse que não sabia. John Kerry respondeu, invocando o exemplo da filha do vice de Bush: "Se você fizesse essa pergunta à filha de Dick Cheney, que é lésbica, ela lhe diria que é o que é desde que nasceu. Não é uma escolha".

Coitada de Mary Cheney. Não por seu homossexualismo. Ela não pôde escolher – coitada – é o pai que tem.  

Morreu na China a última praticante do nushu, uma escrita inventada por mulheres e só usada entre elas. Para alguns, o nushu é mais que milenar. Comprovadamente, existe desde o século XIX. Composto de caracteres próprios, servia para as mulheres registrarem canções e poesias, em suas reuniões, e para dar conselhos às mais jovens, em especial às noivas. O idioma – digamos que seja um idioma, embora só escrito – desenvolveu-se entre as mulheres de uma região da província de Hunan, num tempo em que lhes era vedada a educação formal. Elas o ensinavam umas às outras, de geração em geração, e assim foi até a senhora Yang Huanyi, que morreu em fins de setembro, com quase 100 anos, numa época em que, levantadas as proibições contra a educação feminina, o nushu perdeu muito da utilidade e do apelo.

O idioma permanece documentado nos estudos acadêmicos, mas não nos textos das mulheres, que elas costumavam destruir ou se fazer enterrar com eles. O nushu tem sido encarado como uma forma originalíssima de resistência das mulheres à opressão. O.k. quanto à resistência, mas originalíssima? Pensando bem, as mulheres desde sempre têm uma língua só delas. Não que seja comum a invenção de escritas próprias – mas que falam uma língua que só entre elas, e que homem só com muita observação e persistência penetra, isso falam.

 
 
 
 
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